Sobre o conto | Cat Person, de Kristen Roupenian

sobre o conto

ROUPENIAN, Kristen; Cat Person. In: ROUPENIAN, Kristen. Cat Person e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Cat Person foi publicado no The New Yorker  em 2017 e viralizou,  tornando-se a postagem de ficção mais acessada do site.

Cat Person e Outros ContosO conto traz a história de Margot, uma jovem de 20 anos que faz faculdade e trabalha na bombonière de um cinema para se manter. As vezes flertar com os clientes faz parte de sua rotina para que o tempo passe mais rapidamente, até que ela faz uma piadinha com um homem de 30 e poucos anos, Robert, e alguns dias depois ele pede o seu número para que possam conversar nas redes sociais.

A partir daí um relacionamento virtual começa a acontecer, ambos compartilham coisas do seu cotidiano e piadinhas internas crescem, até que resolvem se encontrar pessoalmente e tudo segue ladeira a baixo. Bom, para evitar spoilers vou parar a história por aqui.

Margot se vê numa situação muito delicada, o constante medo de morrer por sair com um cara mais velho, de ir pra casa dele, o receio de desistir de tudo aquilo é sufocante. É comum que desilusões amorosas aconteçam, pois geralmente quando a pessoa está apaixonada, só consegue ver as características boas do outro e depois que esse encanto passa um pouco, o verdadeiro eu do outro começa a se mostrar, nesse caso, Margot começa a ver o verdadeiro Robert desde o primeiro encontro.

Não é de se admirar que esse conto bombou tanto no ano de sua publicação, pois Kristen Roupenian representa em poucas páginas os relacionamentos atuais de uma sociedade que está acostumada ao imediatismo das redes sociais, a falar o que quiser, a interpretar os textos da maneira que lhe convém por falta de linguagem corporal, enfim… a autora mostrou uma sensibilidade que tocou vários leitores. Diria que Cat Person representa MUITOS relacionamentos dos Millenials.

 

 

Sobre o conto | Uma galinha, de Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice; Uma galinha. In: MOSER, Beijamin (Org.). Clarice Lispector Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

CLARICE_LISPECTOR_TODOS_OS_CON_1460659755578277SK1460659755BO conto Uma galinha, da Clarice Lispector, está no livro Laços de Família e é uma história curtinha que traz um acontecimento corriqueiro na vida de pessoas que criam galinha: o momento de escolher e pegar uma para fazer o almoço do dia.

A narrativa me lembrou muito minha infância, pois eu tinha uma vizinha que criava galinhas para esse fim. Aqui o cotidiano ganhou resignificações e reflexões sob uma nova perspectiva.

Nas palavras de Clarice, a galinha ganha uma personificação e por vezes me fez lembrar uma mulher que foge de um possível agressor:

“Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga.” P. 157

Outro momento em que a galinha lembra uma mulher foi quando ela pôs um ovo e comoveu a todos da família, fazendo com que desistissem de levá-la para a panela. A maternidade em si emociona, a eminencia de uma nova vida e nova esperança transforma as emoções humanas. O que faria a galinha menos “ser vivo” antes de colocar o ovo?

Embora o ovo tenha trazido tanta comoção, o homem é um ser volátil, corre atrás da galinha, a ama e logo em seguida a quer na panela novamente. A coitada da galinha passou um período sendo amada como bicho de estimação (um gato ou um cachorro), mas algum tempo depois é desprovida de empatia e seu fatídico destino chega.

O conto, apesar de curtinho, aborda a condição feminina e o limiar da relação homem-animal, onde ama-se alguns e comem-se outros. Um ótimo texto para quem gosta dos temas feminismo e veganismo.

Um conto de natal | China Miéville | Boitempo

MIÉVILLE, China. Um conto de natal. São Paulo: Boitempo editorial, 2018.

MIÉVILLE, China. Um conto de natalChina Miéville é um dos grandes nomes da atualidade no gênero New Weird, principalmente com seus livros A cidade e a cidade e Estação Perdido. Em 2018 publicou esse pequeno conto de natal, que foi publicado originalmente pela Pan Books, chegou ao Brasil pela Folha de São Paulo e agora ganhou uma edição pela Editora Boitempo.

Apesar da história curtinha, o autor apresenta ao leitor um cenário futuro onde as empresas privatizaram tudo relacionado ao natal e as frentes revolucionárias de esquerda tentam a todo custo lutar pelo direito de comemorar essa data festiva como antes.

O mais interessante é perceber a naturalidade como os conceitos sofreram grandes alterações, pois a data mais capitalista do nosso calendário virou alvo de reivindicação do lado mais “social” e menos “lucros”. Ao final das contas será mesmo que isso já não ocorre singelamente atualmente?! Independente da faixa salarial, o clima natalino não pega a todos? E se, de fato, o capitalismo chegar a comprar os direitos dos itens de natal? Impossível??

“Vemos com desdém as tentativas patéticas da velha Esquerda de reviver esta cerimônia Cristã. A ideia de que o governo ‘roubou’ ‘nosso’ Natal é tão somente um aspecto do domínio dessa Cultura do Medo que rejeitamos. Chegou a hora de uma reavaliação além da esquerda e da direita, e de forças dinâmicas revigorarem a sociedade. No mês passado, nós do IIMV organizamos uma conferência no ICA sobre por que greves são chatas e por que a caça à raposa é o novo pretinho básico…”

Miéville, China. Um conto de Natal . Boitempo Editorial. Edição do Kindle.

Isso me lembra a questão do sono e de como somos inúteis ao capitalismo quando estamos dormindo e como cada vez mais aparecem subterfúgios para que as pessoas durmam menos, ocupem mais o seu tempo, passem mais tempo ao celular antes de dormir… Estão, aos poucos, comprando até mesmo o nosso sono, acredite.

Além dessa questão capitalista, é possível refletir também sobre a construção das bolhas sociais em que grupos as vezes lutam por causas parecidas, mas não conversam entre si, pois há muito perderam essa capacidade de dialogar com aqueles que pensam um pouco fora do seu padrão.

Esse conto reúne várias críticas à sociedade atual com uma narrativa tão leve que em pouco tempo o leitor já se encontra submerso nessa realidade sem precisar de muita explicação. Os detalhes simplórios são o que cativam e traz a história para mais perto de nós, como as Aspidistras tão comuns na Inglaterra e os presentes clichês de natal.

Sobre o conto | História do demoníaco Pacheco, de Jan Patocki

PATOCKI, Jan; História do demoníaco Pacheco. In: CALVINO, Italo (Org.); Contos fantásticos do século XIX. 7° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

contos fantásticos

Sabe aquela sensação estranha de que você estava sonhando, acha que acordou, mas na realidade entrou em outro sonho e dessa vez está consciente de que você não está acordado?! Super esquisito, né?!

Foi exatamente isso que O demoníaco Pacheco me fez lembrar.

O protagonista da narrativa, Alphonse van Worden, acorda ao lado de dois cadáveres, o que é difícil de acreditar para qualquer pessoa, ainda mais para um oficial da armada napoleônica, então ele tenta lembrar onde esteve na noite passada e o que  fizera para encontrar-se agora em estado tão deplorável.

Ao buscar refazer seus passos, depara-se com a história do estranho Pacheco, que tinha um olho vazado e sua língua pendia da boca. Teria Pacheco sido tomado pelo demônio ao entrar em contato com os cadáveres dos irmãos De Zoto ou ao entregar-se a uma noite de amor com duas irmãs?!

A história revela-se dentro da história principal e se entrelaça de maneira bizarra. O macabro aqui é ressaltado pelas relações entre amor e morte, bem como pelo inesperado e assustador.

O final do conto fecha em forte ligação ao início, tornando-se uma cobra que engole o próprio rabo, daí a relação com o sonho dentro de um sonho consciente. Já imaginei como a história terminaria, mas mesmo assim o conto não perdeu seu tom assustador.

Sobre o conto | O príncipe feliz, do Oscar Wilde

contos_completos_1261066530bO príncipe feliz é o primeiro conto do livro Contos completos, uma edição bilíngue organizada pela Editora Landmark.

O príncipe feliz hoje é apenas uma estátua coberta com folhas de ouro e que possui três pedras preciosas, duas em seus olhos e uma na bainha de sua espada. Antigamente ele recebera o título de feliz porque as festas de seu castelo o bastavam para alegrar a vida, ele não precisava olhar para as mazelas do mundo. A cidade inteira admirava a estátua do príncipe.

O outro personagem principal desse conto é uma andorinha que não viajou com seu grupo por ter se apaixonado por um junco, optara por enfrentar o frio do inverno por esse efêmero sentimento.

Juntos, o príncipe e a andorinha, descobrem o a felicidade e o que realmente é o amor, não se importam em sacrificar-se para fazer o bem ao próximo.

[…] Os vivos sempre acham que o ouro podem fazê-los felizes. P. 16

Esse conto de Oscar Wilde a princípio parece uma fábula infantil, mas com o desenvolvimento da história percebemos como ele é imbuído de significados, tanto em relação a aparências como em relação aos verdadeiros sentimentos, uma história linda e emocionante.

Eu li: Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut

HARRISON_BERGERON_1394998252BUm conto distópico escrito em 1961 em que o autor mostra uma sociedade nivelada por baixo. O governo usou a “equidade” para tirar a “vantagem” de certas pessoas, assim todos poderiam ser iguais, ninguém mais forte ou mais inteligente do que os outros, por exemplo.

Para conseguir isso, o governo estipula “contrapesos” para balancear essas diferenças. Se a pessoa é mais inteligente do que o padrão tido como normal, um aparelho auditivo intervirá quando ela fizer certas conexões neurais mais intensas. Se é mais rápida, pesos são acrescentados para diminuir a velocidade; se mais bonita, recursos a tornam mais feia…

A estória se passa em 2081, 120 anos depois de quando foi escrita e com uma diferença secular já previa uma atitude que se tornaria comum. Não adianta tentar negar e dizer que esse nivelamento “por baixo” não exista, pois vejo um exemplo claro disso nos cinemas, em que só há um horário (geralmente o último) para filmes legendados porque as pessoas geralmente reclamam que não conseguem ver o filme e ler a legenda ao mesmo tempo…

Esse livrou trouxe reflexões básicas mas pertinentes, o governo pode até tentar nos nivelar por baixo, mas muitas vezes isso começa a partir de nós mesmos. Quantas vezes não ouvimos um “ainda bem que tirei a média”, “vai assim mesmo, tem gente que nem fez nada”, “vou pegar o resumo na internet”… Pois é, as vezes as pessoas se nivelam por baixo sem nem precisar de imposição para isso.

Diversas indagações surgem durante a leitura dessa estória, principalmente “por que não usar recursos para melhorar os menos capazes e nivelar com base nos que se destacam?”, “será que ter a média verdadeira não seria melhor?”, e por aí vai.

2081Esse conto é curtinho e tem disponível na internet, para ler online ou para baixar, e é o tipo de estória ideal para discutir com os amigos e parar para refletir. Ah, o curta 2081 é a adaptação de Harrison Bergeron.

Skoob

Texto original (em inglês)

Texto traduzido para o português.

Além dessa questão do nivelamento, o autor abordou ainda alguns outros pontos que sempre são criticadas em diversos ambientes e não apenas em distopias,  como: a cultura de massa por meio da televisão, como a mídia influencia no que as pessoas pensam, a banalidade e manipulação dos acontecimentos, dentre outros.