O sonho dos heróis |Adolfo Bioy Casares |Biblioteca Azul

CASARES, Adeolfo Bioy. O sonho dos heróis. São Paulo: Biblioteca Azul e TAG, 2019.

o_sonho_dos_herois_15545596779552sk1554559677b A revista da TAG frisou bastante que Bioy Casares viveu à sombra de Borges, seu grande amigo e importante escritor da língua espanhola.  Javier Cercas indicou esse livro alegando que nessa obra Casares prova, sem muito esforço, que sua escrita é melhor do que a do amigo que tanto o apagou.

Comparações a parte, tendo em vista que ainda não li nada de Borges, deixo aqui minhas impressões sobre O sonho dos heróis.

A história conta os dias de Gauna, um jovem mecânico que leva a vida entre o trabalho e os encontros com os amigos até que, por receber um palpite de seu barbeiro, ganha uma aposta em uma corrida de cavalos. O rapaz, então, resolve gastar seus ganhos no carnaval e proporcionar noites inesquecíveis aos amigos. O grande problema é que a terceira noite de carnaval é apagada completamente da mente dele.

Em um de seus dias comuns, ele conhece e se apaixona por Clara, filha do bruxo Taboada,  e a partir daí ele  deixa um pouco de lado o mistério do que aconteceu naquela noite um pouco de lado. A relação com os amigos já não é mais a mesma e ele atribui o fato ao seu novo relacionamento amoroso, relacionamento este que não é nada saudável, pois é pautado em ciúme (Gauna cogita bater e até matar Clara por puro acesso de ciúme). Clara é uma moça dada às artes, faz teatro e gosta de ler, realmente uma antítese de Gauna, que é machista e violento.

Depois de um outro acontecimento, Gauna resolve refazer seus passos para desvendar de uma vez por todas o que foi apagado de sua memória. Então, o leitor começa a perceber um mar de paralelismos proporcionado pela narrativa. A priori nós temos a nova percepção de Gauna a respeito das noites de carnaval, já que no começo do livro ele é apenas um jovem inconsequente e agora, após anos de um relacionamento estável, passa a ver suas atitudes e as dos amigos com um olhar mais crítico. Os extremos dos personagens também é algo que salta aos olhos, como já mencionada a disparidade de personalidade de Clara e Gauna, o que se estende a todos os amigos dele, típicos machões valentões. Por último, ressalto os sentimentos que Cassares provoca ao leitor que também é um céu e inferno.

Ao ler O sonho dos heróis nota-se uma história tênue, sem grandes clímax ou protagonista cativante. Porém, Casares brinca com os sentimentos do leitor com sua maneira de narrar a história. Confesso que em determinados momentos me peguei rindo de uma cena e em outras, fechando o livro de tanta repulsa (tem uma cena de maus tratos a um animal que me deixou péssima). O final da história é recheado de realismo mágico, o que tornou-se a parte mais envolvente do livro.

Logo que concluí essa leitura, pensei não ter gostado, mas depois de uma semana refletindo, mudei de opinião, pois apesar de a história em si ser bem simples, a narrativa do Casares me envolveu bastante e aí percebi a maestria dele como autor e sua capacidade de manipular os sentimentos do leitor. Ao final das contas, entendi os comentários de Javier Cercas sobre o subestimado escritor.

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Mangá | Ela e o seu gato

ela e o gatoQuando vi que esse mangá tratava da relação de uma mulher com o seu gato, logo fui atrás de saber mais sobre. Parecia ser muito bom.

A história de Ela e o seu gato é contada sob a perspectiva de Chobi, o gato encontrado na rua, que passou a morar com sua atual dona. O gato é apaixonado pela relação estabelecida entre eles.

A protagonista está tentando se adaptar a rotina estressante de sair diariamente para trabalhar, cozinhar e ainda ter tempo para relações sociais. Em seu cotidiano, é o amor de seu gato que traz certo alívio para ela. Pouco sabemos sobre o que se passa no trabalho dela, pois a narrativa é feita pelo gato, mas em alguns momentos também acompanhamos um encontro dela com uma amiga.

O mangá possui um tom melancólico em sua narrativa e os traços não são perfeitos, proporcionando ao leitor uma sensação de rotina e preguiça, algo típico dos gatos, rs. A história não traz grandes acontecimentos, sua proposta é mostrar a rotina de uma mulher e o seu gato, o que pode parecer monótono para alguns, mas algo sensível, verdadeiro e delicado para outros.

 

 

Um teto todo seu | Virgínia Woolf | Tordesilhas

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

images.livrariasaraiva.com.br Quando Virginia Woolf já era mais conhecida como escritora de livros e resenhista em jornais, foi chamada para ministrar uma palestra em uma faculdade sobre as Mulheres na Literatura.

O discurso proferido pela autora, tornou-se o livro Um teto todo seu, que posteriormente ganhou também algumas páginas de seu diário onde ela fala sobre os livros que estava escrevendo na época.

Para desenvolver sua fala, a autora cria uma personagem, Mary Beton, que muito se mistura com a Virginia. Ela tece seus comentário aos passear por uma estante de livros, retira exemplares, lê trechos e o leitor pode acompanhar seus pensamentos a respeito da Literatura através dos séculos.

O texto da Virginia é composto por uma gama de comentários sobre Literatura produzida por mulheres. A grande questão que a autora levanta é: onde estavam as mulheres antes do século XIX? Não haveria nenhuma mulher produzindo peças tão bem quando Shakespeare?

Quando a autora explora a questão da mulher na Literatura, ela deixa bem claro que não é sobre a mulher como assunto ou como consumidora, mas como produtora de obras literárias. Ela, então, ambienta a condição social imposta para as mulheres de responsáveis pelo lar como um fator limitador nessa produção intelectual feira pelo sexo feminino. Seria necessário que a mulher conquistasse sua independência financeira, tivesse “um teto todo seu” para poder ter a autonomia de sentar e libertar o que está em sua mente.

Esse livro é fundamental para quem gosta de literatura e assuntos feministas. Um excelente texto para tratar sobre as dificuldades impostas pela sociedade que impediram a produção intelectual das mulheres durante tantos anos. Essa punição fez com que as mulheres fossem vistas apenas como consumidoras de romances açucarados, sem voz e sempre subserviente.

 

Mangá | Wotakoi – O amor é difícil para otakus

41zQ0atEftL._SX341_BO1,204,203,200_Assim que li a primeira resenha sobre esse mangá, já corri para comprar o meu exemplar. Wotakoi é composto por seis volumes e chegou em março ao Brasil como uma publicação bimestral pela Panini Comics.

Esse mangá é uma mistura de Shoujo e Slice of life, onde o romance bonitinho dos shoujos adoçam a rotina de dois casais que trabalham no mesmo escritório.

Narumi e Hirotaka, o casal principal, estudaram juntos no colégio e se reencontraram no local de trabalho. Eles decidem sair para colocar os assuntos em dia e falar sobre a dificuldade de otakus em manter um relacionamento. Naru é viciada em mangás e até escreve histórias para vender em feiras temáticas, já Hiro é um gamer aficionado.

Taro e Hanako formam o casal secundário, que é muito engraçado. Eles vivem brigando porque competem por tudo. Me identifiquei bastante com Hana, bem… vejam só, ela também gosta mais de personagens secundários, rs. Hana também gosta de mangás e até faz cosplay.

Algo interessante que eu nunca tinha visto em qualquer outro mangá, é que ele traz frases ao pé da página que resume comicamente o que está se passando na história, então, depois de terminar a página, sempre me pegava rindo da frese ao lado da paginação. Além disso, a Hiro quebra a quarta parede e mostra que tem consciência de que está num mangá.

Pretendo acompanhar o desenrolar de Wotakoi. A história em si é bem simples, mas o clima de pós expediente com aquela vontade de relaxar nos vícios de otaku me deixou saudosista e com um sentimento tão tranquilo, que já quero o próximo volume. 🙂

 

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O diário de Anne Frank | BestBolso

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. 57° ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2018.

2206967Anne Frank escreveu em seu diário entre 1942 e 1944, enquanto estava escondida no andar de cima do escritório em que o pai trabalhava.

Além de sua família, o esconderijo abrigava também outra família e amigos. Para sobreviver, os refugiados contavam com a ajuda de amigos que ainda podiam transitar pelas ruas e com o comércio ilegal que traficava itens essenciais, como tickets do governo e alimentos.

Anne e sua família viviam financeiramente muito bem antes da guerra e isso fica muito claro principalmente porque eles tiveram como se sustentar durante esses anos de confinamento, período em que os preços das mercadorias eram elevadíssimos, conseguindo manter até mesmo cursos por correspondência.

A guerra

Como Anne está escondida num prédio, ela pouco tem contato com o que está acontecendo com as pessoas nas ruas da Holanda durante a guerra, mas ela acompanha as notícias pelo rádio diariamente e observa os transeuntes que podem ser vistos pela janela do sótão.

Uma passagem, em específico, demonstra a miséria presente nas ruas:

“As crianças deste bairro andam com camisas finas e sapatos de madeira. Não têm casacos, nem capas, nem meias, nem ninguém para ajudá-las. Mordendo uma cenoura para acalmar as dores da fome, saem de suas casas frias e andam pelas ruas até salas de aula ainda mais frias. As coisas ficaram tão ruins na Holanda que hordas de crianças abordam os pedestres para implorar um pedaço de pão.

Eu poderia passar horas contando a você o sofrimento trazido pela guerra, mas só ficaria ainda mais infeliz. Só podemos esperar, com toda calma possível, que ela acabe. Judeus e cristão esperam, o mundo inteiro esperam e muitos esperam a morte” P. 98 e 99

Em outros momentos, Anne escreve e opina sobre o cenário político global que se desenvolve além dos muros de seu esconderijo. É possível perceber, inclusive, o amadurecimento precoce da jovem que fala sobre assuntos tão sérios e pesados com apenas 13 ou 14 anos, exprimindo seus sentimentos de temor e esperança a respeito.

Os estudos e a Anne Feminista

Anne passa o seu tempo estudando. Claramente ela é uma pessoa de humanas (rs), quer ser jornalista e adora história e línguas. Seu ânimo em terminar leituras difíceis e de aprender idiomas sozinha é inspirador.

A menina se dedica com afinco aos estudos, pois quer ser ouvida. Em diversas passagens ela deixa claro que quer ser jornalista para fazer a diferença, não quer ser apagada como a mãe que só se dedicou às tarefas domésticas.

“E, se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever para mim mesma. Mas quero conseguir mais do que isso. Não consigo me imaginar vivendo como mamãe, a Sra. van Daan e todas as mulheres que fazem seu trabalho e depois são esquecidas. Preciso ter alguma coisa além de um marido e de filhos aos quais me dedicar! Não quero que minha vida tenha passado em vão, como a da maioria das pessoas. […] Quero continuar vivendo depois da morte!” P. 279

“Uma das muitas perguntas que me incomodam é por que as mulheres eram vistas, e ainda são, como inferiores aos homens. É fácil dizer que isso é injusto, mas não basta, realmente gostaria de saber o motivo dessa grande injustiça!” P. 350

Sexualidade

Esse livro foi proibido em alguns países devido aos comentários de Anne sobre o corpo feminino. Ela conversa abertamente sobre os órgãos sexuais feminino e masculino, explicando a anatomia e a fisiologia tanto em seu diário quanto para Peter, o jovem com quem ela tem conversado bastante no sótão.

Em uma dada passagem, Anne não deixa muito claro, mas tenho a sensação de que ela relatou um abuso sofrido por uma amiga do colégio:

“Peter descreveu como funcionam os métodos anticoncepcionais, e tomei coragem para perguntar como os garotos ficavam sabendo que haviam crescido. Ele teve de pensar nisso; disse que me contaria à noite. Contei o que aconteceu com Jacque, e disse que garotas são indefesas contra garotos fortes.
– Bom, você não precisa ter medo de mim – Disse ele.” P. 261

Experiência de leitura

Fiquei tão encantada com a Anne Frank e sua determinação e inteligência que lá pela metade do livro fui pesquisar sobre o que aconteceu com ela depois do Diário. Fiquei tão triste com o destino de todos os membros do sótão que isso me deixou ainda mais ligada emocionalmente a esse livro. A garota morreu de tifo, pouco tempo tempo depois da irmã, num campo de concentração quando tinha 16 anos.

Para quem não sabe, o pai da Anne, Otto, foi o único sobrevivente do sótão (isso não é spoiler, a informação está na primeira página do livro) e depois de ter sido liberto do campo de concentração nazista, recebeu o diário da filha, que foi resgatado por Miep. Ele deu início ao Instituto Anne Frank no lugar onde a família se escondeu durante a guerra, que hoje funciona como museu e o órgão incentiva a paz entre as nações para evitar que todo aquele sofrimento se repita.

Miep morreu por volta dos 100 anos, em 2010. Além de ter ajudado os refugiados do sótão levando alimento, livros e roupas, ela proporcionou que todas as pessoas do mundo tivessem acesso ao Diário de Anne Frank, realizando o desejo da jovem de “continuar vivendo depois da morte”. ❤

 

 

O feminismo é para todo mundo | Bell Hooks | Rosa dos tempos

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

o feminismoA ideia de Bell ao escrever esse livro foi de produzir um material acessível para apresentar o feminismo para as pessoas. Muito se fala de feminismo, mas na realidade pouco se conhece de fato as vertentes e ideias defendidas.

A autora começa com um apanhado histórico e evolutivo do feminismo e sua atuação na sociedade no passar dos anos. Relata como o feminismo esteve atrelado aos desejos de uma classe dominante durante anos, fechando os olhos para diferenças sociais.

A evolução e capilaridade do feminismo permitiu a inserção de pautas como sexualidade e a criação de filhos. Achei muito interessante a colocação que Bell faz sobre os abusos sofridos por crianças em casa, pois é comum ouvir falar apenas dos abusos sexuais cometidos por homens, mas raramente levanta-se a questão de abusos psicológicos e emocionais causados por mulheres às crianças. A visão que muitas pessoas têm sobre feminismo é de um movimento contra os homens, mas na verdade é sobre a superação do sexismo cultural que impede um convívio social harmônico.

“Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”

De fato Bell conseguiu alcançar seu desejo de produzir um material didático amplo e de linguagem acessível. É claro que um livro sempre terá suas limitações, uma vez que seu público se restringe a leitores, pessoas que possuem acesso aos livros (o que pode ser considerado um privilégio, de certo modo). O engajamento dos meios de comunicação em massa para remover os estigmas do feminismo é necessário para alcançar cada vez mais pessoas.

A autora aborda diferentes assuntos dentro do feminismo, como aborto, trabalho, raça e gênero, violência, casamento e companheirismo, sexualidade, amor, espiritualidade e política. É uma obra essencial para quem se interessa pelo assunto, pois traz explicações para termos e colocações sobre vários aspectos da sociedade.

Mangá | Assim falou Zaraustra

manga assim falouLi esta adaptação da obra de Nietzsche antes mesmo de ler o original, então não tenho como comparar as duas versões (se saiu muito do escopo do clássico ou qualquer outra informação do tipo).

A experiência límpida com o mangá, sem conhecimento prévio da história, me proporcionou um aproveitamento muito bom. Percebe-se a simplicidade da linha narrativa, porém com grande reflexão filosófica.

Conta-se a história de uma família cristã, onde o pai é pastor e sustenta a esposa e os filhos a partir das ofertas arrecadadas pela igreja. O rumor de que um dos filhos do casal é adotado toma força e leva a um desequilíbrio emocional do núcleo familiar. O jovem Zara sai de casa em buscas de respostas às suas indagações e acompanha Salomé, que lhe apresenta a lei do eterno retorno. A partir daí os questionamentos filosóficos sobre  Deus e a igreja se fortalecem.

Aqui aparece a famosa frase de Nietzche “Deus está morto”. A explicação para a “morte” de Deus faz-se a partir das atitudes humanas, onde estaria Deus diante de tanta iniquidade e maldade na face da Terra? A essência da caridade tão pregada pelo Cristianismo se esvaiu ao longo dos anos e a avareza tomou conta dos lares. Os princípios básicos pregados pela doutrina foram deturpados pelas pessoas e, aos poucos, sufocaram a Deus com Ego humano. Ou seria Deus apenas uma criação do próprio ego humano para sentir-se especial?

O estilo do desenho é muito bonitinho, o que achei estranho foi ler uma edição de mangá no sentido ocidental, da direita pra esquerda.