Bloco de três | Livros que me fizeram chorar

Olá, leitores!

Há algum tempo quero abrir essa coluna no blog. A ideia principal é fazer uma listinha com três itens que se liguem por uma temática específica, podendo ser livros, filmes e aleatoriedades da vida.

Hoje trouxe três livros que me fizeram chorar de VERDADE, não foi só aquela bad vibe ou sentimento forte. Eu literalmente parei a leitura para chorar porque estava sem estrutura para continuar.

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  1. Desde o ano passado que estou relendo Harry Potter aos poucos, mais ou menos um livro a cada dois meses (projeto super descompromissado, sem cronograma ou coisas do gênero), ontem concluí a leitura do Enigma do Príncipe, o sexto livro da série, e me peguei chorando na mesmíssima cena de anos atrás, a morte de Dumbledore.
    Mesmo conhecendo toda a história e os motivos daquela cena, é sempre muito chocante pensar na perspectiva do Harry, que tinha o diretor da escola como principal mentor no mundo bruxo e o vir sendo traído por alguém a quem confiava.
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  2. “O diário de Anne Frank” por si só não me fez chorar, mesmo acompanhando a precariedade em que sua família vivia no esconderijo. Me encantei pela personalidade de Anne e sua determinação nos estudos e pelos seus pensamentos emancipados, inclusive já fiz resenha sobre ele AQUI. O que me fez chorar foi o posfácio dessa edição, que contou de maneira sucinta o que aconteceu com cada um dos integrantes do esconderijo após a última página do diário.
    Depois disso, fui pesquisar sobre a vida de Anne e procurar fotos do museu que preserva as memórias da jovem. Esse livro, ainda, tem um quê de polêmica, uma vez que inicialmente o pai da Anne não deixou que todas as partes fossem publicadas e chegou a ser proibido em alguns países, isso tudo por conta das cenas de descoberta sexual na menina, que, infelizmente, ainda é um tabu para muitas pessoas.
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  3. O primeiro livro que me fez chorar feito uma criancinha foi “A princesinha”, de Frances H. Burnett (mesma autora de ‘O jardim secreto’), que foi publicado no Brasil em 1996 pela Editora 34. Essa história ganhou uma adaptação homônima em 1995 sob direção de Alfonso Cuarón e passava bastante a tarde na TV aberta no final da década de 90 e início dos anos 2000.
    Eu já chorava horrores assistindo ao filme e quando tive a oportunidade de ler essa obra chorei 500 vezes mais porque ele consegue ser muito mais triste, eu precisava fechar o livro e expurgar minha tristeza por uns 10 minutos antes de retomar a leitura, rs. Confesso que falando sobre ele agora, até me deu vontade de reviver essa leitura da minha adolescência (será que eu chorarei tanto assim lendo hoje?).
    Essa história ressalta, para além de tudo, a importância da imaginação na vida das crianças.
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Acho que “O quinze”, da Rachel de Queiroz foi o único livro que bateu “A princesinha” no nível de tristeza e de choro. Isso porque a história tem como pano de fundo a seca de 15, que realmente aconteceu aqui no Ceará e ler relatos, mesmo que sejam ficção, de pessoas migrando em busca de sobreviver enquanto a terra, os animais e seus parentes morrem de fome e de sede foi MUITO doloroso.

Olha só, acabei indicando um a mais, mas não tem problema, me conta aí se vocês já choraram lendo algum livro, se sim, qual?

Sobre o conto | Uma galinha, de Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice; Uma galinha. In: MOSER, Beijamin (Org.). Clarice Lispector Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

CLARICE_LISPECTOR_TODOS_OS_CON_1460659755578277SK1460659755BO conto Uma galinha, da Clarice Lispector, está no livro Laços de Família e é uma história curtinha que traz um acontecimento corriqueiro na vida de pessoas que criam galinha: o momento de escolher e pegar uma para fazer o almoço do dia.

A narrativa me lembrou muito minha infância, pois eu tinha uma vizinha que criava galinhas para esse fim. Aqui o cotidiano ganhou resignificações e reflexões sob uma nova perspectiva.

Nas palavras de Clarice, a galinha ganha uma personificação e por vezes me fez lembrar uma mulher que foge de um possível agressor:

“Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga.” P. 157

Outro momento em que a galinha lembra uma mulher foi quando ela pôs um ovo e comoveu a todos da família, fazendo com que desistissem de levá-la para a panela. A maternidade em si emociona, a eminencia de uma nova vida e nova esperança transforma as emoções humanas. O que faria a galinha menos “ser vivo” antes de colocar o ovo?

Embora o ovo tenha trazido tanta comoção, o homem é um ser volátil, corre atrás da galinha, a ama e logo em seguida a quer na panela novamente. A coitada da galinha passou um período sendo amada como bicho de estimação (um gato ou um cachorro), mas algum tempo depois é desprovida de empatia e seu fatídico destino chega.

O conto, apesar de curtinho, aborda a condição feminina e o limiar da relação homem-animal, onde ama-se alguns e comem-se outros. Um ótimo texto para quem gosta dos temas feminismo e veganismo.

Três romances para refletir sobre a condição feminina

Olá, leitores!

Hoje trouxe para vocês uma listinha rápida com dicas de romances para ler e refletir sobre um tema que está muito presente no nosso cotidiano.

Todos os dias é possível ver casos de feminicídio nos jornais, barbáries inigualáveis. A mulher, por ser fisicamente mais frágil e, por vezes, ter o seu lugar de fala cortado pelo machismo cotidiano ou sofrer abusos psicológicos e emocionais em relacionamentos nada saudáveis. Pensando nisso, trouxe aqui a indicação de três romances para ilustrar como a vida de muitas mulheres pode ser devastada sem a força da luta (e das conquistas) das mulheres.

1. A cidade do Sol, de Khaled Hosseini

a_cidade_do_sol_1295553285bA cidade do Sol é forte e marcante, traz a história de duas mulheres que cresceram de forma diferente, uma era incentivada pelo pai a estudar e a sonhar com o futuro, a outra era uma filha bastarda que passou a infância escondida para não manchar o nome do pai. Elas se encontram em condições adversas, durante a guerra no Afeganistão, e passam a compartilhar o mesmo teto, sofrendo física e emocionalmente num país em que as mulheres não possuem voz e precisam andar de burca nas ruas.

Falei sobre esse livro AQUI.

2. Hibisco Roxo, de Chimamanda Gnozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bChimamanda é mais conhecida pelos seus dois manifestos Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas. Em Hibisco Roxo a autora nos apresenta uma família nigeriana com suas tradições e a influência do cristianismo na cultura deles. É pesada a forma como a religiosidade exagerada pode varrer a vida de uma mulher para debaixo do tapete e fingir que não há nada acontecendo.

Falei sobre ele AQUI.

 

 

3. O conto da Aia, de Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bO conto da Aia ficou conhecido principalmente após a adaptação como série e repercutiu bastante durante as últimas eleições brasileiras. Uma distopia que levanta a temática de como as mulheres, em geral, são as primeiras a ter seus direitos retirados em momentos de crise e, novamente, como a religiosidade tenta apagá-las.

Falei sobre a obra AQUI.

 

 

 

Então, é isso, histórias de mulheres afegãs e nigerianas, bem como uma ficção sobre até onde as atrocidades machista-religiosas podem chegar.

É válido ressaltar que esses não são os únicos e podem não ser os melhores, a lista foi criada com base nos livros que eu li. Então o post fica aberto caso você queira acrescentar mais títulos nos comentários para que eu e os outros leitores possam conhecer mais obras do gênero. 😉

Violino, da Anne Rice || Editora Rocco

RICE, Anne. Violino. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Anne Rice é conhecida por suas crônicas vampirescas, que inicia-se com o livro Entrevista com o Vampiro, obra que rendeu a clássica adaptação cinematográfica sob atuação de Brad Pitt e Tom Cruise. A autora tornou-se referência na literatura sobrenatural por causa de suas criaturas noturnas.

Fiquei com vontade de ler Violino por causa da temática:  fantasma no Brasil. A oportunidade de desfrutar a criatura, até então explorada por vários autores clássicos e contemporâneo, sob a perspectiva da Anne. Confesso que não gostei muito do personagem, mas esse livro acabou mostrando outro viés como foco principal.

Esse livro foi escrito pela Anne e para Anne, ela se transcreve na pele da protagonista e conta em parte sua biografia e entrelaça suas memórias com ficção. A narrativa é pesada, dramática e triste, o que pode tornou a leitura um pouco cansativa.

Conhecemos Triana (três Annes, daí a referência da autora a si mesma) em um momento delicado, no pós morte de seu segundo marido, ela tem um contato muito próximo com a morte, seus parentes mais próximos faleceram de forma marcante, inclusive sua filha quando ainda criança. A protagonista deixa a vida levá-la sem muita ambição, sua relação com a música clássica é que a sustenta emocionalmente, embora sua frustração também parta da música, pois ela nunca aprendera a tocar seu instrumento favorito, o violino.

O surgimento do músico fantasma leva Triana a mergulhar em suas memórias e a reconhecer seu próprio eu, o enfrentamento aos seus fantasmas pessoais toma o foco da narrativa e conduz o leitor ao seu momento de crescimento.

De maneira geral Violino tem uma história bonita, emblemática e poética, mas a narrativa é dramática em demasia, o que pode causar estranhamento ao leitor e dificultar o andamento da leitura.

O conto da aia, da Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bLer O conto da aia foi perturbador e envolvente. A história se passa na República de Gilead, numa sociedade teocrática construída após um golpe de Estado. Nesse ambiente futurista, mas não tão distante assim, as pessoas apresentam altas taxas de infertilidade por motivos diversos: poluição, uso exacerbado de anticoncepcionais ou qualquer outro fator ainda não comprovado.

Com o intuito de restabelecer os índices de natalidade, é imposta uma organização em que existem categorias de mulheres, as esposas, as Martas e as Aias. As Aias são escolhidas com base em: mulheres com ovários saudáveis para gerar filhos em famílias com mais recursos financeiros, porém inférteis. Essa prática é baseada na história bíblica de Raquel e sua célebre frase “dá-me filhos senão eu morro”. Seria de se esperar que esse negócio não fosse funcionar muito bem, tendo em vista o resultado catastrófico advindo da relaçõe de Abraão em conhecer biblicamente uma mulher porque a esposa não podia ter filhos e pá! a guerra no Oriente Médio está aí.

O assustador de entrar em contato com essa narrativa é ver o quão ela é possível de acontecer e como pode ser eminente. Não sei quanto ao fato das dificuldades biológicas de procriação, mas ao estado de submissão imposta às mulheres, o que já aconteceu, por exemplo, no Afeganistão onde mulheres andavam de mini saia e frequentavam a Universidade até a década de 70 e após um golpe de Estado elas foram obrigadas a usar burca, o que é tremendamente triste!

Para conhecer um pouquinho mais dessa transição no Afeganistão, recomento a leitura de Persépolis e de A cidade do Sol.

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A capacidade de adaptação

O arrepio na espinha das leitoras ao entrar em contato com essa história é o sentimento de incapacidade transmitida. Por mais que você seja totalmente contra essa imposição, os guardas estão lá para te lembrar de que ou você faz ou você morre e diariamente são apresentados exemplos de pessoas enforcadas e postas na muralhas para manter esse sentimento sempre vivo.

Mulheres que antes ganhavam o próprio dinheiro são submetidas a essas condições e percebem como elas conseguiram se adaptar àquela inércia, o que a princípio era uma luta para sobreviver tornou-se o habitual.

A protagonista se depara com esse sentimento principalmente quando ela encontra alguns turistas japoneses, mulheres de saia, ela se dá conta de como tudo parecia tão distante, há décadas talvez, mas não fazia muito tempo desde que adotara as vestes vermelhas.

A narrativa

A história é contata em primeira pessoa, sob a perspectiva de uma aia. A autora imerge o leitor nessa sociedade distópica aos poucos, talvez como uma analogia à adaptação das aias, utiliza recortes do passado (período em que vivemos) e já quase no final a protagonista começa a interagir com o leitor.

Algumas pessoas podem achar o fluxo da história um pouco arrastado, mas essa característica me parece intencional, para aproximar ainda mais o leitor à letargia cotidiana das aias.

Tudo o que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. P. 183.

Esse livro é indicado para todos, homens ou mulheres, mas fica os dois avisos: a escrita é um pouco lenta e isso pode tornar a leitura cansativa; e as mulheres podem ficar aflitas diante das condições apresentadas.