A história secreta | Donna Tartt | Companhia das Letras

A História Secreta

A história começa a partir de um assassinato e a partir daí o narrador faz uma digressão para contar o que culminou naquele fato.

Richard é um jovens californiano de classe média baixa que resolve ingressar na faculdade, como a família não tem dinheiro, ele se esforça para conseguir uma bolsa para estudar nessa considerada faculdade.

Ao chegar lá, ele escolhe estudar Grego, por é o idioma que ele já vinha estudando, mas o professor dessa turma é um excêntrico que escolhe a dedo seus alunos. Como era de se esperar, Richard não é aceito de primeira, até que ele ajuda o grupo de 5 estudantes a resolver um problema de tradução.

Por mérito, ele acaba integrando esse seleto grupo, agora composto por 6, que se destacam no campus pela estética clássica e soberba. Ao ingressar nessa turma, Richard passa a mentir sobre a sua vida, pois ele era o único que não tinha dinheiro e isso o envergonhava.

No geral, A história secreta é composta por um núcleo de personagens adolescentes boêmios e inconsequentes. A autora ainda tentou dar certa profundidade aos personagens com as aulas de Julian, mas foi algo tão superficial que chegou a ser quase desnecessário.

O livro é longo demais para o que se propõe, tornando-se cansativo e sem grandes pretensões. Iniciamos sabendo quem morreu e mais ou menos o que aconteceu, então apenas acompanhamos esse desenrolar. Várias vezes a autora tenta fazer cenas de mistério, mas nada mais é do que um personagem contanto o que estava acontecendo fora da vista do narrador, mas que ele notou um ou outro vestígio nas cenas anteriores.

GoodReads | Amazon

Uma casa no fim do mundo | Michael Cunninghan |Companhia das letras

CUNNINGHAN, Michael. Uma casa no fim do mundo. 2°ed.  São Paulo: Companhia das letras, 2019.

Uma casa no fim do mundoEsse foi o livro do mês de dezembro de 2019 da TAG curadoria (código promocional para assinar a TAG com desconto: SAM7IATB) com tradução de Isa Mara Lando. ‘Uma casa no fim do mundo’ foi publicado em 1990 e o autor o considera seu primeiro livro, ignorando a existência da sua real primeira publicação. Michael Cunninghan ficou mais conhecido por um livro publicado anos depois, o As horas, que deu origem ao filme homônimo, escrito no mesmo estilo, porém com envolvendo a vida e a obra de Virgínia Woolf.

Michael Cinninghan trouxe aqui a amizade de dois jovens sob a perspectiva de quatro olhares narrativos e com o pano de fundo os Estados Unidos entre as décadas de 60 e 80, passando pela infância, adolescência e vida adulta de Jonathan e Bobby.

Em meio à década do movimento hippie, a descoberta da sexualidade dos dois garotos é regada a muita música e melancolia. Aqui o autor aproveita para explorar diversos assuntos como romance homossexual, uso de drogas e AIDS. Ao inserir as outras narradoras, Claire e Alice, o autor levanta mais assuntos interessantíssimos, como poliamor, relacionamento abusivo, romance na terceira idade, luto e maternidade.

” “A maioria dos pais não são amantes”, disse Clare. “Os meus não eram. Eram apenas casados, e nem davam muita bola um para o outro. Pelo menos eu e Jonathan somos bons amigos.”  “P.165

O melhor de tudo é que com um romance de formação de 387 páginas, Michael conseguiu abordar todos esses extensos temas de maneira perene e muito contextualizada.

Por ter a narrativa sob quatro perspectivas, esperava que houvesse uma diferença entre a forma de contar a história de cada um, mas me pareceu muito mais um narrador em terceira pessoa que oscila entre os personagens, pois senti a história sendo contada por uma única pessoa pela falta de mudança estilística.

Sobre o conto | Cat Person, de Kristen Roupenian

sobre o conto

ROUPENIAN, Kristen; Cat Person. In: ROUPENIAN, Kristen. Cat Person e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Cat Person foi publicado no The New Yorker  em 2017 e viralizou,  tornando-se a postagem de ficção mais acessada do site.

Cat Person e Outros ContosO conto traz a história de Margot, uma jovem de 20 anos que faz faculdade e trabalha na bombonière de um cinema para se manter. As vezes flertar com os clientes faz parte de sua rotina para que o tempo passe mais rapidamente, até que ela faz uma piadinha com um homem de 30 e poucos anos, Robert, e alguns dias depois ele pede o seu número para que possam conversar nas redes sociais.

A partir daí um relacionamento virtual começa a acontecer, ambos compartilham coisas do seu cotidiano e piadinhas internas crescem, até que resolvem se encontrar pessoalmente e tudo segue ladeira a baixo. Bom, para evitar spoilers vou parar a história por aqui.

Margot se vê numa situação muito delicada, o constante medo de morrer por sair com um cara mais velho, de ir pra casa dele, o receio de desistir de tudo aquilo é sufocante. É comum que desilusões amorosas aconteçam, pois geralmente quando a pessoa está apaixonada, só consegue ver as características boas do outro e depois que esse encanto passa um pouco, o verdadeiro eu do outro começa a se mostrar, nesse caso, Margot começa a ver o verdadeiro Robert desde o primeiro encontro.

Não é de se admirar que esse conto bombou tanto no ano de sua publicação, pois Kristen Roupenian representa em poucas páginas os relacionamentos atuais de uma sociedade que está acostumada ao imediatismo das redes sociais, a falar o que quiser, a interpretar os textos da maneira que lhe convém por falta de linguagem corporal, enfim… a autora mostrou uma sensibilidade que tocou vários leitores. Diria que Cat Person representa MUITOS relacionamentos dos Millenials.

 

 

A vida invisível de Eurídice Gusmão | Martha Batalha | Companhia das Letras

A Vida Invisível de Eurídice GusmãoEsse livro ganhou adaptação cinematográfica em 2019 e conta história de mulheres brasileiras.

Martha faz questão de deixar claro no início do livro que essa é a história de muitas avós brasileiras. Poderia ser a história das avós brasileiras, porém uma parcela de mulheres foi deixada de fora do romance propositalmente (nos momentos em que a autora tem a oportunidade de falar da empregada de Eurídice, a Das Dores, ela pular para voltar ao recorte da classe média carioca).

A história se passa por volta dos anos 40 até meados de 60 e temos como protagonista uma mulher branca e classe média que se casou com um funcionário público do Banco do Brasil, a vida seria perfeita se não fosse pelas horas vazias que tomavam seu cotidiano. Todas as habilidades desenvolvidas sendo tolhidas por todos ao seu redor desde a infância e ainda mais agora no casamento, em que ela TEM que ser a bonita esposa dedicada aos filhos.

Talvez pela simplicidade e realidade, em vários momentos lembrei de algumas mulheres da minha família, das que sempre tiveram um pouco mais de dinheiro, claro, mas também das que precisaram trabalhar para não morrer de fome. Os extremos de uma classe intermediária, que são: a mulher que vive em função do marido e não pode desenvolver nenhum projeto pessoal, pois ‘isso não é coisa de mulher direita’; e de outro lado, a que monta um improvisado salão de beleza em casa para complementar a renda familiar, eis Eurídice e Guida.

Esse livro me trouxe à memória, ainda, a série da Netflix ‘Coisa mais linda’, que conta a história de uma mulher brasileira que quer montar o próprio negócio e investir em seu sonho, mesmo tendo sido abandonada pelo marido (faz um paralelo com Guida, não?!) e também do livro O mito da beleza, que trabalha bastante as imposições às mulheres em relação a beleza, família, trabalho, etc.

A escrita de Martha é deliciosa, super envolvente e descontraída. A história também é excelente por trazer um recorte social do Rio de Janeiro dos anos 40, mesmo que não abranja as mulheres de outras classes sociais, é um relato de crítica ao papel feminino imposto (beleza intacta – esposa perfeita – mãe dedicada).

Para além da família Gusmão, a autora nos apresenta ainda outras figuras já tão caricatas de vários bairros brasileiros, como a vizinha fofoqueira e o dono da papelaria que mora com a mãe mesmo depois dos 40.

Jude, o obscuro | Thomas Hardy | Companhia das Letras e TAG Curadoria

HARDY, Thomas. Jude, o obscuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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Jude, o obscuro, publicado inicialmente em 1895, foi escolhido pela Fernanda Montenegro para a Tag Curadoria no mês de maio de 2019. Quando li a sinopse de Jude, logo fiquei empolgada para mergulhar nessa história, pois me lembrou bastante os conflitos encontrados em “A flor da Inglaterra”, do George Orwell,e eu amo essa temática Vida acadêmica – Trabalho – Sociedade. A ideia da formação acadêmica como algo essencial para alcançar uma estabilidade financeira ou realização profissional é algo que detém certa complexidade que me fascina.

Jude é um órfão que foi criado de maneira rígida pela tia e nutria muita admiração pelo seu professor do colégio. Tal admiração chegou ao ponto de influenciá-lo a sonhar com o seu futuro, queria estudar na mesma faculdade que levou seu mestre a mudar de cidade.

O tempo passou e Jude manteve seus estudos autodidatas com as gramáticas de Latim e Grego que conseguia comprar de vendedores ambulantes, porém a realidade de sua condição social o impeliu a dedicar-se ao trabalho árduo, inicialmente ajudando a tia e depois como entalhador.

A necessidade financeira para sustentar a si e a Arabella, a filha do criador de porcos a qual ele namorou por um tempo e acabou casando sem um real interesse, o levou a uma vida medíocre,onde o cansaço e as obrigações muitas vezes minava o pouco tempo que ele teria aos seus amados livros. Aqui é interessante ressaltar como a criação de Arabella influenciou a maneira como ela lidou com o sonhador Jude e seus livros, por vezes fazendo troça e até ameaçando dar fim em seus exemplares, pois para ela aquela dedicação intelectual não valia de muita coisa.

Depois de algum tempo, Jude conhece Sue, uma jovem de alma livre que, além de prima e amiga, torna-se uma grande paixão. Percebe-se nesse livro que os relacionamentos são construídos com base na personalidade de cada um dos personagens, mas que sempre vão discutindo ou sendo modelados pelas convenções e imposições sociais. Certos embates com as tradições e a luta em libertar-se de algumas amarras são palpáveis, embora por vezes cruéis. Não é de se estranhar que a obra tenha sido bastante criticada na época, principalmente pela igreja. A relação quase aberta que Sue mantém com o professor quebra os padrões de uma época em que a mulher deveria fornecer servidão indiscutível ao seu marido (um amigo chega a questionar se ela o enfeitiçou com a ideologia do matriarcardo).

“[…] Segundo a cerimônia impressa ali, meu noivo me escolhe livremente, a seu gosto; mas eu não escolho. Alguém me entrega a ele, como uma jumenta ou uma cabra ou qualquer outro animal doméstico. Santificadas sejam vossas iluminadas opiniões a respeito das mulheres, ó Homens da Igreja! […]” P. 164

Mesmo com as aspirações libertárias dos personagens, os grilhões sociais falam mais alto, aprisionam e massacram o indivíduo que tenta caminhar com seus próprios pés. Isso aproxima bastante a história da realidade que vivemos até hoje (seja em relação as mulheres ou as dificuldades impostas à Jude para que ele siga o seu sonho de estudar).

Como falei inicialmente, gostei bastante da proposta de Thomas Hardy e confesso que se eu não tivesse esse apreço pelo tema, Jude teria sido uma leitura bem difícil e arrastada, pois a melancolia do cotidiano e o vai e vem da história acabou me cansando um pouco.

Todos nós adorávamos caubóis | Carol Bensimon | Companhia das Letras

BENSIMON, Carol. Todos nós adorávamos caubóis. São Paulo:Companhia das Letras, 2019.

Todos nós adorávamos caubóisEsse livro foi indicado pela Noemi Jaffe para a TAG Curadoria do mês de agosto de 2019. É um romance a lá Road Trip de uma escritora brasileira contemporânea.

As duas protagonistas, Cora e Julia, são bem diferentes em termos de personalidade. Cora é a autêntica grunge (lápis nos olhos, botas, calça jeans justa e jaqueta vermelha), já Julia, como a própria narradora a descreve, é aquela moça certinha que tem coragem de levantar a mão para fazer uma pergunta faltando cinco minutos para terminar a aula.

Elas se conheceram na faculdade de jornalismo e logo fizeram amizade apesar da criação tão distinta, enquanto Cora viveu os privilégios de uma vida classe média, pois o salário do pai como médico supria todas as necessidades da família e mesmo no período de recessão, em que todos passaram por dificuldade, ela viveu tranquilamente. Julia,  por outro lado, veio de uma família do interior e sua formação foi em colégio religioso.

Depois alguns anos de amizade, Julia recebe a oportunidade de estudar no Canadá e Cora aproveita para largar o curso e ir estudar moda na França. Ambas se reencontram e resolvem tirar do papel a viagem pelo Sul do Brasil que tanto sonhavam.

Durante a viagem as duas jovens relembram momentos de sua juventude e os dissabores de suas relações familiares. O relacionamento entre as duas retoma algumas fagulhas e tenta se reestruturar mesmo depois de tanto tempo.

O amadurecimento delas é visível em suas conversas, na coragem de encarar temas antes jogados para debaixo do tapete, como o assunto Família, que passa a ser enfrentado e visto com outros olhos, até mais compreensíveis, posso dizer.

Este é um romance de formação, em que as protagonistas crescem ao passo que vivem o presente e relembram o passado. A escrita é carregada do sotaque sulista com os seus “tu”, “teu” e “guria”, bem como a paixão pelo chimarrão e pela bombacha, por vezes tive a sensação de ouvir a voz de Cora carregada de sotaque e tão cheia de amor por tudo isso.

Todos nós adorávamos caubóis é um prato cheio para quem gosta do estilo Road Trip e de conhecer um pouco mais sobre o próprio país.

As cidade visitadas durante a viagem foram:

  1. Porto Alegre;
  2. Antônio Prado;
  3. São Marcos;
  4. São Jorge da Mulada;
  5. São Francisco de Paula;
  6. Cambará do Sul;
  7. Caçapava do Sul;
  8. Minas do Camaquã;
  9. Bagé;
  10. Soledade.

 

Não está mais aqui quem falou | Noemi Jaffe | Companhia das letras

JEFFE, Noemi. Não está mais aqui quem falou. São Paulo: Companhia das letras, 2017.

não está mais aqui quem falou.jpgNão está mais aqui quem falou é um livro de contos e epígrafes da Doutora em Literatura Noemi Jaffe.

A primeira vez que vi/ouvi falar de Noemi Jaffe foi em um vídeo dela sobre Clarice Lispector, uma espécie de encontro em uma livraria. Achei sua maneira de falar tão apaixonada pela Literatura e seu discurso tão rico que depois fui pesquisar mais sobre ela. Nessa busca, descobri esse livro de contos e fiquei muito instigada a lê-lo, principalmente quando li uma resenha sobre o conto “L de lá”, fiquei fascinada pela paixão de Jaffe pela Língua Portuguesa.

Esse livro é um compilado disso, da paixão de Jaffe pela linguagem. Poderia dizer que ela uma Nerd das palavras, da riqueza do Português. Em Não está mais aqui quem falou, ela aproveita o espaço dos contos para demostrar a orgiem de palavras, brincar com traduções, lembrar de obras da Literatura e até mesmo contar e recontar histórias onde a verdade e o lúdico de misturam.

Logo no começo achei os textos estranhos e pensei que talvez eu não fosse o público da autora. Cogitei a dar apenas duas estrelas no GoodReads, mas com o passar das páginas, me adaptei ao seu estilo e pude desfrutar da riqueza contida em cada uma de suas frases.

Para quem procura uma obra inteligente e descontraída ao mesmo tempo, eis uma opção. O livro é bem curtinho, dá para ler em um dia (e olhe que eu leio muito devagar).

Três romances para refletir sobre a condição feminina

Olá, leitores!

Hoje trouxe para vocês uma listinha rápida com dicas de romances para ler e refletir sobre um tema que está muito presente no nosso cotidiano.

Todos os dias é possível ver casos de feminicídio nos jornais, barbáries inigualáveis. A mulher, por ser fisicamente mais frágil e, por vezes, ter o seu lugar de fala cortado pelo machismo cotidiano ou sofrer abusos psicológicos e emocionais em relacionamentos nada saudáveis. Pensando nisso, trouxe aqui a indicação de três romances para ilustrar como a vida de muitas mulheres pode ser devastada sem a força da luta (e das conquistas) das mulheres.

1. A cidade do Sol, de Khaled Hosseini

a_cidade_do_sol_1295553285bA cidade do Sol é forte e marcante, traz a história de duas mulheres que cresceram de forma diferente, uma era incentivada pelo pai a estudar e a sonhar com o futuro, a outra era uma filha bastarda que passou a infância escondida para não manchar o nome do pai. Elas se encontram em condições adversas, durante a guerra no Afeganistão, e passam a compartilhar o mesmo teto, sofrendo física e emocionalmente num país em que as mulheres não possuem voz e precisam andar de burca nas ruas.

Falei sobre esse livro AQUI.

2. Hibisco Roxo, de Chimamanda Gnozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bChimamanda é mais conhecida pelos seus dois manifestos Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas. Em Hibisco Roxo a autora nos apresenta uma família nigeriana com suas tradições e a influência do cristianismo na cultura deles. É pesada a forma como a religiosidade exagerada pode varrer a vida de uma mulher para debaixo do tapete e fingir que não há nada acontecendo.

Falei sobre ele AQUI.

 

 

3. O conto da Aia, de Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bO conto da Aia ficou conhecido principalmente após a adaptação como série e repercutiu bastante durante as últimas eleições brasileiras. Uma distopia que levanta a temática de como as mulheres, em geral, são as primeiras a ter seus direitos retirados em momentos de crise e, novamente, como a religiosidade tenta apagá-las.

Falei sobre a obra AQUI.

 

 

 

Então, é isso, histórias de mulheres afegãs e nigerianas, bem como uma ficção sobre até onde as atrocidades machista-religiosas podem chegar.

É válido ressaltar que esses não são os únicos e podem não ser os melhores, a lista foi criada com base nos livros que eu li. Então o post fica aberto caso você queira acrescentar mais títulos nos comentários para que eu e os outros leitores possam conhecer mais obras do gênero. 😉

A flor da Inglaterra | George Orwell | Companhia das Letras

ORWELL, George. A flor da Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Geroge Orwell é conhecido por sua distopia 1984 e pela fábula A revolução dos bichos. Muito se valoriza pelas críticas sociais oferecidas pelo autor nessas duas obras, mas o que poucas pessoas sabem é que existem críticas mais próximas da nossa realidade em outras obras do autor e esse é o caso de A flor da Inglaterra.

Nesse livro conhecemos a história de Gordon Comstock, um homem de 29 anos de idades sem grandes feitos em sua vida. Advindo de uma família comum e sem nenhum mérito em particular, Gordon é o último descendente homem de seu sobrenome. A irmã, Julia, que sempre se anulou em detrimento dele, nada mais é do que uma trabalhadora que passa o ano dando a vida ao trabalho para ter um pequeno prazer ao final do ano: comprar presentes de natal.

Gordon teve oportunidades na vida, como continuar os estudos após o fundamental e até mesmo arranjar um emprego bom que lhe pagasse bem e houvesse, ainda, a chance de galgar promoções, mas sua alma de poeta se incomodava com os privilégios que o dinheiro lhe proporcionava, queria viver com apenas o necessário e produzir os seus poemas.

Os planos de Gordon saíram pela culatra quando a falta de dinheiro começou a impedi-lo de pensar em outra coisa que não fosse a diferença de classes e na relação Dinheiro x Cultura.

“Ninguém sofre grandes privações com um salário de duas libras por semana, e se sofre, elas não são importantes. É na mente e na alma que a falta de dinheiro prejudica as pessoas. ” P. 75

“Dinheiro para o tipo certo de educação, dinheiro para os amigos influentes, dinheiro para o ócio e a paz de espírito, dinheiro para as viagens à Itália. É o dinheiro que escreve livros, é o dinheiro que os vende.” P. 17

Para além da perene crítica ao dinheiro, Orwell também aborda em diversos momentos a produção cultural neste sentido: como produzir coisas boas? A boa literatura é realmente comercializada ou o que gira o comércio das livrarias é mais do mesmo?

E se aparecer um escritor que mereça ser lido? Será que seremos capazes de reconhecê-lo, tão sufocados estamos com tanto lixo? P. 21

Com uma narrativa bem leve e caricata, A flor da Inglaterra foi uma surpresa boa para mim. Confesso que o peguei na biblioteca pela proposta do “trabalhar com o que se ama ou trabalhar por dinheiro”, que sempre foi um verdadeiro dilema para mim, e acabei gostando mais do que imaginei. Por diversas vezes tive raiva do orgulho de Gordon, mas em outros momentos ri de suas implicâncias e refleti em suas conclusões sobre a vida e o dinheiro.

Orwell é, nesse momento, um dos meus autores preferidos principalmente por sua crítica agridoce, que afaga e bate ao mesmo tempo. Amei A flor da Inglaterra e convido a todos que tiverem a oportunidade de lê-lo a deliciar-se nos dias sujos de um trabalhador londrino.