Sobre o conto | Uma galinha, de Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice; Uma galinha. In: MOSER, Beijamin (Org.). Clarice Lispector Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

CLARICE_LISPECTOR_TODOS_OS_CON_1460659755578277SK1460659755BO conto Uma galinha, da Clarice Lispector, está no livro Laços de Família e é uma história curtinha que traz um acontecimento corriqueiro na vida de pessoas que criam galinha: o momento de escolher e pegar uma para fazer o almoço do dia.

A narrativa me lembrou muito minha infância, pois eu tinha uma vizinha que criava galinhas para esse fim. Aqui o cotidiano ganhou resignificações e reflexões sob uma nova perspectiva.

Nas palavras de Clarice, a galinha ganha uma personificação e por vezes me fez lembrar uma mulher que foge de um possível agressor:

“Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga.” P. 157

Outro momento em que a galinha lembra uma mulher foi quando ela pôs um ovo e comoveu a todos da família, fazendo com que desistissem de levá-la para a panela. A maternidade em si emociona, a eminencia de uma nova vida e nova esperança transforma as emoções humanas. O que faria a galinha menos “ser vivo” antes de colocar o ovo?

Embora o ovo tenha trazido tanta comoção, o homem é um ser volátil, corre atrás da galinha, a ama e logo em seguida a quer na panela novamente. A coitada da galinha passou um período sendo amada como bicho de estimação (um gato ou um cachorro), mas algum tempo depois é desprovida de empatia e seu fatídico destino chega.

O conto, apesar de curtinho, aborda a condição feminina e o limiar da relação homem-animal, onde ama-se alguns e comem-se outros. Um ótimo texto para quem gosta dos temas feminismo e veganismo.

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Eu li: Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut

HARRISON_BERGERON_1394998252BUm conto distópico escrito em 1961 em que o autor mostra uma sociedade nivelada por baixo. O governo usou a “equidade” para tirar a “vantagem” de certas pessoas, assim todos poderiam ser iguais, ninguém mais forte ou mais inteligente do que os outros, por exemplo.

Para conseguir isso, o governo estipula “contrapesos” para balancear essas diferenças. Se a pessoa é mais inteligente do que o padrão tido como normal, um aparelho auditivo intervirá quando ela fizer certas conexões neurais mais intensas. Se é mais rápida, pesos são acrescentados para diminuir a velocidade; se mais bonita, recursos a tornam mais feia…

A estória se passa em 2081, 120 anos depois de quando foi escrita e com uma diferença secular já previa uma atitude que se tornaria comum. Não adianta tentar negar e dizer que esse nivelamento “por baixo” não exista, pois vejo um exemplo claro disso nos cinemas, em que só há um horário (geralmente o último) para filmes legendados porque as pessoas geralmente reclamam que não conseguem ver o filme e ler a legenda ao mesmo tempo…

Esse livrou trouxe reflexões básicas mas pertinentes, o governo pode até tentar nos nivelar por baixo, mas muitas vezes isso começa a partir de nós mesmos. Quantas vezes não ouvimos um “ainda bem que tirei a média”, “vai assim mesmo, tem gente que nem fez nada”, “vou pegar o resumo na internet”… Pois é, as vezes as pessoas se nivelam por baixo sem nem precisar de imposição para isso.

Diversas indagações surgem durante a leitura dessa estória, principalmente “por que não usar recursos para melhorar os menos capazes e nivelar com base nos que se destacam?”, “será que ter a média verdadeira não seria melhor?”, e por aí vai.

2081Esse conto é curtinho e tem disponível na internet, para ler online ou para baixar, e é o tipo de estória ideal para discutir com os amigos e parar para refletir. Ah, o curta 2081 é a adaptação de Harrison Bergeron.

Skoob

Texto original (em inglês)

Texto traduzido para o português.

Além dessa questão do nivelamento, o autor abordou ainda alguns outros pontos que sempre são criticadas em diversos ambientes e não apenas em distopias,  como: a cultura de massa por meio da televisão, como a mídia influencia no que as pessoas pensam, a banalidade e manipulação dos acontecimentos, dentre outros.