Mulheres e poder | Mary Beard | Planeta do Brasil

BEARD, Mary. Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.

Mulheres e Poder - Um Manifesto

Mary Beard é uma historiadora e feminista  de prestígio na atualidade que publicou em Mulheres e poder duas de suas palestras sobre as raízes da misoginia em relação ao silenciamento feminino e na sua atuação como figura de puder.

O primeiro texto, denominado A voz pública das mulheres, traça a construção histórica da mudez feminina, como o seu local de fala foi apagado durante séculos pelo patriarcado, e hoje, mesmo conhecendo termos como mansplaining, ainda é duro conquistar o nosso espaço e o reconhecimento nos grupos em que nos inserimos, pois historicamente o discurso publico sempre foi atrelado a figura masculina.

“[…] as mulheres, mesmo quando não são silenciadas, ainda pagam um preço muito algo para ser ouvidas […]” P.20.

O segundo, Mulheres no poder, discorre sobre a figura feminina em papeis de liderança e o quanto precisamos nos desdobrar ainda mais que os homens para conseguir uma parcela de reconhecimento. Principalmente no ambiente de trabalho, ser mulher é uma luta constante para demonstrar suas competências e não ser reduzida a estereótipos de beleza, como discutimos no capítulo 2 do livro O mito da beleza.

“Em outras palavras, não temos modelo para a aparência de uma mulher poderosa, a não ser que ela se parece bastante com um homem.” P. 63.

Ambos os temas são mais comuns do que podemos imaginar, diariamente lido com o público e percebo como é difícil, principalmente homens mais velhos, aceitar a fala de uma mulher. Diversas vezes já disseram pra eu “chamar meu chefe”, e quando MINHA chefe (não um homem como ele imaginava) chegava e dizia que sim, a pessoa tinha que fazer como eu estava dizendo, era uma indignação só. Ou quando a pessoa chega para o rapaz que senta ao meu lado e pergunta se pode scanear um papel, mas a scanner esta na MINHA mesa e não da dele. Enfim, com certeza você também tem uma história desse tipo para contar, infelizmente.

É interessante como Mary traz temas atuais, seja de casos que passaram na televisão ou de figuras políticas, que conversam com os exemplos trazidos dos Clássicos da Literatura, e ao mesmo tempo com cenas tão corriqueiras no cotidiano. Essa viagem histórica e cultural nos permite entender a construção social que molda a figura feminina em locais de liderança e os fantasmas que ainda precisamos combater diariamente.

 

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O sonho dos heróis |Adolfo Bioy Casares |Biblioteca Azul

CASARES, Adeolfo Bioy. O sonho dos heróis. São Paulo: Biblioteca Azul e TAG, 2019.

o_sonho_dos_herois_15545596779552sk1554559677b A revista da TAG frisou bastante que Bioy Casares viveu à sombra de Borges, seu grande amigo e importante escritor da língua espanhola.  Javier Cercas indicou esse livro alegando que nessa obra Casares prova, sem muito esforço, que sua escrita é melhor do que a do amigo que tanto o apagou.

Comparações a parte, tendo em vista que ainda não li nada de Borges, deixo aqui minhas impressões sobre O sonho dos heróis.

A história conta os dias de Gauna, um jovem mecânico que leva a vida entre o trabalho e os encontros com os amigos até que, por receber um palpite de seu barbeiro, ganha uma aposta em uma corrida de cavalos. O rapaz, então, resolve gastar seus ganhos no carnaval e proporcionar noites inesquecíveis aos amigos. O grande problema é que a terceira noite de carnaval é apagada completamente da mente dele.

Em um de seus dias comuns, ele conhece e se apaixona por Clara, filha do bruxo Taboada,  e a partir daí ele  deixa um pouco de lado o mistério do que aconteceu naquela noite um pouco de lado. A relação com os amigos já não é mais a mesma e ele atribui o fato ao seu novo relacionamento amoroso, relacionamento este que não é nada saudável, pois é pautado em ciúme (Gauna cogita bater e até matar Clara por puro acesso de ciúme). Clara é uma moça dada às artes, faz teatro e gosta de ler, realmente uma antítese de Gauna, que é machista e violento.

Depois de um outro acontecimento, Gauna resolve refazer seus passos para desvendar de uma vez por todas o que foi apagado de sua memória. Então, o leitor começa a perceber um mar de paralelismos proporcionado pela narrativa. A priori nós temos a nova percepção de Gauna a respeito das noites de carnaval, já que no começo do livro ele é apenas um jovem inconsequente e agora, após anos de um relacionamento estável, passa a ver suas atitudes e as dos amigos com um olhar mais crítico. Os extremos dos personagens também é algo que salta aos olhos, como já mencionada a disparidade de personalidade de Clara e Gauna, o que se estende a todos os amigos dele, típicos machões valentões. Por último, ressalto os sentimentos que Cassares provoca ao leitor que também é um céu e inferno.

Ao ler O sonho dos heróis nota-se uma história tênue, sem grandes clímax ou protagonista cativante. Porém, Casares brinca com os sentimentos do leitor com sua maneira de narrar a história. Confesso que em determinados momentos me peguei rindo de uma cena e em outras, fechando o livro de tanta repulsa (tem uma cena de maus tratos a um animal que me deixou péssima). O final da história é recheado de realismo mágico, o que tornou-se a parte mais envolvente do livro.

Logo que concluí essa leitura, pensei não ter gostado, mas depois de uma semana refletindo, mudei de opinião, pois apesar de a história em si ser bem simples, a narrativa do Casares me envolveu bastante e aí percebi a maestria dele como autor e sua capacidade de manipular os sentimentos do leitor. Ao final das contas, entendi os comentários de Javier Cercas sobre o subestimado escritor.

As alegrias da maternidade | Buchi Emecheta | Dublinense

Emecheta, Buchi. As alegrias da maternidade. 2° ed. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

51zVTDlN1PLEsse livro chegou ao Brasil como indicação da Chimamanda para a TAG Livros e de lá pra cá foi o título com maior repercussão dentro do clube de assinatura. No ano passado, a Dublinense relançou a obra no Brasil.

As alegrias da maternidade é um romance autobiográfico em que o título é irônico e a história é incrivelmente rica e dolorosa. Aqui o leitor pode viajar na história da Nigéria desde os anos 30 (período da colonização britânica), passando por sua atuação na Segunda Guerra Mundial e o seu processo de modernização.

Os costumes religiosos e culturais embalam a miséria da vida de Nnu Ego que está em seu segundo casamento forçado com um homem que ela detesta para cumprir sua missão de ser mãe. Nessa sociedade as mulheres só se tornam completas quando cumprem a sua função de mãe.

Tendo que se virar entre o trabalho para completar a renda familiar e cuidar de seus filhos, Nnu Ego vive um dia após o outro, contando apenas em tentar garantir o alimento do dia seguinte. Enquanto o marido trabalha para um casal de britânicos que mora na cidade colonizada de Lagos e sai todas as noites para beber vinho de palma, deixando a esposa praticamente sozinha para se virar com todas as questões domiciliares.

A condição de colonizado é sutilmente mostrada pela autora em pequenos detalhes, como quando os britânicos fazem troça nos nigerianos por causa de sua cor ou quando a escravidão é banida da Nigéria, mas os brancos continuam podendo escravizar os negros ou até mesmo quando Naife é sequestrado para ir pra guerra.

A questão da educação também é algo bem marcante nesse livro, pois apenas os meninos poderiam continuar seus estudos, enquanto que as meninas precisavam ajudar a mãe a ganhar dinheiro para alimentar os irmãos e a pagar o colégio deles. A própria autora travou uma batalha enorme para conseguir entrar e permanecer no colégio.

Com o passar dos anos, a família de Nnu Ego começa a se deparar com as mudanças sociais de seu país. Seu modelo tradicionalista de viver passa a sair de cena, por mais que ela não conseguisse largar todas aquelas amarras.

Adaku é a representação de uma pessoa que vivia nos antigos costumes e consegue se abrir ao novo e prosperar por causa disso. Ela está disposta a fazer o que for para manter as filhas estudando, pois ela enxerga um futuro para as meninas que vai bem além dos dotes recebidos para que elas casassem.

Os sacrifícios e a solidão da maternidade são trabalhados de maneira ímpar nesse livro. Torci pelos personagens, me emocionais, sorri e fiquei chocada em vários episódios. As alegrias da maternidade se passa na África de meados anos 40, mas a opressão feminina aqui descrita ainda está presente em vários locais e eu não falo de casamento forçado, mas da imposição social de que as mulheres se resumem a um útero e precisam enfrentar qualquer miséria para cumprir o seu papel de mãe.

Tróia | Cláudio Moreno | L&PM

5027848Essa foi uma releitura, dessa vez para o projeto LiterArte. Quando li Tróia pela primeira vez, ainda estava no colégio e hoje percebo que pouco aproveitei os conflitos da história naquela época.

Cláudio Moreno fez um apanhado de diversos relatos sobre a Guerra de Tróia, inclusive alguns capítulos desse livro sinalizam o início e fim dos acontecimentos que se passaram em Ilíada, de Homero.

A história da Guerra de Tróia é muito conhecida, a Grécia inteira se reúne contra a cidade de Tróia após Páris sequestrar Helena, a esposa de Menelau. Com a ajuda constante dos deuses gregos, os humanos travam uma batalha que há muito já estava escrita pelas Moiras.

A narrativa nos mostra a humanidade dos deuses do Olimpo. Suas fraquezas e preferências. A exemplo, vemos os caprichos de Aquiles sendo satisfeitos por Zeus após a intervenção de sua mãe, uma Nereida (uma espécie de sereia de água doce), ou os planos de Hera para vencer sua rival, Afrodite, após ela ter ganho o título de ‘a mais bela’.

Podemos apreender também a condição da mulher nessas civilizações, que culturalmente era relegada a ser apenas um objeto. Menelau foi roubado e ele se juntou aos aliados para reaver seu pertence, a formosa Helena. Além do mais, mesmo demonstrando não estar mais a vontade ao lado de Páris, a grega não tinha voz para se desvencilhar daquele laço. Em diversas passagens, os homens se incomodam de ser o segundo a ter relação sexual com uma mulher, pois ela “já estaria usada por outro”.

A narrativa de Cláudio Moreno é rápida, sem muita enrolação. O autor faz questão de enlaçar todos as etapas da Guerra à atuação dos deuses, nunca um acontecimento é uma banalidade, tudo se forma numa trama bem arquitetada. A cronologia dos acontecimentos não é bem delimitada, o leitor não consegue distinguir o que aconteceu em cada um dos anos da guerra, as cenas apenas seguem uma atrás da outra.

O final da história é surpreendente, embora tenha me deixado um pouco desanimada. Como apêndice para o leitor, os objetos de estudo utilizados pelo autor são listados ao final do livro. Foi interessante conhecer um pouco mais sobre a Mitologia Grega, a relação dos deuses com o homem e sobre as questões que compuseram o desenlace da Gerra de Tróia.

Mangá | Witches

Olá, leitores!

Hoje vou falar sobre dois mangás incríveis que compõem essa pequena (em tamanho, porém grandiosa em conteúdo) série. Witches tem apenas dois volumes, foi escrita por Daisuke Igarashi e chegou ao Brasil pela Planet Mangá/ Panini Comics.

36552193O primeiro volume é composto pelas histórias Spindle (em duas partes), Kuarupu e A bruxa montada no pássaro. A primeira tem como protagonista uma bruxa pagã muito poderosa que precisa  enfrentar seu pior inimigo, ela mesma, que com toda a sua soberba não a permite se desenvolver melhor na magia e no seu autoconhecimento. Aqui o autor trabalha muito o embate entre a cultura pagã e a tentativa do cristianismo de se apropriar de seus elementos.

Em Huarupu, a protagonista é uma Xamã da Amazônia (sim, se passa no Brasil) e a história gira em torno da luta dela e de uma tribo indígena em lidar com ou enfrentar a entrada do homem branco na floresta. Muito interessante um ponto levantado sobre os espíritos dos animais depois que eles morrem.

A bruxa montada no pássaro aparenta não ter protagonista feminina até ser revelado que o místico está na mulher que aparece apenas para seu familiar.

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Nesse segundo volume, a estrutura do mangá permanece a mesma, três histórias sendo a última bem curtinha e protagonistas mulheres que se envolvem com o sobrenatural.

A primeira história que esse mangá traz é a Pedra da Reprodução, ou Pedra Genitalix. Uma bruxa da floresta e sua aprendiz começam a sentir algo de diferente no ar e todos os sinais indicam para a chegada da Pedra da Reprodução na Terra. O vaticano as convidam a resolver os problemas causados pela pedra, mesmo a contragosto, já que suas práticas vão de encontro ao cristianismo. Então, podemos perceber como as pessoas se aproveitam da sabedoria das bruxas em momentos de desespero, mas não as respeitam.

Essa questão da falta de respeito fica bem clara quando a pequena Alicia visita a cidade e ela é motivo de certo alvoroço por conviver com Mira.

Ladra de canções é o título da segunda história, que se desenvolve com a premissa de reencarnações e autoconhecimento.

Hinata é uma colegial que passa pelos dias sem realmente vive-los, como ela mesmo diz “[…] apenas assisto ao programa chamado ‘meu cotidiano’. Apenas assisto. ” P. 17. Então, ela rouba um dinheiro da escola e resolve viajar com Yuji, nessa viagem ela conhece Chitaru, que a ajuda a desperta seus sentidos para começar a realmente viver. As duas mulheres têm seus destinos entrelaçados nessa viagem de maneira transcendental.

A última história, que é bem curta, chamada Praia, nos leva a refletir sobre o limiar entre a vida e a morte. Contendo mais elementos visuais do que texto em si, os poucos diálogos aqui postos deixa o leitor matutando sobre o que realmente aconteceu ao gatinho.

Então, é isso. Amei a série Witches,  se você também gosta de histórias de bruxas, com conteúdos sobrenaturais ou com protagonistas femininas fortes, esse mangá é um prato cheio para você.

Mangá | Ela e o seu gato

ela e o gatoQuando vi que esse mangá tratava da relação de uma mulher com o seu gato, logo fui atrás de saber mais sobre. Parecia ser muito bom.

A história de Ela e o seu gato é contada sob a perspectiva de Chobi, o gato encontrado na rua, que passou a morar com sua atual dona. O gato é apaixonado pela relação estabelecida entre eles.

A protagonista está tentando se adaptar a rotina estressante de sair diariamente para trabalhar, cozinhar e ainda ter tempo para relações sociais. Em seu cotidiano, é o amor de seu gato que traz certo alívio para ela. Pouco sabemos sobre o que se passa no trabalho dela, pois a narrativa é feita pelo gato, mas em alguns momentos também acompanhamos um encontro dela com uma amiga.

O mangá possui um tom melancólico em sua narrativa e os traços não são perfeitos, proporcionando ao leitor uma sensação de rotina e preguiça, algo típico dos gatos, rs. A história não traz grandes acontecimentos, sua proposta é mostrar a rotina de uma mulher e o seu gato, o que pode parecer monótono para alguns, mas algo sensível, verdadeiro e delicado para outros.

 

 

Um teto todo seu | Virgínia Woolf | Tordesilhas

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

images.livrariasaraiva.com.br Quando Virginia Woolf já era mais conhecida como escritora de livros e resenhista em jornais, foi chamada para ministrar uma palestra em uma faculdade sobre as Mulheres na Literatura.

O discurso proferido pela autora, tornou-se o livro Um teto todo seu, que posteriormente ganhou também algumas páginas de seu diário onde ela fala sobre os livros que estava escrevendo na época.

Para desenvolver sua fala, a autora cria uma personagem, Mary Beton, que muito se mistura com a Virginia. Ela tece seus comentário aos passear por uma estante de livros, retira exemplares, lê trechos e o leitor pode acompanhar seus pensamentos a respeito da Literatura através dos séculos.

O texto da Virginia é composto por uma gama de comentários sobre Literatura produzida por mulheres. A grande questão que a autora levanta é: onde estavam as mulheres antes do século XIX? Não haveria nenhuma mulher produzindo peças tão bem quando Shakespeare?

Quando a autora explora a questão da mulher na Literatura, ela deixa bem claro que não é sobre a mulher como assunto ou como consumidora, mas como produtora de obras literárias. Ela, então, ambienta a condição social imposta para as mulheres de responsáveis pelo lar como um fator limitador nessa produção intelectual feira pelo sexo feminino. Seria necessário que a mulher conquistasse sua independência financeira, tivesse “um teto todo seu” para poder ter a autonomia de sentar e libertar o que está em sua mente.

Esse livro é fundamental para quem gosta de literatura e assuntos feministas. Um excelente texto para tratar sobre as dificuldades impostas pela sociedade que impediram a produção intelectual das mulheres durante tantos anos. Essa punição fez com que as mulheres fossem vistas apenas como consumidoras de romances açucarados, sem voz e sempre subserviente.