O último desejo |Andrzej Sapkowski | Martins Fontes

SAPOKOWSKI, Andrzej. O último desejo. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

O Último DesejoConfesso que só me dei uma chance para essa leitura depois de assistir a adaptação homônima da Netflix. Esse seria o típico livro que passaria pelos meus olhos sem despertar o meu interesse num passeio a qualquer livraria. Em resumo, li algo destoante do que eu costumo ler, o que me rendeu uma grata surpresa.

A série The Witcher começou a ser escrita no comecinho de 1990, mas só chegou ao Brasil em 2012 depois do grande sucesso dos jogos para console e PC em 2008 e mesmo contando com seus fãs de carteirinha (não é a toa que a saga chegou ao seu oitavo livro publicado em terras tupiniquins) o BOOM só aconteceu mesmo depois da série (obrigada, Netflix), o que levou o The Witcher à vitrine das livrarias depois de quase dez anos de ter chegado por aqui.

Antes de tudo gostaria de fazer o inevitável, comparar o livro com a série. Não colocarei aqui mérito de melhor ou pior, mas levarei em consideração os acontecimentos. Claro que ambos são diferentes, a série não foi totalmente fiel ao livro e trouxe acontecimentos de que estão além do primeiro livro. A brincadeira com a linha do tempo vista na série é algo inspirado no próprio livro, que tem duas linhas temporais intercaladas, mas que ganhou proporções maiores ao acompanhar a jovem Cirilla. Há contos no livro que não estão na série, bem como alguns detalhes dos outros são diferentes, mas nada que comprometa a qualidade de ambos.

O último desejo, título inspirado no último e mais longo conto do primeiro volume de The Witcher, nos apresenta no bruxo Geralt e suas peripécias como caçador de monstros e criaturas sobrenaturais. A sua raça (bruxo) é treinada desde muito cedo a controlar o próprio corpo, a conjurar magia e a batalhar de maneira ímpar, à Geralt esse treinamento em nível avançado resultou em seus chamativos cabelos brancos.

Para além de toda a ação das lutas com silvano, quiquimora e estringe, podemos nos deleitar com o típico cenário que oscila entre o medieval e o mágico, com rainha, monstros, elfos e feiticeiros. Um prato cheio para quem curte fantasia.

Achei muito legal a releitura dos contos de fadas que conhecemos, que passaram de histórias românticas para assustadores contos envolvendo ambição e monstros.

Mesmo lendo um gênero que não está rotineiramente entre minhas leituras, gostei MUITO de acompanhar esses contos e de conhecer mais o Lobo Branco, bem como a poderosa Yennefer. Confesso que já perto do final fiquei um pouco cansada da história, não sei se por estar lendo algo que eu assisti há pouco tempo ou se os contos se mostraram repetitivos (contrato e combate). Pretendo ler o segundo volume, mas não sei se conseguirei chegar até o final da saga, rs.

Mangá | Wotakoi

Olá, leitores!

Concluí o volume 3 de Wotakoi, chegando, assim, à metade dos encadernados que  já foram publicados no Brasil pela Panini.

A história é do tipo Slice of Life, ou seja, apenas cenas cotidianas, o detalhe cativante é poder acompanhar recortes do dia a dia de quatro amigos (dois casais) otakus em seus locais de trabalho e horário de lazer. 

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Ser Otaku no Japão é visto com maus olhos, então eles precisam fazer de tudo para esconder dos outros colegas suas paixões (game, anime, mangá, cosplay, etc), mas extravasar quando se trata desse quarteto.

Esse Shoujo é bem descontraído e bonitinho. Não é, nem de longe, um dos melhores da vida, mas estou gostando de acompanhar o desenrolar desses relacionamentos de amor e de amizade, além de me identificar em alguns momentos, claro, como a paixão de Hana por personagens secundários ou o jogo de Pokémon Go, rs.

Wotakoi tem anime disponível na Prime Vídeos (Amazon) e ganhará Live Action em Fevereiro!

Imigrantes | Coração azedo e Intérprete de males

Olá, leitores!

Hoje trouxe para vocês a indicação de dois livros de contos sobre a vida de imigrantes. O Coração azedo, da Jenny Zhang, traz a história de chineses que apostaram numa nova vida na América e Intérprete de males, da Jhumpa Lahiri, que aborda a vida de indianos que saíram de seu país de origem pelos mais diversos motivos.

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Ambos os livros foram escritos por mulheres, possuem o mesmo formato (antologia de contos) e a mesma temática, mas são bem diferentes! Essa diferença, se dá, principalmente pela perspectiva dos personagens, muito provavelmente por sua origem distinta e tal, e fica bem claro quando, por exemplo, os chineses vivem uma vida miserável nos Estados Unidos, em casas que não possuem o mínimo de higiene, e mesmo assim aguentam tudo aquilo calados e na esperança de que um dia tudo irá melhorar; por outro lado, os indianos, mesmo com uma vida de classe média confortável, ainda sonham com os prazeres da vida na Índia.

Gostei bastante da experiência de leitura, ainda mais que o tom saudosista de Intérprete de males traz vários pontos culturais bem interessantes e o Coração azedo aborda o desenvolvimento de crianças que precisam lidar com um mundo completamente diferente do seu país de origem, a dificuldade da língua estranha… A construção da identidade em outro local torna-se estranha, quase impalpável em todos os casos.

Os dois livros são ótimos para quem gosta de ter contato com diferentes culturas. A questão da dificuldade da imigração, principalmente para mulheres, sejam elas crianças ou adultas é o cerne principal das obras. O choque de costumes é latente e bem verdadeiro, uma vez que as escritoras trouxeram a sua experiência no assunto para as páginas, Jhumpa Lahiri é filha de imigrantes e Jenny Zhang imigrou aos 5 anos de idade.

Gostaria, ainda de deixar outras duas indicações que lembrei durante essas leituras. A primeira delas é o Eu sou Malala, que conta um pouco mais da história e situação política do Paquistão e (um pouco) da Índia, o que é apenas pincelado em um dos contos (‘Quando o sr. Pirzada vinha jantar’) de Intérprete de males. O segundo livro é O grito de guerra da mãe tigre que aborda a cultura chinesa sobre a perspectiva da criação dos filhos e todo o rigor de exigências tão discrepantes com a educação brasileira. Ambos os livros têm resenha aqui no blog, é só clicar no título deles.

O quarto de Jacob | Virgínia Woolf |Novo Século

Resultado de imagem para o quarto de jacobO quarto de Jacob é o terceiro livro escrito pela autora inglesa Virgínia Woolf, mas o primeiro que ela ela escreveu sentindo-se livre para criar a sua própria maneira de narrar, pois até então precisava seguir os ditames da editora do irmão sobre os padrões a seguir.

Esse livro traz a história de Jacob, personagem que conhecemos por meio do olhar das pessoas que o rodeiam. O enredo é desconstruído e fragmentado em diversos momentos que o jovem aparece na vida dos conhecidos. Por causa dessa forma de narrar, o livro é comumente associado a escola artística impressionista, uma vez que não há delimitação das formas, mas uma turva construção.

A partir dessas diversas perspectivas, percebemos Jacob como um rapaz de boa família e rico, educado, tímido e muito dedicado ao estudo do Grego, ele chega a viajar para a Grécia e Roma para conhecer os clássicos da cultura europeia. Esses olhares construíram um personagem sem ele nem ao menos ser o principal narrador ou haver um narrador onisciente para descrevê-lo.

A estrutura da narrativa é o que mais chama a atenção durante a leitura, não a história em si, uma vez que não há um fluxo contínuo. Talvez o experimentalismo de Virgínia nessa obra cause estranheza ao leitor, desde as composições frasais à estruturais.

É claro que aquele olhar perspicaz sobre a sociedade e o ser humano está presente aqui também. Interessante destacar dois momentos, a exemplo do referido: primeiramente quando uma senhora está aterrorizada por encontrar-se numa cabine do transporte coletivo com um homem, o seu terror é palpável e a todo momento ela planeja como poderá se defender caso ele tente algo “Decidiu que atiraria o vidro de perfume com a mão direita, e com a esquerda puxaria o fio do alarme” P. 45, sensação bastante comum até hoje, em que as mulheres se sentem ameaçadas na presença de homens desconhecidos, o lado feminista de Virgínia diz olá (rs).

Em outro momento, ela ressalta a incrível habilidade humana de se distrair “Sem dúvida, nossa visa seria muito pior sem o nosso espantoso talento para a ilusão” P. 188, não sei qual a intenção da autora no texto original, mas entendi o ato de ilusão como a capacidade submergir-se em criações culturais para afastar-se da vida real, não necessariamente de criar realidades inexistentes (como em casos amorosos, por exemplo), e isso é bem pertinente! Quantas vezes o leitor não mergulhou em histórias e dramas para fugir de uma realidade insossa ou discrepante da ideal ?! A arte nos salva!

Não sou a leitora mais assídua de Virgínia Woolf, devo ter lido uns 4 ou 5 livros livros dela, mas é possível perceber como alguns elementos se repetem em suas obras, como em A Viagem, que Mrs. Dalloway (protagonista de um outro romance seu) aparece de passagem, ou em Flush, cachorrinho cocker speniel, a mesma raça que aparece em O quarto de Jacob. Enfim… Há traços que perduram por suas obras. 

Em O quarto de Jacob também há um flash do que mais tarde colocaria fim à vida de Virgínia (como já ocorrera em A Viagem anteriormente quando uma personagem descreve a agonia de submergir em águas pesadas), pois uma das personagens pensa em matar-se no Rio Tâmisa: ” – Bem, posso me afogar no Tâmisa – chorava Fanny Elmer, passando depressa pelo Asilo de Órfãos” P. 191. A autora cometeu suicídio aos 59 anos, momento em que encheu os bolsos de pedras e entrou no Rio Ouse, seu corpo fora encontrado apenas semanas depois.

Diante de uma explosão de técnica, que caracterizou de vez Virgínia como uma escritora modernista (com traços impressionais, nesse romance em especial), podemos perceber muito da autora ao longo das páginas.

Heroínas negras brasileiras| Jarid Arraes | Pólen

ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Antes de tudo quer pedir que, caso você trabalhe em escola, tente levar esse livro para seus alunos, ele é mais do que necessário!

Jarid fez um trabalho de mestra, reuniu histórias de mulheres negras que participaram da construção do nosso país, isso é um marco e uma leitura essencial para todos. Isso porque já é difícil se ter heroínas, negras então são quase raras, isso ficou bem evidente pra mim quando li a história de Aqualtune, princesa africana que foi vendida como escrava de procriação para o Brasil, lutou mesmo grávida para proteger Palmares e (pasmem!) foi avó de Zumbi dos Palmares (só lemos sobre ele na escola, sua mãe também foi guerreira na luta contra a escravidão).

O livro é composto de ilustrações em xilogravura, cordéis que contam a história dessas figuras inspiradoras e um breve resumo da vida delas em texto corrido, para quem se interessar em pesquisar mais depois.

E depois de conhecer 15 mulheres maravilhosas, fiquei a imaginar a quantidade de nomes que se perderam por puro racismo e misoginia, esse trabalho deve ser constante e espero ver mais obras assim no mercado.

O desvio | Gerbrand Bakker | Rádio Londres

BAKKER, Gerbrand. O desvio. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019.

O desvio

Ao ler o nome do autor, não consegui identificar se seria homem ou mulher, provavelmente por causa da origem holandesa, ainda tão estranha pra mim. Comecei a leitura assim, às cegas, mas logo percebi que se tratava de um autor homem, isso porque é latente o fetichismo em cima de uma mulher que mora sozinha.

Digo isso por causa de algumas cenas, como por exemplo: homens desconhecidos entram na nova casa da protagonista e ela fica bem a vontade com isso, se fosse a descrição de uma mulher seria bem mais real, no mínimo ela teria ficado com medo de morrer e ligado para a polícia ou corrido para pegar uma faca na cozinha. Além de usar o corpo nu da mulher como marcador de eventualidades, o arrepio ocorre no mamilo, não no pescoço, no braço ou em qualquer outra parte do corpo; constantemente ela fica nua ao ar livre; quando com frio, abraça os seios.

A história se passa em dois meses mais ou menos, quando Emily (ou Agnes, como preferir), foge de sua vida de esposa e acadêmica após descobrir uma doença e de estourar um escândalo na Universidade em que ela trabalha (ela havia ficado com um estudante ou algo parecido).

De um lado acompanhamos Emily e sua solitude na nova casa grande bem interiorana, de outro lado, o marido que tenta descobrir o paradeiro dela para pedir que volte. O afastamento de Emily muito conversa com a biografia de E. Dickinson, seu objeto de estudo na academia. O marido diz que ela estava com problemas e por isso o traiu e quis mudar de vida, será que realmente é necessário haver um problema para querer largar tudo?

No primeiro mês de nova estadia, percebe-se um momento de transição entre a vida urbana e a rural, a sinestesia dessa nova vida é melancolicamente bonita, quase wiccana, como as observações e descrições dos animais e do ambiente (até mesmo do cheiro da antiga dona da casa).

“Ajoelhou-se e olhou para o céu. Nunca tinha visto tantas estrelas antes. Também nunca antes olhara para elas nua e de joelhos no fim de novembro.” P. 73

A história é um aglomerado de segredos e de fatos aleatórios, não sabemos qual a doença que ela tem, nem o que de fato aconteceu na Universidade, não entendi o propósito de se deitar nua numa pedra e de tanger um texugo (que aliás, qual o intuito desse texugo na história?).

Ao final das contas, é interessante perceber os detalhes em comum na vida das três mulheres e a solitude como protagonista, mas a narrativa excessivamente masculina do autor me incomodou, bem como os diálogos fracos. Ah, achei que rolou um sentimento entre o marido e o policial, você também ou é coisa da minha cabeça?

Cidadã de segunda classe | Buchi Emecheta | Dublinense

EMECHETA, Buchi. Cidadã de segunda classe. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

Cidadã de segunda classe

Esse livro se passa na década de 60, na Nigéria e na Inglaterra, porém é mais atual do que podemos supor e presente em mais lugares do que imaginamos. É assustadoramente duro e real.

Em Cidadã de segunda classe, Buchi conta a história de Adah, a jovem que sempre foi posta de lado na sua família porque não possuía o mérito de ser um menino. Depois de fazer tudo para ser aceita pelos mais próximos, consegue, a troncos e barrancos, a oportunidade de estudar, algo muito difícil para as meninas nigerianas.

Estudar era algo que deixava Adah satisfeita consigo. Sua instrução tornou-se, então, o seu diferencial e por conta disso arranjou um casamento que aparentava ser sua melhor opção, mesmo a contra gosto do irmão. Dedicada e esforçada, ela passa a sustentar o marido, que estudava para conseguir a certificação de contador.

O sonho de Adah, como o da maioria dos nigerianos, era se mudar para a Inglaterra. Depois de alguns anos ela consegue realizar esse sonho, mas a realidade mostra-se diferente do que ela imaginava, pois mesmo com o seu grau de instrução e com um bom emprego na Biblioteca, ela não passa de uma “cidadã de segunda classe” que precisa morar em estabelecimentos insalubres porque são os únicos locais que aceitam pessoas negras.

Ao longo da narrativa, a protagonista passa a entender a dureza de ser  uma “cidadã de segunda classe”, pois que o termo foge de tudo o que ela almejou para a sua vida. Por ser negra e mãe, esperava-se um padrão de vida abaixo do que Adah imaginava que teria na Inglaterra.

O racismo é latente em cada momento, bem como o machismo. Adah é um exemplo de mulher forte, que luta diariamente pelo seu espaço, mas que não consegue quebrar os grilhões sociais impostos por um péssimo casamento. Ser negra pesou muito mais num país em que ser branco era sinal de dignidade. “O conceito de ‘brancura’ acobertava um sem-número de pecados” p. 68

O desenvolvimento pessoal dela se faz em meio ao sofrimento da maternidade sem apoio e do pouco dinheiro que precisa ser dividido também para pagar os estudos do marido que em nada contribui para o bem estar familiar.

Assim como em As alegrias da maternidade, podemos perceber a influência do cristianismo trazido pelos britânicos para a população nigeriana. O machismo que já era cultural do local ganha mais subterfúgios para manter-se vivo.

“Aqueles malditos missionários! Haviam ensinado a Adah todas as coisas boas da vida, haviam lhe ensinado a Bíblia, segundo a qual a mulher deve estar disposta a ceder ao seu homem em todas as coisas, e que para o marido ela deve ser mais preciosa que rubis.” P. 41

Buchi aproveita o ensejo da religiosidade exacerbada para criticar os privilégios do povo branco. “Algumas pessoas eram criadas com todas as coisas boas prontinhas à espera delas, outras apenas como enganos. Enganos de Deus.” p.167.

Ao observar a vida dos brancos, principalmente depois de sua estadia na maternidade, ela percebe as injustiças acarretadas só por causa da cor de sua pele. Desenvolve um olhar mais crítico sobre a sua condição e desperta a jovem de personalidade forte que estava latente.

Fiquei super ansiosa para ler a continuação desse livro, que a Dublinense publicou nesse primeiro semestre de 2019, o No fundo do poço. Cidadã de segunda classe é um retrato vivo da condição de muitas mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos, machismo e racismo.