A volta ao mundo em 80 dias | Julio Verne

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A figura do balão é um ícone nas capas da história de Julio Verne, né?! E se eu te contar que não tem balão nessa aventura?! Pois é! Não tem.

Julio Verne é conhecido por sua Literatura de Antecipação, os primeiros passos do sci-fi, mas aqui encontramos outros aspectos. A volta ao mundo em 80 dias possui uma linguagem acessível e valoriza a divulgação científica ao longo da narrativa, essa característica é bem comum a outro gênero que surgia na mesma época, o romance policial, que também prima pelo compartilhamento do conhecimento técnico.

Lançado em 1873, A volta ao mundo em 80 dias traz a história do gentleman Phileas Fogg, que é adepto a rotina e a calmaria, faz todos os dias as mesmas coisas e não é dado a excessos. Ele surpreende a todos ao apostar que daria a volta ao mundo em 80 dias, pois não bastasse tamanha ousadia, soaria absurdo vir de Fogg.

Acompanhado de seu empregado, Passepartout (este nome em francês significa chave mestra e muito significa para a construção do personagem, pois ele salva Mrs. Aouda da fogueira, trabalha no circo para sobreviver e ainda arrisca a própria vida para salvar o grupo, ele passa por várias situações inusitadas), eles juntam uma singela trouxa de roupas e uma bolsa recheada de bank notes (papel moeda).

O inspetor Fix acha a atitude de Fogg muito suspeita, principalmente depois de receber a notícia de que o banco inglês havia sido roubado! Ele segue o suspeito por toda a viagem na tentativa de prendê-lo, mas Fix é fiel a lei e aguarda pacientemente (ou nem tão paciente assim) a chegada do mandato de prisão.

Daí a trama de aventura se forma, uma verdadeira corrida contra o tempo (se você já terminou essa leitura, verá que nenhuma outra frase faz mais sentido para descrever essa história, se você ainda não leu ou está lendo, entenderá do que estou falando nas últimas páginas).

A leitura desse Clássico da Literatura Francesa me surpreendeu bastante, pois é uma aventura divertida com uma linguagem leve e conteúdo riquíssimo de conhecimento científico e cultural.

Recomendo a leitura desse livro para todas as idades, sobretudo os jovens leitores, que podem ter uma experiência única diante da possibilidade de aprender muitas coisas ao longo de uma aventura tão divertida.

Como viver com 24 horas por dia | Arnold Bennett | Auster

Estou em uma fase de autodesenvolvimento, tenho pesquisado e lido bastante sobre a relação do homem com o tempo e o trabalho. Em meio a essas minhas andanças livrescas, me deparei com o “Como viver com 24 horas por dia”, achei o título muito pretensioso, mas arrisquei.

Preciso ressaltar que Bennett traz em seu texto a visão de um inglês em meados dos anos 1900, ou seja, não considera nada de atividades domésticas + trabalho + estudo, algo completamente fora da minha realidade. Mesmo diante disso, ainda consegui extrair um valioso ensinamento daqui.

Geralmente vemos as horas que passamos trabalhando como a principal atividade do dia e tudo o que acontece antes ou depois são apêndices do trabalho (você acorda, toma banho, lancha para ir ao trabalho, toma banho, come, descansa, estuda para o trabalho). Arnold propõe que passemos a enxergar as horas fora do trabalho como as principais horas do dia, a labuta foi algo que você precisou ir lá executar para conseguir dinheiro ao final do mês.

Em seguida, o autor traz sugestões de como utilizar melhor esse tempo livre e um conceito que é uma das bases para o livro Minimalismo Digital: gastar o seu tempo com lazeres de qualidade, algo que engrandeça a você mesmo. Aqui pode parecer que ele está falando de ser produtivo até nas horas vagas, mas não é bem assim. Fazendo um paralelo com a sociedade atual, o autor propõe atividades que movimentem o corpo e envolvam aprendizado/ desenvolvimento e não ficar a mercê da passividade (oi, feed das redes sociais).

Basicamente, dedique as 3 horas noturnas ao que alimenta a sua alma, se não gosta de ler, enriqueça-se da maneira que lhe aprouver: jardinagem, marcenaria, pintura, artesanato, instrumento musical, etc. Pense na qualidade dessas atividades e compare com rolar o feed do Instagram.

Bennet traz ainda um esquema para auxiliar na organização dos dias, propõe que o cronograma semanal seja feito com base em 6 dias semanais e que o 7° seja usado para o descanso e o ócio. Ainda é comum nos sentirmos culpados ao descansar, mas esse relaxamento faz parte de ajudar o nosso corpo a processar melhor tudo o que queremos absorver e executar. O descanso faz parte da vida, como dormir ou comer.

No geral, esse livro não foi arrebatador, algo que mudasse completamente a minha forma de ver o mundo, mas esses pontos que aqui listei me fizeram passar algumas semanas refletindo.

Bartleby, o escriturário | Herman Melville | L&PM

Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street foi a primeira publicação de Melville após Moby Dick e saiu no periódico Putnam’s em 1853.

Esta obra é narrada por um advogado que trabalha com escrituração e possui três funcionários de personalidades bem distintas. Diante do aumento das demandas, ele resolve contratar um novo escrevente, então Bartleby é contratado. A figura do jovem logo chama a atenção de seu patrão “[…] Ainda hoje sou capaz de visualizá-lo – palidamente limpo, tristemente respeitável , incuravelmente pobre!”p. 27

Logo nos primeiros dias de trabalho, Bartleby se mostra diligente em suas atividades, copia os documentos com todo esmero possível, é o primeiro a chegar e o último a sair, não sai da mesa nem para comer. Tudo caminhava bem, até que ao ser solicitado pelo Advogado para realizar uma tarefa, responde com “Prefiro não fazer”.

A partir dessa recusa, o advogado começa a olhar Bartleby de maneira mais atenta, a apatia em relação à vida é o que sobressai. Até mesmo o uso do “Prefiro não fazer” demonstra a falta de imposição, de querência, ele não chega a não querer, apenas prefere.

A presença de Bartleby começa a incomodar a todos, aquele ser inerte que prefere não realizar atividades e que se alimenta apenas de bolinhos de gengibre parece apenas esperar pela passagem do tempo. O advogado tenta demitir o escriturário, mandá-lo embora, mas ele permanece ali.

A falta de informações sobre o passado, os anseios e os pensamentos do jovem incomoda a todos e levanta várias incógnitas ao leitor. O mais interessante é que esse ser apático desperta no advogado certa preocupação, a história, sem reviravoltas ou explicações, beira ao absurdo, a rotina do escritório é abalada de maneira sutil e inesperada.

Logo no início da leitura lembrei de Dickens, pela narrativa fluida e bem humorada, em seguida a história caminhou para características kafkianas e, ao final, posso resumir Bartleby na frase de Albert Camus: “O absurdo não liberta; amarra“.

O que é Agricultura Sustentável | Eduardo Ehlers | Editora Brasiliense

Este livro faz parte da coleção Primeiros Passos, que se caracteriza principalmente por trazer de maneira sucinta definições sobre um determinado tema. Eduardo Ehlers conseguiu em 92 páginas sintetizar a história da agricultura e as principais características da Agricultura Sustentável.

O tipo de sistema produtivo sustentável está pautado em manutenção dos recursos naturais a longo prazo, otimização da produção e satisfação das necessidades humanas . Ou seja, trocando em miúdos, a produção deve suprir as necessidades sociais e alimentares do homem, proporcionar crescimento econômico e conservar os recursos naturais.

O que mais vemos hoje é o completo oposto disso, monoculturas que devastam a terra e os ecossistemas, produção massiva valorizando apenas o aspecto econômico e pessoas passando fome no país que mais produz alimento.

A fome nos nossos tempos está muito mais associada às desigualdades sociais e à falta de dinheiro para se comprar alimento do que à capacidade de produzi-los. Na Idade Média, o problema era justamente a falta de alimentos para se adquirir.”

Historicamente, o homem cuidava da terra para extrair seu alimento e gerar produtos com valor agregado para comercializar, com o tempo esse pequeno agricultor foi expulso de suas terras e obrigado a ir para as grandes cidades torar-se mão de obra massiva. A produção de alimentos ficou a encargo dos grandes produtores, que fornece alimentos não a quem mais precisa, mas para quem paga mais.

Essa ambição monetária fez com que cada vez mais os grandes produtores aderissem a alternativas químicas para garantir safras com maior valor econômico, daí a gana pelo uso de agrotóxicos. O solo cada vez mais adoecido, produz cada vez menos e é bombardeado cada vez mais de soluções ‘milagrosas’.

Pode até parecer estranho, mas na época do movimentos de contracultura, os ativistas que lutavam por uma terra mais saudável e natural eram tidos como rebeldes da agricultura e essa visão ainda persiste até hoje. Pouco se pensa em agrotóxicos na frente de uma maçã grande e brilhosa ou na cenoura perfeita do mercantil.

É claro que as vezes esses alimentos cheios de venenos são a única opção nas grandes cidades, mas esses consumidores podem começar a procurar mercados e feirinhas próximo a sua residência tanto para comer melhor quanto para incentivar a agricultura familiar. Faz bem pra saúde e para o meio ambiente.

O autor traz alguns eventos em que foram discutidos esse assunto, bem como o título de alguns livros e sites para quem quer se aprofundar mais sobre o assunto.

Inegavelmente a Agricultura Sustentável é uma necessidade urgente para o planeta!

A preguiça | Pe. Francisco Faus | Quadrante

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Conheci esse livro ao pesquisar sobre produtividade e fiquei surpresa com o conteúdo aqui disposto, isso porque a obra possui menos de 50 páginas e conseguiu tocar no cerne da questão preguiça. Devo ressaltar que o conteúdo desse livro é de cunho religioso, o que não é grande surpresa tendo em vista que o autor é um padre.

A preguiça é um dos pecados mais corriqueiros e que muitas vezes nem nos damos conta de quão impregnado ele está em nossas vidas. Interessante que o Padre Faus descreveu a maioria das pessoas logo no comecinho, quando ele demonstra que muitas vezes um “não posso, estou ocupada” é reflexo de pura preguiça, ele, então, nos convida a refletir o que há por trás do nosso não posso.

Seria muito bom que cada um de nós revisasse, sinceramente, o que há por trás dos nossos não posso. Não demoraríamos a descobrir, com evidência, que se trata de uma falta de interesse ou de uma falta de amor.”

Para exemplificar alguns casos de preguiça mascarada de ocupação: uma pessoa chega do trabalho cansada e diz que não pode ajudar o filho nas tarefas de casa porque está exausta, mas se aparecer a oportunidade de ir para um show nesse mesmo dia, muito provavelmente ela irá; ou quando a pessoa se enche de atividades e diz que não teve tempo para fazer tal coisa que era uma obrigação, essa agenda lotada pode ser reflexo da preguiça de fazer o que foi adiado.

O cansaço é uma coisa muito especializada. Sempre que se pensa nele, é muito conveniente perguntar: ‘Cansaço, para que coisas?’”

Depois de revelar tais máscaras da preguiça, Faus nos apresenta a virtude que se opõe à preguiça, que a Diligência. “Diligência é uma palavra que vem diretamente do verbo latino diligere, que significa amar.

Quando se faz as coisas com amor, a preguiça não encosta. Mesmo nas tarefas mais banais do cotidiano devem ser feitas com amor e devoção, tal característica nos torna uma pessoa laboriosa que “Faz o que deve e está no que faz, não por rotina, nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada”, ou seja, é necessário estar presente e amar aquilo que se faz para trabalhar de forma primorosa.

É importante frisar que o termo laborioso aqui empregado não é para aquela pessoa que trabalha 24h por dia e 7 dias por semana, mas aquela que trabalha de maneira dedicada. A nossa sociedade atual está marcada pelo excesso de produtividade, você tem que produzir o máximo que conseguir, mas é pobre em seu interior, logo a diligência meditativa do trabalho feito com amor é uma entrega que enche de significado até as pequenas coisas da vida.

Faus conclui que “guiado pela fé e o amor, o coração cristão aprende a descobrir, em cada pequeno dever, em cada um dos esforços necessários para a execução das tarefas cotidianas, uma oportunidade – cada dia renovada – de se dar mais, de servir melhor, de alcançar um novo grau de perfeição, de expressar uma generosidade mais alegre”.

Essa obra me tocou em particular, pois sempre me vi como uma pessoa ocupada e cansada para fazer tais e tais coisas. Gostei muito dos ensinamentos aqui dispostos.

Francisco Faus

O padre Francisco Faus é Bacharel em Direito e Doutor em Direito Canônico e Sacerdote da prelazia do Opus Dei, mora em São Paulo desde 1961 onde atua na formação cristã e atendimento espiritual.

Aprendendo inteligência | Pierluigi Piazzi | Aleph

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“Aprendendo inteligência” é o primeiro volume da coleção Neuroaprendizagem, do Pierluigi Piazzi (Prof. Pier). Publicada pela editora Aleph, essa série de livros tem como proposta ensinar as pessoas a estudar.

Parece algo óbvio, pois quem é que não sabe estudar? Todos nós terminamos o Ensino Médio e cá estamos falando sobre livros, não é mesmo?! Bom, lamento informar que não é  bem assim.

Como o próprio autor faz questão de mencionar em seu prefácio, nessa obra ele não trouxe nada de espetacular, muito menos uma mega descoberta no campo da Neuroaprendizagem, apenas elencou pontos essenciais para o aprendizado e os principais erros dos alunos ao estudar.

Por exemplo, é muito comum que os alunos estudem nas vésperas das provas como se a sua vida dependesse daquilo, mas alguns dias depois da prova esquecem completamente o que estudaram porque eles apenas decoraram uma porção de definições sem realmente estudar de verdade.

Então, como estudar de verdade? O Prof. Pier ressalta o ciclo circadiano como elemento orientador da prática de estudar, pois é muito importante que se estude o conteúdo recém entendido no mesmo dia, já que após uma noite de sono é muito mais difícil reter tal conhecimento, “Lembre-se: durante a aula, você entende; quando está sozinho com suas tarefas é que você aprende; após o estudo solitário, ao dormir é que você fixa” p.94.

Dicas
Ciclo Circadiano

O autor faz uma analogia à memória do computador, em que os assuntos vistos em sala estão dispostos na memória RAM e para salvá-los no HD é necessário fixar o conteúdo estudando em casa, logo “Aula dada, aula estudada…hoje!” p.44.

Pier é contra o excesso de tecnologia. A televisão ao longo dos anos foi substituindo as relações sociais e as formas de diversão que eram mais relacionadas com o desenvolvimento do intelecto, como a leitura, e por causa disso “[…] já foram criadas, pela TV pelo menos três gerações com grandes porcentagens de analfabetos funcionais” p.82. De certo modo, até mesmo quando você assiste a um documentário, está apenas vendo um monte de informações de forma passiva, sem tomar notas e sem buscar compreender além do que é posto. É válido ressaltar que mesmo com esse posicionamento do autor averso às tecnologias, é apenas ao excesso delas, pois a internet pode sim ajudar nos estudos.

A obra se encerra com a dica mais valiosa: “Ler muito”, pois é por meio da leitura que o estudante desenvolverá suas técnicas de estudo e poderá compreender o mundo, mas para isso é necessário gostar de ler e todos gostam de ler, talvez a pessoa pode não ter encontrado ainda o seu gênero preferido, mas a leitura em si é uma forma maravilhosa de diversão.

O livro termina com uma série de atividades para estimular a lógica e a inteligência cognitiva do leitor.

“Aprendendo inteligência” tem como público alvo estudantes de Ensino Médio, então o conteúdo pode soar um pouco fora de contexto se você não tem mais obrigações acadêmicas, mas é possível, ainda, colocá-las em prática se você estuda de maneira independente em casa. A maneira de escrever do autor me incomodou um pouco, pois ele me pareceu desnecessariamente grosseiro, o que não desmerece o conteúdo da obra, é claro.

o legado de Pierluigi Piazzi - Boaglio.com

Pierluigi Piazzi é italiano naturalizado brasileiro, professor de física e cofundador da Editora Aleph, ficou conhecido por suas obras na área de desenvolvimento da inteligência em fase escolar.

A paciente silenciosa | Alex Michaelides | Editora Record

Esse livro traz como protagonista a história de Alicia, uma mulher que foi encontrada ao lado do corpo do marido, Gabriel, que foi assassinado com cinco tiros no rosto, ela então é internada em uma clínica psiquiátrica porque desde então ela se recusa a falar, daí o título do livro.

Quem narra os acontecimentos é Theo, um psicoterapeuta que se interessa por esse caso e entra no Grove para trata-la, principalmente por conta dessa curiosa característica, o silêncio. Intercalado com a sua narrativa também lemos o diário de Alicia, que foi escrito até o dia da morte do marido.

Theo rompe os limites de sua profissão e abre uma espécie de investigação para conhecer o passado de Alicia, visita os parentes e as pessoas próximas dela, já que ela não falava durante as sessões de terapia. Além dessa espécie de CSI, também acompanhamos os problemas da vida pessoa de Theo, que é carregado de traumas da infância e está tentando lidar com a suspeita de traição da esposa.

Alex, o autor do livro tem ascendência Grega e Inglesa, então ele mescla muito das duas culturas para desenvolver sua obra.  Por exemplo, a questão da mudez de Alicia tem relação direta com a tragédia Grega de Eurípedes chamada Alceste, nessa história Admeto não cumpre um sacrifício prometido à Artêmis e é condenado a morrer como punição, ele, então, desesperado, recorre a Apolo, que diz que se ele encontrar alguém que morra em seu lugar, ele fará a troca. Nenhum familiar de Admeto aceita, nem mesmo seus pais, mas a sua esposa se voluntaria, em nome do amor. Alceste toma veneno e chega ao Tártaro, sua entrega comove a todos, o herói Héracles vai busca-la e a traz de volta a vida com a singular característica da mudez.

Interessante que Alceste é considerada um modelo de virtude feminina na Grécia Antiga, por se entregar à morte no lugar de seu marido em nome do amor. Ela abre mão da própria vida para que o marido não seja punido. Essa história tem muito pano na manga para discutirmos a questão feminina, mas esse será o tema de outro vídeo.

Admeto e Alceste - Brasil Escola
Figura 1 – Quadro da morte de Alceste

Voltando para a Paciente Silenciosa, o leitor pode construir a sua teoria embasada na narrativa de Theo e no diário de Alicia, as entrevistas feitas pelo psicoterapeuta se contradizem e mostram a visão de cada um sobre a paciente. Theo me incomodou bastante porque eu sentia sua presunção em ser a pessoa ideal para tratar Alicia e como ele tinha razão em suas escolhas e como a sua intuição estava certa.

Confesso que passei boa parte do livro achando ele bem ok, sem nada de extraordinário, mas depois dos 80% de leitura percebi que o autor me deu uma rasteira enorme, o desenrolar da história me surpreendeu bastante e amarrou todos os pontos da narrativa, cheguei a parar e ficar olhando pro nada vendo como tudo fazia sentido, da primeira a última frase (foi tipo aquela cena do filme em que o protagonista se toca de algo e vêm os flashes na mente, pois é, eu passei por isso dentro do ônibus).

Alex abordou muito bem os traços de personalidade de cada personagem, conversei até com uma amiga que está se formando em psicologia sobre como ele conseguiu delinear bem as características e trabalhar com elas ao longo de toda a história.

Recomendo essa leitura para quem gosta de thrillers e se interessa por esses assuntos de psicologia, distúrbios de personalidade e afins.

Bom dia, Verônica | Raphael Montes e Ilana Casoy | Darkside

MONTES, Raphael; CASOY Ilana. Bom dia, Verônica. 2°ed. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 256p.

Bom dia, Verônica é um Thriller brasileiro publicado em 2016 sob o pseudônimo de Andrea Killmore e ganhou sua segunda edição com a revelação dos nomes dos autores da obra, bem como com o anúncio da compra dos direitos para adaptação pela Netflix em 2020.

Esse livro possui duas linhas narrativas, a primeira sendo em primeira pessoa pela Verônica e a segunda, em terceira pessoa onde acompanhamos a vida de Janete. É interessante a escolha dessa diferença de narradores, principalmente porque enquanto Verônica é uma mulher policial, desinibida e astuta, Janete é aquela mulher submissa que apanha do marido, ou seja, ela não tem voz nem mesmo para contar a própria história.

Verônica é uma escrivã da Polícia Civil realocada para a função de secretária depois de alguns escândalos familiares e de sua tentativa de suicídio. Quando Marta Campos se suicida na delegacia, Verônica logo sente certa empatia por ela e resolve investigar o golpe que levou a moça a tal ato de desespero.

Em sua jornada, Verônica também se depara com o caso de Janete, que informa sobre os assassinatos cometidos pelo marido, o que vira mais um caso para sua empreitada de investigações ilegais.

Sim, Verônica, atual secretária da PC, investiga dois casos sérios de maneira ilegalmente, pois o seu superior não faz a menor ideia do que ela está fazendo.

Esse livro tem uma série de problemas que eu nem sei como abranger tudo isso, vou aqui separar por categorias e depois explicar cada uma delas melhor em um post que eu me permita dar spoilers.

Bom dia, Verônica foi o pior livro que eu li nesse ano de 2020. Infelizmente, uma história que tinha um plot bacana se tornou um show de horror (e não foi por causa das cenas de tortura), pois é super racista, misógino e preconceituoso.

E antes que alguém fale “ah, mas os autores podem só estar querendo fazer uma crítica, isso e aquilo outro”, não, eles não estão. Qualquer leitor é capaz de diferenciar um relato crítico de um relato racista, por exemplo.

Em um cenário delicado que vivemos no Brasil, principalmente por termos na presidência uma pessoa que quer acabar com a cultura indígena, bem como desapropriar as suas terras, faz chacota ao visitar uma tribo quilombola e abertamente é machista, é muito complicado jogar o livro Bom dia, Verônica para olhares que não conseguem lê-lo de maneira crítica. Não estou aqui julgando quem amou esse livro, até porque eu vi que várias pessoas deram 5 estrelas e o favoritaram no Skoob e no GoodReads, mas vamos por partes.

– A partir daqui o texto contém spoiler –

Nessa história, o serial killer é um índio que ouve músicas da sua tribo enquanto está indo pegar as suas vítimas, bem como a sua avó índia pinta o corpo dele com desenhos indígenas usando jenipapo. Quando Verônica descobre que ele tem ascendência indígena, a única coisa que ela pesquisa são os rituais que envolvem morte. Esse tal serial killer agride a esposa com murros ritmados como se estivesse tocando um tambor… Bom, será que os autores estão sendo tendenciosos com relação a figura indígena??

Ainda falando em racismo, em um dado momento, Verônica vai abastecer o carro dela e o frentista é negro, então ela logo começa a sua análise “altamente sensata” (sarcasmo) sobre ele:
“[…] o típico cafuçu que não serve para casar, mas que é ótimo para trocar o óleo.
Heloísa, uma amiga das antigas, […] era especialista nesses homens: em geral, jovens da periferia, prestadores de serviço, de corpo gostoso, sem modos e desletrados, mas com pegada forte, abafando sem só na costela, os reis da foda mágica sem compromisso e sem ônus.” p.215

Vou deixar aqui esses dois exemplos para que vocês possam refletir sobre.

Com relação à misoginia, é impossível contar nos dedos tudo o que encontramos aqui, mas vamos lá…
Verônica chama um ou outro de machista, mas ela é uma das personagens mais machistas desse livro! A começar por sua fixação pra andar maquiada, ela usa maquiagem até para não parecer maquiada, diz que teve a melhor transa da vida dela depois que pintou os cabelos de loiro e emagreceu 5 quilos, pois agora ela era uma outra mulher.

A filha da Verônica é ser mais desprezado dessa história, a mãe não troca uma palavra com ela, mas acompanha o filho para o campeonato de natação dele. O filho atleta recebe alimentação rica, enquanto que a filha gordinha não é incentivada a fazer exercícios e a mãe ainda sugere uma “dieta NAZISTA” para a criança que tem apenas 9 anos de idade. Sim, os autores usaram o termo “dieta nazista”, agora me digam vocês, o que é uma dieta nazista?? 1 pão, 1 copo d’água e um dia de trabalho forçado?

Ainda sobre a misoginia, Verônica se propõe a investigar dois casos, certo?! Por estar trabalhando por debaixo dos panos, é natural que ela encontre dificuldades em seu caminho, então, o que é o mais sensato a fazer?! Bom, para os autores de Bom dia, Verônica é trocar informações por paquera e sexo, tentando colocar aí uma incapacidade que as pessoas insistem em colocar na figura feminina, o famoso “ela deu pra quem pra conseguir tal coisa??”.

Na figura de Janete conseguimos perceber que os autores até colocaram sua situação com um olhar crítico, ela representa uma gama de mulheres que sofrem nas mãos de seus companheiro. Diante de uma personagem que FINALMENTE faz uma crítica social, qual a reação da Verônica?! “Suspirei, exausta daquela ladainha de síndrome de mulher espancada.” p. 190.

Quando Verônica descobre que está sendo traída, ela coloca a culpa na amante, não vai tirar satisfação com o marido. Porque, claro, é muito mais fácil culpar a mulher pela destruição da sua família. Esse livro é tão misógino que se eu fosse pontuar TODAS as cenas desse tipo, seria mais fácil eu sentar e ler do começo ao fim para vocês.

Além disso, a história é bem preconceituosa quando ao serviço público brasileiro, há momentos em que Verônica chama de “filosofia do serviço público” ideias como “por que fazer hoje se eu posso fazer amanhã?”. A própria Verônica em si é uma policial totalmente sem ética em seu trabalho, troca favores por sexo, faz investigação não autorizada, chantageia, instala câmeras sem mandato e chega a entregar um frasco de veneno para Janete matar Brandão.

Claro que em todos os lugares há funcionários de todos os tipo, mas a protagonista desse livro deixa claro o que há de pior no serviço público brasileiro como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas não podemos normatizar o errado.

Um lugar bem longe daqui | Delia Owens | Editora Intrínseca

OWENS, Delia. Um lugar bem longe daqui. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. 336p.

Esse livro se passa em duas linhas temporais, uma em 1969, quando o corpo de Chase Andrews é encontrado na torre de incêndio, e outra entre 1950 e 2009, onde acompanhamos da infância a velhice de Kya.

Kya era conhecida como a “Menina do brejo” numa pequena cidade costeira da Carolina do Norte. O brejo era o local onde as pessoas com péssima reputação iam para se esconder de seus credores e da justiça, por causa disso eram chamados de lixo branco. A maior parte do livro se passa em meados dos anos 50 e 60, quando as leis de Jim Crow, uma das responsáveis pela segregação racial ao sul dos estados unidos ainda, estavam vigentes .

Quando ainda era criança, Kya foi abandonada por todos da sua família, tendo que sobreviver sozinha no brejo com a ajuda de uma ou outra pessoa que se compadecia da sua situação. Ela, então, cresceu no meio dos animais e aprendeu que os mais selvagens eram os que moravam na cidade, pois não perdiam a oportunidade de humilhá-la.

Pulinho era o dono de um posto onde Kya abastecia seu barco, ele a esposa ajudaram bastante a jovem nos seus dias mais difíceis. Ele, por ser negro, também conhecia o pior das pessoas da cidade.

A natureza e a solidão são temas perenes nesse romance. “Ela riu para agradá-lo, algo que nunca tinha feito. Cedendo mais um pedacinho de si só para ter alguém.” p.164

Kya é uma personagem resiliente, determinada, dedicada e inteligente. Em seu primeiro dia de escola ela foi zombada por não saber soletrar uma palavra e depois disso nunca mais quis frequentar as aulas. Um amigo, porém, a ensinou a ler, a escrever e a estudar ciências numa cabana do brejo. A partir daí ela cataloga todas as espécimes que encontra nos seus longos e solitários dias.

Em um dado momento, a investigação da morte de Chase Andrews cruza a vida da Kya já adulta e mais uma vez ela precisa enfrentar as pessoas da cidade. Essa história dá leves reviravoltas, surpreende o leitor de maneira emocionante e singela.

Assim como brejo, esse livro é silencioso e ao mesmo tempo cheio de vida, a narrativa de Delia Owens soa como as águas paradas do rio, o que pode ser enfadonho para alguns, mas poético para outros leitores.

Esse foi um romance que não não consegui largar, ficava pensando no brejo quando não estava lendo e cheguei a chorar com o final (sim, chorei de verdade), ou sejam foi um livro que me emocionou do começo ao fim, uma das histórias mais bonitas que já li.

A vida mentirosa dos adultos | Elena Ferrante | Intrínseca

FERRANTE, Elena. A vida mentirosa dos adultos. Rio de janeiro: Intrínseca, 2020. 432p.

Giovanna é uma criança de 12 anos que até então tinha os pais como seus heróis, mas depois de ela ter resultados ruins na escola, Andrea, seu pai, fala que ela está ficando igual a tia Vittória.

Vittória é a irmã do pai de Giovanna, uma mulher forte e batalhadora que sempre viveu em atrito com o irmão, o que resultou em um completo isolamento por parte de Andrea.

Esse simples comentário desperta na jovem uma vontade de conhecer a tia, mesmo que a contra gosto dos pais. Ela, então, vai conhecer a vida no subúrbio de Nápoles e começa, então, suas descobertas sobre a família e sobre a humanidade.

O contraste dos meios intelectuais que sempre teve contato com os palavreados chulos do bairro da tia despertam em Giovanna uma liberdade de transitar entre essas duas realidades. Por hora valoriza um e por vezes enaltece o outro.

A autora traz, ainda, várias reflexões sobre o papel feminino na sociedade, como quando o pai de Giovanna estuda desde o momento que acorda até a hora de dormir e consegue publicar em revistas seus artigos, enquanto que a mãe precisa preparar o café e arrumar a casa nesse período e seu emprego é corrigir romances açucarados em casa. Talvez pela falta de tempo e não de competência para também ser professora e escritora conceituada.

Os relacionamentos de Giovanna também despertam a questão feminina, desde sua relação com as amigas a seus namoricos, onde quando ela se envolve com Corrado, é algo puramente sexual e ele a tem como propriedade, ao perceber isso, Giovanna faz questão de se engraçar com o melhor amigo dele para mostrar que ela não é um objeto que tem dono.

Giovanna faz o que deseja, conhece a tia que o pai não gosta, viaja para Milão, se relaciona fora dos padrões. Ela é um modelo de rompimento com o que se espera.

Este é um romance de formação em que a partir de suas vivências, Giovanna se descobre e se desenvolve ao passar dos anos.

Elena Ferrante é conhecida principalmente por sua tetralogia Napolitana, que começa com o livro A amiga genial. A autora italiana sempre traz à tona a realidade violenta de Nápoles e uma de suas principais características é a narrativa que enfeitiça o leitor de maneira ímpar. Ferrante tem uma escolha curiosa, mesmo diante do enorme sucesso de seus livros, optou pelo anonimato, ninguém sabe quem é Elena Ferrante (pode ser uma pessoa ou apenas um pseudônimo).