O feminismo é para todo mundo | Bell Hooks | Rosa dos tempos

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

o feminismoA ideia de Bell ao escrever esse livro foi de produzir um material acessível para apresentar o feminismo para as pessoas. Muito se fala de feminismo, mas na realidade pouco se conhece de fato as vertentes e ideias defendidas.

A autora começa com um apanhado histórico e evolutivo do feminismo e sua atuação na sociedade no passar dos anos. Relata como o feminismo esteve atrelado aos desejos de uma classe dominante durante anos, fechando os olhos para diferenças sociais.

A evolução e capilaridade do feminismo permitiu a inserção de pautas como sexualidade e a criação de filhos. Achei muito interessante a colocação que Bell faz sobre os abusos sofridos por crianças em casa, pois é comum ouvir falar apenas dos abusos sexuais cometidos por homens, mas raramente levanta-se a questão de abusos psicológicos e emocionais causados por mulheres às crianças. A visão que muitas pessoas têm sobre feminismo é de um movimento contra os homens, mas na verdade é sobre a superação do sexismo cultural que impede um convívio social harmônico.

“Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”

De fato Bell conseguiu alcançar seu desejo de produzir um material didático amplo e de linguagem acessível. É claro que um livro sempre terá suas limitações, uma vez que seu público se restringe a leitores, pessoas que possuem acesso aos livros (o que pode ser considerado um privilégio, de certo modo). O engajamento dos meios de comunicação em massa para remover os estigmas do feminismo é necessário para alcançar cada vez mais pessoas.

A autora aborda diferentes assuntos dentro do feminismo, como aborto, trabalho, raça e gênero, violência, casamento e companheirismo, sexualidade, amor, espiritualidade e política. É uma obra essencial para quem se interessa pelo assunto, pois traz explicações para termos e colocações sobre vários aspectos da sociedade.

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Mangá | Assim falou Zaraustra

manga assim falouLi esta adaptação da obra de Nietzsche antes mesmo de ler o original, então não tenho como comparar as duas versões (se saiu muito do escopo do clássico ou qualquer outra informação do tipo).

A experiência límpida com o mangá, sem conhecimento prévio da história, me proporcionou um aproveitamento muito bom. Percebe-se a simplicidade da linha narrativa, porém com grande reflexão filosófica.

Conta-se a história de uma família cristã, onde o pai é pastor e sustenta a esposa e os filhos a partir das ofertas arrecadadas pela igreja. O rumor de que um dos filhos do casal é adotado toma força e leva a um desequilíbrio emocional do núcleo familiar. O jovem Zara sai de casa em buscas de respostas às suas indagações e acompanha Salomé, que lhe apresenta a lei do eterno retorno. A partir daí os questionamentos filosóficos sobre  Deus e a igreja se fortalecem.

Aqui aparece a famosa frase de Nietzche “Deus está morto”. A explicação para a “morte” de Deus faz-se a partir das atitudes humanas, onde estaria Deus diante de tanta iniquidade e maldade na face da Terra? A essência da caridade tão pregada pelo Cristianismo se esvaiu ao longo dos anos e a avareza tomou conta dos lares. Os princípios básicos pregados pela doutrina foram deturpados pelas pessoas e, aos poucos, sufocaram a Deus com Ego humano. Ou seria Deus apenas uma criação do próprio ego humano para sentir-se especial?

O estilo do desenho é muito bonitinho, o que achei estranho foi ler uma edição de mangá no sentido ocidental, da direita pra esquerda.

Fome | Roxane Gay | Globo livros

ROXANE, Gay. Fome: uma anatomia do (meu) corpo. São Paulo: Globo livros, 2017.

fome.jpgFome: uma anatomia do (meu) corpo é uma autobiografia de Roxane Gay em que ela relata o abuso sexual que sofreu aos 12 anos de idade e como isso influenciou sua autoestima, chegando engordar para não ser atrativa aos homens.

Roxane demostra as dificuldades que sofre por causa de seu corpo, seja pelos julgamentos e comentários ou pelo trabalho redobrado em realizar atividades rotineiras, como caminhar com amigos por exemplo. Os relacionamentos amorosos dela também sofrem com sua baixa autoestima, mesmo depois de trinta anos ela continua a se sentir culpada pelo o que ocorreu na infância e que não merece ser amada.

A relação da autora com seu corpo sofre os estigmas sociais imposto para pessoas obesas, que frequentemente são vistas como descuidadas. Ainda mais quando se é mulher, uma vez que a maioria das garotas são ensinadas a ocupar pouco espaço, serem magras, falar baixo…

Em geral, a mulher na sociedade está constantemente em busca de um corpo mais magro, procurando um chá milagroso. Já está na nossa cultura que é falta de educação falar que uma mulher está mais gorda ou mais velha e a maioria delas fica com raiva quando isso acontece. O corpo da mulher é alvo de padrões estabelecidos por homens. Um caso recente no Brasil, quando a Xuxa postou uma foto sua sem maquiagem e a chamaram de velha nas redes sócias. Parece que mulheres não podem envelhecer ou engordar que já é alvo de comentários, parecendo irresponsabilidade e não algo natural do corpo humano.

Roxane além de contar a sua história nos faz refletir sobre a condição do corpo feminino numa sociedade cruel que está disposta a criticar qualquer característica divergente dos padrões impostos por uma visão masculina de corpo bonito. Este é um livro pesado de se ler, pois fala de traumas e sentimentos.

Não está mais aqui quem falou | Noemi Jaffe | Companhia das letras

JEFFE, Noemi. Não está mais aqui quem falou. São Paulo: Companhia das letras, 2017.

não está mais aqui quem falou.jpgNão está mais aqui quem falou é um livro de contos e epígrafes da Doutora em Literatura Noemi Jaffe.

A primeira vez que vi/ouvi falar de Noemi Jaffe foi em um vídeo dela sobre Clarice Lispector, uma espécie de encontro em uma livraria. Achei sua maneira de falar tão apaixonada pela Literatura e seu discurso tão rico que depois fui pesquisar mais sobre ela. Nessa busca, descobri esse livro de contos e fiquei muito instigada a lê-lo, principalmente quando li uma resenha sobre o conto “L de lá”, fiquei fascinada pela paixão de Jaffe pela Língua Portuguesa.

Esse livro é um compilado disso, da paixão de Jaffe pela linguagem. Poderia dizer que ela uma Nerd das palavras, da riqueza do Português. Em Não está mais aqui quem falou, ela aproveita o espaço dos contos para demostrar a orgiem de palavras, brincar com traduções, lembrar de obras da Literatura e até mesmo contar e recontar histórias onde a verdade e o lúdico de misturam.

Logo no começo achei os textos estranhos e pensei que talvez eu não fosse o público da autora. Cogitei a dar apenas duas estrelas no GoodReads, mas com o passar das páginas, me adaptei ao seu estilo e pude desfrutar da riqueza contida em cada uma de suas frases.

Para quem procura uma obra inteligente e descontraída ao mesmo tempo, eis uma opção. O livro é bem curtinho, dá para ler em um dia (e olhe que eu leio muito devagar).

HQ | Preacher: A caminho do Texas

preacher vol1Antes de tudo, preciso confessar que acompanho a série televisa de Preacher produzida pela AMC desde que saiu e só li a HQ muito tempo depois, embora o quadrinho seja um clássico dos anos 90. Então, minha visão sobre o encadernado pode estar poluída em certos aspectos.

A história contada na HQ e na Série são bem diferentes, a premissa do dom da palavra recebido por Jesse permanece inalterada, o distanciamento se faz, principalmente, nos personagens secundários e desenrolar da narrativa.

Esse é o primeiro volume da história e traz os primeiros dias em que Jesse está com A Palavra, ele ainda pondera sobre a responsabilidade de usá-lo enquanto tenta lidar com o Santo dos Assassinos, fugir da polícia e se entender com a Tulipa.

O Gênesis, ou a palavra, é uma ser do plano espiritual que resultou de um caso entre um anjo e uma demônia. Ao recebê-lo, Jesse adquire o dom de, com sua voz, fazer com que as pessoas realizem de maneira involuntária exatamente o que ele ordenou. Os seres responsáveis por guardar o Gênesis entram em pânico ao descobrir do seu sumiço e contratam o Santo dos Assassinos para recuperá-lo na Terra.

Ao receber o Gênesis, todos os fiéis que estavam presente na celebração de Jesse morrem carbonizados, tamanho o poder emanado do ser. A polícia o procura como principal suspeito pela morte dessas pessoas.

Jesse seguia os passos do pai ao atuar como reverendo em uma cidadezinha pacata. Seus amigos atuais são Tulipa, uma ex namorada cheia de mistérios, e Cassid, um vampiro meio desajustado que adora beber e se envolver em brigas.

Ao cenário de muita bebida, sexo, violência, anjos, demônios e muitos segredos, Preacher é uma HQ que se destaca por sua originalidade.

Logo nas primeiras páginas, os autores deixam claro que essa HQ é violenta e não foi feita “para agradar”. Os criadores tiveram uma ideia e colocaram em prática e mesmo com as duras críticas recebidas, não se importaram, o fizeram por pura diversão de dar vida aos seus personagens.

Os fãs da HQ geralmente não gostam da adaptação para a TV, mas estou na contra mão, prefiro o seriado por ser mais “leve”. A história original é muito boa e pretendo ler a continuação, mesmo não fazendo muito o meu estilo.

Preacher: A Caminho do Texas (criado por Garth Ennis e Steve Dillon)
Volume 1
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon
Cores: Matt Hollingsworth
Editor original: Stuart Moore
Editor: Fabiano Denardin
Editor assistente: Bernardo Santana
Tradução: Edu Tanaka/FD
Letras: Daniel de Rosa
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Editora no Brasil: Panini Comics

Sobre o conto | Uma galinha, de Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice; Uma galinha. In: MOSER, Beijamin (Org.). Clarice Lispector Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

CLARICE_LISPECTOR_TODOS_OS_CON_1460659755578277SK1460659755BO conto Uma galinha, da Clarice Lispector, está no livro Laços de Família e é uma história curtinha que traz um acontecimento corriqueiro na vida de pessoas que criam galinha: o momento de escolher e pegar uma para fazer o almoço do dia.

A narrativa me lembrou muito minha infância, pois eu tinha uma vizinha que criava galinhas para esse fim. Aqui o cotidiano ganhou resignificações e reflexões sob uma nova perspectiva.

Nas palavras de Clarice, a galinha ganha uma personificação e por vezes me fez lembrar uma mulher que foge de um possível agressor:

“Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga.” P. 157

Outro momento em que a galinha lembra uma mulher foi quando ela pôs um ovo e comoveu a todos da família, fazendo com que desistissem de levá-la para a panela. A maternidade em si emociona, a eminencia de uma nova vida e nova esperança transforma as emoções humanas. O que faria a galinha menos “ser vivo” antes de colocar o ovo?

Embora o ovo tenha trazido tanta comoção, o homem é um ser volátil, corre atrás da galinha, a ama e logo em seguida a quer na panela novamente. A coitada da galinha passou um período sendo amada como bicho de estimação (um gato ou um cachorro), mas algum tempo depois é desprovida de empatia e seu fatídico destino chega.

O conto, apesar de curtinho, aborda a condição feminina e o limiar da relação homem-animal, onde ama-se alguns e comem-se outros. Um ótimo texto para quem gosta dos temas feminismo e veganismo.

Maria Bonita | Adriana Negreiros | Objetiva

NEGREIROS, Adriana. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

maria bonita.jpgMaria Bonita: Sexo violência e mulheres no cangaço é um livro de não ficção escrito pela Adriana Negreiros. É inegável o esforço e paixão da autora para pesquisar e escrever sobre o assunto, isso fica muito claro, principalmente, na maneira como ela escreveu o livro usando a linguagem do cangaço, por vezes até parecia que eu estava ouvindo algum contador de histórias do interior do nordeste me falando sobre a época dos cangaceiros.

Lampião e Maria Bonita são figuras muito emblemáticas aqui no Nordeste e apesar de terem sido bandidos, são homenageados de diversas maneiras, seja como suvenir ou em festas regionais. O que eu não fazia ideia é do quanto eu, que fui ensinada na escola sobre o cangaço, não sabia de nada a respeito… As atividades dos cangaceiros fazem parte da nossa história e são apresentadas em nossa cultura de forma amena, pelo menos na escola eu só ouvi falar de que eles eram bandidos cruéis, tidos por Robin Hood do sertão por alguns. A realidade é que eles foram muito mais do que isso, Lampião chegou a receber o título de “bandido mais notório da América do Sul” P. 65 pelo The New York Times, o pavor que assolava o sertão nordestino tinha fama internacional.

A crueldade do bando é absurda e é incrível perceber como as pessoas tinham medo do grupo, pois quando eles chegavam em determinado local todos se calavam ou tentavam fugir, pois já se esperavam o pior.

Algo que chamou minha atenção nesse livro foi a semelhança entre a banalização da violência no cangaço e nas ruas do Ceará de hoje. Vivemos com medo, tememos esbarrar em alguém e assistimos a cenas de violência diariamente na TV como “só mais um caso”. Teria a violência do cangaço realmente acabado após o fim das atividades de Lampião e Corisco?

O esmero da Adriana em sua pesquisa é espetacular, todas as informações apresentadas por ela são referenciadas com jornais da época, relatos e outras obras resultante de pesquisa sobre o assunto. Recomendo muito a obra para quem interesse no assunto, é indispensável para quem quer aprender mais sobre o assunto.