Microplástico, um problema cotidiano

Texto publicado originalmente na Revista Conexão ComCiência, n.1, v.5, 2021(ISSN 2763-5848).

Resumo

INTRODUÇÃO: O plástico foi descoberto em 1862 como uma alternativa ao uso da borracha, logo virou uma alternativa barata e resistente para facilitar a vida do homem, mas em menos de 200 anos esse material tornou-se um dos grandes problemas ambientais. METODOLOGIA: Realizou-se um estudo bibliográfico sobre o impacto do microplástico no meio ambiente. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Atualmente as partículas plásticas com menos de 5 mm de diâmetro são responsáveis por poluir oceanos e rios, bem como pela morte da fauna e pela contaminação do homem. Fazer escolhas conscientes visando sempre alternativas sem plástico é uma maneira de o homem diminuir esse impacto ambiental. CONCLUSÃO: O homem foi o responsável por jogar toneladas de lixo no meio ambiente e ele é o único que pode diminuir e reverter essa situação por meio de práticas conscientes e sustentáveis.

Palavras-chave: Microplástico; Meio Ambiente; Sustentabilidade.

1 Introdução

O plástico foi descoberto por Alexander Parkes em 1862 quando ele procurava um substituto para a borracha, o principal material usado naquela época. Rapidamente esse novo insumo passou a ser usado em larga escala na produção dos mais diversos produtos e em menos de 200 anos ele virou uma das grandes questões para o meio ambiente, principalmente por levar pelo menos 500 anos para se degradar (PHILLIPS, 2008).

Um polímero orgânico de cadeia longa que a depender do seu formato ou composição se destina a diferentes funções, tal versatilidade proporcionou ao plástico estar presente em todos os âmbitos da vida humana, como em equipamentos eletrônicos, embalagens de alimentos, utensílios descartáveis e até mesmo dentro de produtos de higiene e limpeza (LEBRETON et al., 2018).

Além do problema de descarte desses utensílios plásticos em tamanho macro, nos anos de 1970 registrou-se um agravante quando estudos relataram a presença de micropartículas plásticas no oceano (ROCHMAN, 2018). Nos 50 anos seguintes a presença desse material aumentou consideravelmente e para se ter uma noção da extensão desse problema, estudos apontam que o microplástico pode ser encontrado em 90% do sal de cozinha (KIM et al., 2018).

O uso vertiginoso e o descarte indevido do plástico é um dos problemas ambientais mais recorrentes na atualidade e impacta negativamente diversos níveis do ecossistema, logo, este estudo tem como foco as repercussões do microplástico no meio ambiente, procura-se responder à pergunta: “Quais os impactos ambientais advindos do microplástico?”

Para tal, tem-se como objetivo levantar e analisar as principais pesquisas sobre essa temática. Espera-se que este estudo possa fomentar a produção acadêmica nessa área, bem como estimular a consciência ecológica e sustentável na aquisição e descarte de produtos no cotidiano.

2 Metodologia

Realizou-se um levantamento bibliográfico neste trabalho, que tem como norte a busca de relações entre conceitos e ideias, conforme delineia Almeida (2011) sobre a pesquisa bibliográfica.

Para tal, buscou-se nas plataformas de pesquisa Scielo e Science Direct os seguintes descritores “microplastics” e “environment”, no período de maio e junho de 2021.

Realizou-se a leitura e análise crítica do material coletado, sendo selecionados 9 para compor este estudo. A discussão desse arcabouço teórico foi feita pela síntese dos achados mais relevantes por meio de uma abordagem qualitativa.

3 Resultados e Discussão

Microplásticos são partículas de plásticos que medem menos de 5 mm e estão presentes em todo o mundo como um dos principais poluentes dos oceanos desde a década de 70 e, mais recentemente, dos rios e dos solos (ROCHMAN, 2018).

Estas pequenas partículas podem vir de fontes primárias, quando o plástico já é produzido no tamanho diminuto, como no caso de microesferas usadas em cosméticos, fragmentos resultantes de lavagem de roupa e grânulos para jateamento de ar, por exemplo; ou de fontes secundárias com a fragmentação de plásticos maiores devido a degradação mecânica ou exposição à luz ultravioleta, como no caso de garrafas plásticas ou outro recipiente (JIANG, 2018).

Estima-se que anualmente cerca de 12 toneladas desse material é jogado nos oceanos e que esse número aumente em dez vezes nos próximos 5 anos (HALE et al., 2019).

Figura 1. Origem e transporte do microplástico para o ambiente marinho

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Fonte: https://ars.els-cdn.com/content/image/1-s2.0-S0045653521016234-gr1.jpg

Um relatório da International Union for Conservation of Nature (IUCN) demonstra que 30% da Grande Mancha de Lixo do Pacífico é constituída de microplástico (BOUCHER; FRIOT, 2017). Os oceanos viraram uma grande sopa de micropartículas plásticas e a vida marinha é uma das principais vítimas, mas não a única, estudos demonstram a presença do microplástico no interior de organismos vivos dentro e fora do oceano, e até mesmo em 90% do sal de cozinha produzido para o consumo humano (KIM et al., 2018; LI et al., 2016; NEL et al., 2018).

Inclusive, há registros de contaminação por microplásticos nos pulmões de seres humanos, pois geralmente esses polímeros recebem diversos aditivos que impregnam no ar e podem ser inalados por seres vivos (HALE et al., 2019).

Atualmente surgiram alguns movimentos de conscientização em relação ao consumo de plástico, como o Zero Waste (lixo zero), mas é humanamente impossível fugir completamente dos plásticos, uma vez que até os equipamentos eletrônicos possuem termoplásticos (um tipo de plástico não reciclável devido ao seu processo de formação).

A principal solução para diminuir a quantidade de plásticos no meio ambiente é fazer escolhas mais refletidas na hora de consumir qualquer produto, mudar as atitudes para uma mais responsável e sustentável, a exemplo: separar plásticos que podem ser reciclados, reutilizar recipientes, preferir produtos alternativos que não tenham plástico na embalagem, trocar a bucha de plástico por bucha vegetal etc.

Além da conscientização de cada indivíduo como ser crítico e consciente, as empresas também têm o seu papel a cumprir. Algumas grandes marcas já começaram a repensar sua maneira de produzir, mas ainda há um longo caminho pela frente. Hoje, há empresas nacionais que valorizam o cuidado com a natureza, para ilustrar, podemos citar: a Natura, que substituiu as microesferas plásticas de seus esfoliantes por bambu; a O Boticário que faz logística reversa para diminuir a quantidade de lixo doméstico; e a Extra Farma, que recolhe embalagens vazias de medicamentos e remédios vencidos para evitar a contaminação de águas e animais, são pequenas ações que fazem uma grande diferença.

4 Considerações Finais

A produção e consumo do plástico foram bem mais aceleradas do que o tempo de decomposição desse material, o que era uma grande ideia, tornou-se um problema ambiental de sérios impactos. Além do plástico em si, que já afetava a fauna e a flora, na década de 70 o microplástico mostrou-se como um novo problema resultante desse produto, agora ainda mais sorrateiro.

A formação do ser crítico é fundamental para gerar uma atitude de conscientização na hora do consumo e do descarte de materiais plásticos, bem como na procura alternativas sustentáveis como alternativa mais viável para reduzir a poluição ambiental.

Referências

ALMEIDA, M de S. Elaboração de projeto, TCC, dissertação e tese: uma abordagem simples, prática e objetiva. São Paulo: Atlas, 2013.

BOUCHER, J; FRIOT, D. Primary microplastics in the oceans: a global evaluation of sources. International Union for Conservation of Nature (IUCN), 2017. DOI: https://doi.org/10.2305/IUCN.CH.2017.01.en

HALE, R.C. et al. A global perspective on microplastics. Journal of Geophysical Research: Oceans, v. 125, n. 1, p. e2018JC014719, jan. 2019. DOI: https://doi.org/10.1029/2018JC014719

JIANG, J.Q. Occurrence of microplastics and its pollution in the environment: a review. Sustainable Production and Consumption, v. 13, p. 16-23, jan. 2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spc.2017.11.003

KIM, J. S. et al. Global Pattern of Microplastics (MPs) in Commercial Food-Grade Salts: Sea Salt as an Indicator of Seawater MP Pollution. Environ. Sci. Technol, v. 52, n. 21, p. 12819-12828, out. 2018. DOI: https://doi.org/10.1021/acs.est.8b04180

LEBRETON, R. et al. Evidence that the Great Pacific Garbage Patch is rapidly accumulating plastic. Scientific Reports, v. 8, n. 1, p. 4666, 2018. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598‐018‐22939‐w

LI, et al. Microplastics in mussels along the coastal waters of China. Environmental Pollution, v. 214, p. 177 – 184, jul. 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/j.envpol.2016.04.012

NEL, A. H. et al. Sinks and sources: Assessing microplastic abundance in river sediment and deposit feeders in an Austral temperate urban river system. Science of The Total Environment, v. 612, p. 950 – 956, jan. 2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2017.08.298

PHILLIPS, A. L. Bioplastics boom: from the dizzying array of new plant-based plastic, some innovative winners emerge. American Scientist, v. 96, n. 2, 2008. DOI: https://doi.org/10.1511/2008.70.109

ROCHMAN, C. M. Microplastics research – from sink to source. Science, v. 360, n. 6384, p. 28-29, abr. 2018. DOI: https://doi.org/10.1126/science.aar7734

A volta ao mundo em 80 dias | Julio Verne

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A figura do balão é um ícone nas capas da história de Julio Verne, né?! E se eu te contar que não tem balão nessa aventura?! Pois é! Não tem.

Julio Verne é conhecido por sua Literatura de Antecipação, os primeiros passos do sci-fi, mas aqui encontramos outros aspectos. A volta ao mundo em 80 dias possui uma linguagem acessível e valoriza a divulgação científica ao longo da narrativa, essa característica é bem comum a outro gênero que surgia na mesma época, o romance policial, que também prima pelo compartilhamento do conhecimento técnico.

Lançado em 1873, A volta ao mundo em 80 dias traz a história do gentleman Phileas Fogg, que é adepto a rotina e a calmaria, faz todos os dias as mesmas coisas e não é dado a excessos. Ele surpreende a todos ao apostar que daria a volta ao mundo em 80 dias, pois não bastasse tamanha ousadia, soaria absurdo vir de Fogg.

Acompanhado de seu empregado, Passepartout (este nome em francês significa chave mestra e muito significa para a construção do personagem, pois ele salva Mrs. Aouda da fogueira, trabalha no circo para sobreviver e ainda arrisca a própria vida para salvar o grupo, ele passa por várias situações inusitadas), eles juntam uma singela trouxa de roupas e uma bolsa recheada de bank notes (papel moeda).

O inspetor Fix acha a atitude de Fogg muito suspeita, principalmente depois de receber a notícia de que o banco inglês havia sido roubado! Ele segue o suspeito por toda a viagem na tentativa de prendê-lo, mas Fix é fiel a lei e aguarda pacientemente (ou nem tão paciente assim) a chegada do mandato de prisão.

Daí a trama de aventura se forma, uma verdadeira corrida contra o tempo (se você já terminou essa leitura, verá que nenhuma outra frase faz mais sentido para descrever essa história, se você ainda não leu ou está lendo, entenderá do que estou falando nas últimas páginas).

A leitura desse Clássico da Literatura Francesa me surpreendeu bastante, pois é uma aventura divertida com uma linguagem leve e conteúdo riquíssimo de conhecimento científico e cultural.

Recomendo a leitura desse livro para todas as idades, sobretudo os jovens leitores, que podem ter uma experiência única diante da possibilidade de aprender muitas coisas ao longo de uma aventura tão divertida.

Como viver com 24 horas por dia | Arnold Bennett | Auster

Estou em uma fase de autodesenvolvimento, tenho pesquisado e lido bastante sobre a relação do homem com o tempo e o trabalho. Em meio a essas minhas andanças livrescas, me deparei com o “Como viver com 24 horas por dia”, achei o título muito pretensioso, mas arrisquei.

Preciso ressaltar que Bennett traz em seu texto a visão de um inglês em meados dos anos 1900, ou seja, não considera nada de atividades domésticas + trabalho + estudo, algo completamente fora da minha realidade. Mesmo diante disso, ainda consegui extrair um valioso ensinamento daqui.

Geralmente vemos as horas que passamos trabalhando como a principal atividade do dia e tudo o que acontece antes ou depois são apêndices do trabalho (você acorda, toma banho, lancha para ir ao trabalho, toma banho, come, descansa, estuda para o trabalho). Arnold propõe que passemos a enxergar as horas fora do trabalho como as principais horas do dia, a labuta foi algo que você precisou ir lá executar para conseguir dinheiro ao final do mês.

Em seguida, o autor traz sugestões de como utilizar melhor esse tempo livre e um conceito que é uma das bases para o livro Minimalismo Digital: gastar o seu tempo com lazeres de qualidade, algo que engrandeça a você mesmo. Aqui pode parecer que ele está falando de ser produtivo até nas horas vagas, mas não é bem assim. Fazendo um paralelo com a sociedade atual, o autor propõe atividades que movimentem o corpo e envolvam aprendizado/ desenvolvimento e não ficar a mercê da passividade (oi, feed das redes sociais).

Basicamente, dedique as 3 horas noturnas ao que alimenta a sua alma, se não gosta de ler, enriqueça-se da maneira que lhe aprouver: jardinagem, marcenaria, pintura, artesanato, instrumento musical, etc. Pense na qualidade dessas atividades e compare com rolar o feed do Instagram.

Bennet traz ainda um esquema para auxiliar na organização dos dias, propõe que o cronograma semanal seja feito com base em 6 dias semanais e que o 7° seja usado para o descanso e o ócio. Ainda é comum nos sentirmos culpados ao descansar, mas esse relaxamento faz parte de ajudar o nosso corpo a processar melhor tudo o que queremos absorver e executar. O descanso faz parte da vida, como dormir ou comer.

No geral, esse livro não foi arrebatador, algo que mudasse completamente a minha forma de ver o mundo, mas esses pontos que aqui listei me fizeram passar algumas semanas refletindo.

Ilíada, de Homero

Ilíada

Ilíada conta os 51 dias da ira de Aquiles, que ocorreu durante o 9° ano desta guerra, onde embora os personagens fossem inventados, a história era tida como um relato de seus ancestrais, que ocorreu entre os Aqueus (aliança dos estados gregos) e os Troianos ¹.

A Guerra começou com o rapto de Helena, mas a história da Ilíada traz em paralelo a vingança pessoal de Aquiles, que é o modelo de honra e valor para os gregos ¹. 

A raiva é um tema bem presente nessa obra, seja por parte de Menelau e Agamenon por causa do rapto de Helena ou por Aquiles, que se sente injustiçado ao perder Briseida (mulher que ele tinha ganhando como prêmio de guerra e muito a estimava). Essa ira de Aquiles faz com que ele não se curve diante das regalias prometidas, voltando à guerra somente após a morte do amigo, com o intuito de vingá-la, mostra-se aqui a moral do herói, tanto difundida na educação básica da Grécia Antiga ¹. 

Enquanto Aquiles demonstra seu senso de justiça ao vingar a morte de Pátroclo, Heitor é a personificação da lealdade para com a sua pátria e sua família, pois defende o irmão mesmo ele tendo raptado Helena. Ou seja, enquanto um busca a Honra, o outro a Lealdade. Mesmo com traços tão distintos e tão heróicos, ambos possuem suas qualidades e defeitos, não sobrepondo-se um ao outro durante toda a narrativa, pois ambos morrem (Aquiles mata Heitor para vingar Pátroclo e Aquiles é morto com uma flechada em seu calcanhar) e fica a deixa para a honra em lutar na guerra ¹. 

Mesmo diante da barbárie da morte de Heitor, após algum tempo, uma trégua se estabelece quando Príamo pede a Aquiles o corpo do filho para que ele pudesse fazer a cerimônia funerária adequada, o herói, comovido, entrega o corpo ao rei de Tróia . 

Na Ilíada, a questão do herói é ressaltada, como a principal virtude de Aquiles que abre mão de sua ira particular para vingar a morte do amigo. O final da Ilíada não é o final da guerra, mas demonstra a vitória do herói sobre ele mesmo ao devolver o corpo de Heitor à família².

Essa foi uma das leituras mais difíceis que já fiz, principalmente por causa da edição em que comecei a leitura. Para quem não sabe, ao ler uma epopeia, você pode escolher entre uma que prime pelo ritmo ou pelo sentido mais próximo possível, se você pegar uma tradução que prioriza o ritmo, a leitura se torna mais demorada porque parece que não está fazendo muito sentido, rs.

Em vários momentos as atitudes de Aquiles são de um garoto birrento e mimado, o que me distanciou bastante do protagonista de Ilíada, mas de forma geral, foi bacana acompanhar a construção de arquétipos para personagens que são usados até hoje.

Você já se aventurou nessa história?

Referências

1- CANTON, J. O livro da Literatura. São Paulo: Globo, 2016.

2 – CARPEAUX, O.M. História da Literatura ocidental. Rio de Janeiro: Leya, 2019.

Não olhe para o problema

Não Olhe para Cima - Poster / Capa / Cartaz - Oficial 1

“Don’t look up” foi lançado no dia 24 de dezembro de 2021 e o assisti no dia 30 por causa da enorme repercussão que vinha causando nas redes sociais, vários comentários a respeito do negacionismo diante de evidências científicas e o paralelo com a atual situação política do Brasil.

Fui assistir com a visão direcionada a esse aspecto, mas o que realmente chamou minha atenção foi a ansiedade.

O personagem do Leonardo Di Caprio, que precisa de Xanax para controlar seus ataques de ansiedade, me remeteu profundamente aos últimos ataques de ansiedade que tive, logo peguei uma simpatia por ele. Ao final do filme (sim, vem spoilers), quando ele, a família e os amigos estão sentados à mesa aguardando o fim do mundo e conversando banalidades representou o ideal, o ponto onde quero chegar.

Aproveitar o agora com as poucas pessoas que são realmente MUITO importantes pra você e não perder a cabeça com o que você não pode mudar/controlar. Enquanto houver chance, lute. Se não há remédio, remediado está. Be happy.

É claro que o filme fala sobre diversas outros assuntos, como manipulação em massa, família, tecnologia, etc, é uma obra bem complexa e ao mesmo tempo leve.

Bartleby, o escriturário | Herman Melville | L&PM

Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street foi a primeira publicação de Melville após Moby Dick e saiu no periódico Putnam’s em 1853.

Esta obra é narrada por um advogado que trabalha com escrituração e possui três funcionários de personalidades bem distintas. Diante do aumento das demandas, ele resolve contratar um novo escrevente, então Bartleby é contratado. A figura do jovem logo chama a atenção de seu patrão “[…] Ainda hoje sou capaz de visualizá-lo – palidamente limpo, tristemente respeitável , incuravelmente pobre!”p. 27

Logo nos primeiros dias de trabalho, Bartleby se mostra diligente em suas atividades, copia os documentos com todo esmero possível, é o primeiro a chegar e o último a sair, não sai da mesa nem para comer. Tudo caminhava bem, até que ao ser solicitado pelo Advogado para realizar uma tarefa, responde com “Prefiro não fazer”.

A partir dessa recusa, o advogado começa a olhar Bartleby de maneira mais atenta, a apatia em relação à vida é o que sobressai. Até mesmo o uso do “Prefiro não fazer” demonstra a falta de imposição, de querência, ele não chega a não querer, apenas prefere.

A presença de Bartleby começa a incomodar a todos, aquele ser inerte que prefere não realizar atividades e que se alimenta apenas de bolinhos de gengibre parece apenas esperar pela passagem do tempo. O advogado tenta demitir o escriturário, mandá-lo embora, mas ele permanece ali.

A falta de informações sobre o passado, os anseios e os pensamentos do jovem incomoda a todos e levanta várias incógnitas ao leitor. O mais interessante é que esse ser apático desperta no advogado certa preocupação, a história, sem reviravoltas ou explicações, beira ao absurdo, a rotina do escritório é abalada de maneira sutil e inesperada.

Logo no início da leitura lembrei de Dickens, pela narrativa fluida e bem humorada, em seguida a história caminhou para características kafkianas e, ao final, posso resumir Bartleby na frase de Albert Camus: “O absurdo não liberta; amarra“.

A questão Homérica

“Homero é o maior dos poetas”¹, essas são as palavras de Carpeaux para descrever o autor das epopeias Ilíada e Odisseia.

As epopeias homéricas eram um cânone para os gregos, eles não as liam como nós as lemos hoje, ou seja, como meras obras literárias. Esses dois livros eram os guias da civilização, decorados nas escolas como um código moral e até mesmo como uma bíblia.

Ambas as obras tratam das relações humanas mais profundas e têm os deuses como contrastes da dureza da vida. Por debater questões morais, a exemplo de Aquiles que resolve voltar pra guerra para vingar a morte do amigo Pátroclo; ou Heitor, que é a própria personificação de Lealdade. Ao final, ética discutida nas obras se diferencia, uma vez que a Ilíada2 se atém a ética heroica e a Odisseia3, a ética familiar.

Epopeia: o que é, características, autores, exemplos - Brasil Escola

Historicamente, não foi possível confirmar que o relatado nas duas epopeias realmente aconteceu, sabe-se que a Ilíada deve ter se passado na época feudal da Grécia, enquanto que a Odisseia, na época fenícia da civilização mediterrânea (não à toa tem um barquinho na capa).

A questão Homérica entra justamente aqui, devido às narrativas e aos estilos tão distintos, começaram a surgir algumas hipóteses, como: Homero teria apenas recolhido as histórias contadas e escrito de maneira compilada? Teria Homero de fato existido ou essas obras foram escritas por vários autores?

A grandiosidade de Homero influenciou fortemente diversos aspectos da sociedade grega, sobreviveu até hoje e ainda intriga aos estudiosos sobre a sua origem.

Referências
1- CARPEAUX, O.M. História da Literatura ocidental. Rio de Janeiro: Leya, 2019, p.19.
2- HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
3- HOMERO. Odisseia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

O que é Agricultura Sustentável | Eduardo Ehlers | Editora Brasiliense

Este livro faz parte da coleção Primeiros Passos, que se caracteriza principalmente por trazer de maneira sucinta definições sobre um determinado tema. Eduardo Ehlers conseguiu em 92 páginas sintetizar a história da agricultura e as principais características da Agricultura Sustentável.

O tipo de sistema produtivo sustentável está pautado em manutenção dos recursos naturais a longo prazo, otimização da produção e satisfação das necessidades humanas . Ou seja, trocando em miúdos, a produção deve suprir as necessidades sociais e alimentares do homem, proporcionar crescimento econômico e conservar os recursos naturais.

O que mais vemos hoje é o completo oposto disso, monoculturas que devastam a terra e os ecossistemas, produção massiva valorizando apenas o aspecto econômico e pessoas passando fome no país que mais produz alimento.

A fome nos nossos tempos está muito mais associada às desigualdades sociais e à falta de dinheiro para se comprar alimento do que à capacidade de produzi-los. Na Idade Média, o problema era justamente a falta de alimentos para se adquirir.”

Historicamente, o homem cuidava da terra para extrair seu alimento e gerar produtos com valor agregado para comercializar, com o tempo esse pequeno agricultor foi expulso de suas terras e obrigado a ir para as grandes cidades torar-se mão de obra massiva. A produção de alimentos ficou a encargo dos grandes produtores, que fornece alimentos não a quem mais precisa, mas para quem paga mais.

Essa ambição monetária fez com que cada vez mais os grandes produtores aderissem a alternativas químicas para garantir safras com maior valor econômico, daí a gana pelo uso de agrotóxicos. O solo cada vez mais adoecido, produz cada vez menos e é bombardeado cada vez mais de soluções ‘milagrosas’.

Pode até parecer estranho, mas na época do movimentos de contracultura, os ativistas que lutavam por uma terra mais saudável e natural eram tidos como rebeldes da agricultura e essa visão ainda persiste até hoje. Pouco se pensa em agrotóxicos na frente de uma maçã grande e brilhosa ou na cenoura perfeita do mercantil.

É claro que as vezes esses alimentos cheios de venenos são a única opção nas grandes cidades, mas esses consumidores podem começar a procurar mercados e feirinhas próximo a sua residência tanto para comer melhor quanto para incentivar a agricultura familiar. Faz bem pra saúde e para o meio ambiente.

O autor traz alguns eventos em que foram discutidos esse assunto, bem como o título de alguns livros e sites para quem quer se aprofundar mais sobre o assunto.

Inegavelmente a Agricultura Sustentável é uma necessidade urgente para o planeta!

A degradação do homem em valor econômico por meio das redes sociais

Estou tentando sair das redes sociais, o que não é tão fácil assim para mim já que minha adolescência girou em torno de escrever em fotologs aos finais de semana e interagir com outras pessoas que também gostavam da plataforma. Seguir a tendência das redes sociais foi algo natural.

A decisão de sair das redes veio de um sentimento de vício. Uma sensação de eu TENHO que postar isso, eu PRECISO mostrar aquilo e etc. Comecei a me sentir obrigada a alimentar aquela rede, a trabalhar de graça para marcas e para o Zuckenberg.

Deletei o Instagram e vez ou outra me pego com uma súbita vontade de postar um stories, mas me controlo. Para me manter firme, tenho procurado livros e artigos em sites com a experiência de pessoas que passaram pelo mesmo e estão tentando se livrar do FOMO e aderindo ao JOMO.

No momento estou lendo dois livros que criticam o uso de meios de comunicação em massa, que são: Dez argumentos para você deletar agora as suas redes sociais, do Jaron Lanier, e A sociedade do espetáculo, do Guy Debord.

A Sociedade do Espetáculo

Em A sociedade do espetáculo, o autor fala sobre a inserção da televisão como o principal meio de comunicação em massa e meio manipulador da sociedade (é um livro de 1997). Já ‘Dez argumentos’ traz um panorama mais atual sobre as redes sociais do momento. Mesmo que a tecnologia tenha evoluído muito num curto espaço de tempo, ambos os livros ainda conversam bastante.

Debord teoriza sobre a inserção da imagética na sociedade, pois as pessoas deixam de viver o real para pautar-se na imagem que lhes é oferecida. A vida deixou de ser vivida para ser mostrada e a essência do ser se transformou no ter. No item 17, ele escreve:

A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do ter em parecer, de que todo o “ter” efetivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

E essa degradação do ser é ainda mais visível hoje, com toda essa necessidade de compartilhar e viver em função da imagem irreal que nos é transmitida. Lanier ressalta que as redes sociais pautam-se num sistema de recompensa esporádica para manter essas postagens sempre circulando em troca de um pouco de satisfação.

Estamos lidando aí com uma degradação dupla, onde primeiro temos a substituição do ser em ter e depois do ter em aparentar ter. Assim, as instituições econômicas lucram horrores em cima das cobaias que estão sendo remuneradas com as espaçadas esmolas de endorfina.

ser -> ter -> aparentar ter -> lucro para as instituições econômicas

Cansei de ser influenciada e enganada. Notei que comprava alguns livros por indicações no Instagram e me arrependia amargamente depois porque eram títulos que eu jamais compraria se estivesse passando numa livraria e eu acabava detestando a escrita do autor ou a história era absurda demais. O exemplo mais gritante disso foi o Bom dia, Verônica, que foi tão bem comentado em vários perfis e tornou-se a pior leitura da minha vida.

Sair das redes sociais foi o primeiro passo que tomei para buscar a minha essência interior de volta. Quero ser mais eu, sem influências externas e sem querer mostrar para o outro. Para tanto, resolvi elencar algumas mudanças:

  • Escolher minhas leituras de acordo com o que estou pesquisando ou lendo no momento sem ser levada por hypes das redes sociais (por exemplo: quero ler os clássicos da literatura brasileira, não o Raphael Montes, quero dar andamento ao Estudo Perene, não a trilogia d’O ceifador);
  • Encontrar o meu Ikigai (depois vou falar mais sobre isso aqui no blog);
  • Escrever no meu diário as coisas bacanas do dia, não postar nos stories;
  • Manter a escrita ativa com caderno de resenhas, de receitas e do que mais eu sentir vontade;
  • Observar e cuidar das minhas plantas e dos insetos do jardim ao invés de passar alguns minutos rolando o feed de alguma rede social;
  • Reencontrar amigos para tomar um café, não apenas trocar breves mensagens em aplicativos.

Ainda não saí radicalmente das redes sociais, ainda mantenho o LinkedIn e o WhatsApp por motivos profissionais e de comunicação familiar. Também estou mantendo este blog para postar meus textos mais longos sobre leituras e coisas da vida.

Homero, uma breve introdução

Antes de falar sobre Ilíada e Odisseia separadamente, sinto a necessidade de contextualizar um pouco essas obras.

A estrutura

A epopeia é uma narrativa em forma de poema que conta a saga de um herói para ajudar a difundir ensinamentos para a sociedade, principalmente de cunho moral. É uma das primeiras formas escritas de contar uma história que, antes disso, eram passadas ao longo das gerações pela oralidade e justamente por isso que são em forma de poema, pois o verso é bem mais fácil de decorar do que a prosa. Ilíada e Odisseia estão inseridas na lista de primeiras obras escritas que se tem notícia e se enquadram como epopeias.

Homero trabalha, mais especificamente, com a métrica chamada de hexâmetro dactílico, que são versos com 6 unidades rítmicas (uma sílaba longa e 2 sílabas curtas). Essa informação é muito importante na hora de escolher a tradução da Epopeia que você quer ler, pois ela pode primar pelo ritmo e melodia ou pelo conteúdo e puxar mais para a prosa e perder o teor poético (geralmente esta segunda é mais fácil de ler).

A questão Homérica

Os núcleos narrativos de Ilíada e Odisseia são, respectivamente, a ira de Aquiles durante 51 dias do 9° ano da guerra de Troia e o retorno de Odisseu após essa guerra. Mesmo que dê a entender que esses dois livros são uma espécie de continuação, muito neles são destoantes.

Homero – Wikipédia, a enciclopédia livre
Representação de Homero feita no período helenístico. Hoje essa peça se encontra no Museu Britânico.

Ilíada se passa no recorte feudal da Grécia e trabalha com a moralidade heroica dos guerreiros, o exemplo mais vívido que posso citar é a ira de Aquiles para vingar a morte de Patroclo. Enquanto a Odisseia está mais ligada ao período fenício, que é claramente percebido pela quase interminável viagem de Odisseu e suas aventuras marítimas, abordando mais questões éticas em ambiente familiar.

A escrita em si também é bem distinta, enquanto em Ilíada a história parece dura e difícil de caminhar, Odisseia é bem mais fluida e envolvente. Essas disparidades já geraram bastante questionamentos sobre a autenticidade da autoria de Homero, pois mais parece que pessoas distintas escreveram essas histórias, chegando a indagações como: teria Homero apenas reunido várias histórias e as compilado ou seria um pseudônimo de vários autores? Homero realmente existiu?

A importância de Homero na Sociedade Grega

As epopeias homéricas eram usadas nas escolas gregas como material didático e os alunos tinham que decorá-las. Os trabalhos de Homero eram mais do que um material escolar, chegando a serem vistos como um código de conduta desde teses filosóficas à sentenças jurídicas. “Cânone estético e religioso, pedagógico e político; uma realidade completa, mas não imediato de uma realidade” (CARPEAUX, 2008, p. 52).

Conclusão

Percebe-se que a importância de Homero transcende a sociedade grega e perdura na contemporaneidade. A estrutura da jornada do herói que teve início aqui, influencia produções culturais ao longo de várias gerações.

Nos próximos posts falarei sobre Ilíada e Odisseia separadamente.

Referências

CARPEAUX, O.M. História da Literatura ocidental. Rio de Janeiro: Leya, 2019. (GoodReads | Amazon)

HOMERO. Ilíada. 25° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. (GoodReads | Amazon)

HOMERO. Odisseia. 25° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. (GoodReads | Amazon)