Cristianismo puro e simples | C. S. Lewis | Thomas Nelson

C.S. Lewis se propõe a escrever sobre a essência do Cristianismo, não tocando em assuntos polêmicos, pois o seu intuito é apresentar o Cristianismo e não gerar debates sem fim. Inclusive ele menciona que não se sente confortável em falar sobre controle de natalidade porque ele não é mulher, bastante sensato, não?!

O autor serviu na 1° Guerra Mundial, o que o inspirou a falar sobre sofrimento e dor para os soldados da 2° Guerra e resultou em um convite da BBC para apresentar palestras sobre a fé cristã, o programa durou de 1942 até 1944 e deu origem ao livro “Cristianismo puro e simples”, composto por quatro livros.

Logo nos 2 primeiros capítulos é abordado o tema da moral humana, algo que quase não paramos para pensar no nosso cotidiano, talvez por acharmos que ao tomar as decisões que julgamos corretas, já estamos fazendo o bem e o moralmente correto. Porém, há uma distinção entre o que eu acho correto e o que é moralmente correto, como exemplo disso o autor utilizou o caça às bruxas, em que segundo a crença da época, o mais sensato era se livrar das bruxas, mas será que era moralmente correto queimar pessoas? As vezes (muitas vezes) as pessoas se perdem em suas crenças e com isso, a capacidade de discernimento vai junto.

Logo depois, C. S. Lewis começa a tecer uma espécie de introdução sobre Deus, relaciona a Lei da Condição Humana e Moral a esse ser sobrenatural, fechando o primeiro livro com o consolo proporcionado pelo cristianismo e como ele deve ser alcançado por meio da busca pela verdade, pois se você procura primeiramente por consolo, só achará desespero.

A partir do 2° livro, começamos a conhecer mais sobre o Cristianismo em si por meio de diversas analogias e de situações contadas por Lewis. O livro 3 é uma espécie de aprofundamento que trata sobre a conduta cristã e a relaciona à moralidade abordada lá no primeiro livro, ou seja, este é um livro que vai se formando como tijolos formam uma parede.

É interessante notar que mesmo não tendo sido escrito nos dias de hoje, o autor é bastante aberto a diversas questões sem abrir mão de sua fé, por exemplo, ele fala de pessoas que estão em um relacionamento ruim e há traição, qual a necessidade de você prometer diante de Deus que irá honrar a pessoa com quem se você casou sabendo que continuará nessa situação?! Por que piorar o seu estado e só aumentar o número de coisas sobre as quais você precisará pedir perdão à Deus?

O livro 4 é um fechamento que aborda os preceitos da doutrina cristã, para quem quer se aprofundar ainda mais sobre o assunto, como eu disse, esse livro é uma crescente que vai se estruturando aos poucos.

Ao final das contas, Lewis consegue falar sobre a humanidade e o cristianismo sem aquele que de catequese, ele apresenta os fatos em que acredita e como isso interfere diretamente no comportamento das pessoas. Interessante que esse título consegue extrair a essência do livro com perfeição porque se você seguir o que tem aqui, estará seguindo os passos de Cristo de maneira aberta e simples, sem todas aquelas condenações de fogo do inferno e não pode isso e aquilo outro ou que te promete mundos e fundos, é mais um evangelho que de abraça e ama.

Gostei MUITO de ler esse livro e eu quero relê-lo em breve, fazer um projeto de leitura para estudá-lo e esmiuçar cada parte dele aqui. Diria que é uma leitura essencial aos cristãos e, ainda, indico aos não cristãos que se interessam pelo assunto.

Ponto Cardeal | Léonor de Récondo |Dublinense

RÉCONDO, Léonor de. Ponto Cardeal. Porto Alegre: Dublinense, 2020.

A francesa Léonor trouxe Matilda e Lauren em pouco mais de 150 páginas de maneira sucinta, mas muito envolvente. Acho que esse é o primeiro livro com a temática trans que leio e gostei bastante dessa experiência.

Ponto Cardeal foi um dos livros mais lidos pelos jovens franceses nos últimos anos, a sua temática envolta ao drama familiar conquistou o coração dos leitores. Aqui Laurent, o pai dedicado e trabalhador, aproveita as noites no Zanzi Bar para dar vida à Matilda, uma loira exuberante que dança e se entrega como se não houvesse amanhã e volta a ser Laurent após entrar no carro e pegar a maleta prata para guardar seus acessórios.

Em meio a essa luta interior e a um mal entendido, Laurent resolve contar para a família que na verdade ele é mulher mesmo tendo negado durante todos esses anos.

– Mas tem outra coisa que eu quero que vocês saibam. Uma coisa da qual eu nunca tive nenhuma dúvida. Se por um lado eu jamais me senti homem, por outro eu sempre me senti pai.” P. 80

A partir daqui, ele vai ter que lidar com a rejeição do filho, a insegurança da filha e o medo da esposa que jura de pé junto que esse é um problema para psiquiatra.

-Mas ninguém aqui pediu a tua opinião, a gente está se lixando!
E acrescenta, olhando-o fixamente:
-Otário.
Todos ficaram paralisados, menos Laurent, que também encara o filho e responde pausadamente:
-Otária, por favor, otária.
” p. 109

Mesmo que a autora tenha se proposto a demonstrar os aspectos sociais e familiares dessa transição, ainda que tenha passado pelos dilemas familiares e laborais, foi de maneira superficial. Não há grandes embates ou reflexões sobre a temática durante a leitura, mas nos apresenta uma visão ampla de maneira divertida e envolvente.

“- O que te incomoda, de verdade? Você poderia sinceramente afirmar que eu sou menos eficaz do que antes?
O chefe se mexe na sua cadeira, enxuga uma gota de suor na testa.
– Você sabe, se dependesse só de mim… Todo mundo é livre para fazer o que quer, homens e mulheres. Mas eu sou obrigado a falar do ponto de vista coletivo da empresa, entende?
– Não!
” P. 152

Gostei bastante dessa experiência de leitura, me diverti e torci pelo espaço de Lauren desde o começo. Fiquei feliz com o desenrolar da trama, mesmo que em alguns aspectos não tenha se aprofundado.

Minha sombria Vanessa | Kate E. Russell | Intrínseca

RUSSELL, Kate Elizabeth. Minha Sombria Vanessa. Intrínseca: Rio de Janeiro, 2020.

Minha Sombria Vanessa

A primeira vez que vi esse livro foi em vídeo do Blog Literature-se, me chamou bastante atenção o fato de a autora ter pensado inicialmente em escrever um romance entre uma jovem e seu professor e só depois ter percebido que se tratava de um caso de pedofilia.

Daí, inspirada principalmente em Nabokov (não apenas em Lolita), Kate reformulou sua história e criou o Minha sombria Vanessa, que traz diversas reflexões sobre a pedofilia e, principalmente, sobre a dificuldade da vítima aceitar que está inserida num relacionamento abusivo.

A narrativa possui duas linhas temporais, uma que nos apresenta a Vanessa de 15 anos e o seu relacionamento abusivo com o professor de literatura Jacob que tinha 44 anos. A segunda linha narrativa é o que seria nos tempos atuais e temos uma Vanessa adulta que trabalha num emprego medíocre e é cheia de complexos trazidos da adolescência, enquanto acompanha as acusações de várias jovens sobre abusos sexuais cometidos por Jacob.

Durante essa leitura fiz várias longas pausas para refletir sobre minhas experiências e o quanto pensamos que estamos acima desse rótulo ou que somos diferentes, mas na realidade é a mesma coisa e eu não fui uma exceção à regra como sempre imaginei.

Em vários momentos senti raiva da Vanessa e até mesmo da autora por defender o professor Jacob, mas logo em seguida percebia que eu fazia a mesma coisa. A visão apaixonada de uma criança ou pré-adolescente parece distorcer ainda mais a realidade.

Esse é um livro extenso que precisa de muita parcimônia para concluir a leitura, pois é um gatilho de pedofilia e relacionamento abusivo. Para quem viveu relacionamentos assim e acha que só aconteceu porque você consentiu, olha, amiga, precisamos conversar, você também não é uma exceção à regra.

Hellraiser | Clive Baster | Darkside

BASTER, Clive. Hellraiser. Rio de Janeiro: Darkside, 2015.

Hellraiser: Renascido do Inferno

Hellraiser foi escrito em 1986 com o intuito de ser adaptado ao cinema e talvez por isso a narrativa seja tão imagética e palpável. Clive conta a história de Frank, que cansado dos prazeres mundanos busca novas possibilidades com a Caixa de Lemarchand, a partir daí ele conhece os temíveis Cenebitas e sua concepção única de prazer.

Algum tempo depois, a casa onde Frank morava passa a ser habitada por seu irmão e a esposa, Julia, que começa a perceber coisas estranhas no antigo quarto do cunhado. Julia, então, vai além de seus limites na tentativa de resgatar antigos prazeres.

Esse livro é muito curtinho, dá pra ler em um ou dois dias, e é um clássico do terror, onde criaturas demoníacas brincam com os seres humanos. Dessa história surgiram vários personagens que perfazem o leque de personalidades assustadoras da cultura pop, como Leatherface por exemplo.

Um dos Cenebitas mais marcante, o Pinhead, reaparece em outra história de Clive Baster, “Evangelho de sangue: bem vindo ao inferno”, no mesmo universo de Hellraiser mas com outra história. Fiquei curiosa para ler esse outro título e conhecer mais dessa outra dimensão e desses personagens tão assustadores.

Gostei dessa leitura, bem mais do que de Amytiville, mas não tanto quanto de O Exorcista. É um livro sombrio e rápido, que mesmo sendo bem descrito deixa muito em aberto para o imaginário do leitor, como o que se passa lá na outra dimensão.

As verdadeiras riquezas | Kaouther Adimi | Rádio Londres

ADIMI, Kaouther. As verdadeiras Riquezas. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019.

Iniciei a leitura de As verdadeiras riquezas de maneira despretensiosa, queria algo leve só para passar o tempo, mas quebrei a cara de maneira positiva. Logo no início caí numa pesquisa história sobre a Argélia!

Pois é, a autora fez um apanhado histórico sobre a Argélia desde os anos 30 e usou a figura de Edmon Charlot, um editor franco-argelino, para nos contar um pouco desse recorte.

Em paralelo a leitora do diário de Charlot, o leitor acompanha o fictício desmonte da livraria biblioteca criada pelo editor em 1936 como um refúgio para amigos e apaixonados por livros “A literatura, ao menos ela, não me deixará jamais” p.28. Nesses fragmentos podemos nos deleitar com as menções a vários grandes nomes da Literatura. Inclusive, o nome da livraria de Charlot advém do título de um livro de Jean Giono.

Essa parte dos diários é incrivelmente envolvente, pois acompanhamos o período de ascensão e declínio da livraria e da editora, bem como os perrengues durante a guerra. A Argélia lutou ao lado da França na Segunda Grande Guerra e pouco tempo depois caiu em outro conflito para libertar-se do colonialismo francês. Tempos escassos em que Charlot penava até mesmo para conseguir papel para impressão de livros.

Todos os pequenos detalhes desse livro são imbuídos de uma riqueza histórica sem tamanho. Me apaixonei profundamente principalmente por poder conhecer um pouco sobre Charlot e sobre a história argelina, tão sofrida ao longo dos anos. “Eles nos descrevem como um povo supersticioso, pitoresco, que vive em tribos, pessoas das quais é preciso desconfiar” p.23

O enredo da parte fictícia em si não oferece grandes reviravoltas nem trama miraculosa, mas é aconchegante mesmo assim. O prédio da 2bis Hamani abrirá espaço para uma padaria que venderá dentre outros produtos, sonhos. Me pergunto se essa não seria uma analogia a própria editora-livraria-biblioteca de Charlot, que já oferecia o sonho da publicação aos jovens escritores e o deleite em sonhos aos jovens leitores.

Esse é um livro aconchegante para quem gosta de livros, bem como para quem curte conhecer a história de outros lugares.

Minha nota no GoodReads: 5.0/5.0 (it was amazing)

Sobre os ossos dos mortos |Olga Tokarczuk | Todavia

TOKARCZUK, Olga. Sobre os ossos dos mortos. São Paulo: Todavia, 2019.

Sobre os ossos dos mortos

Sobre os ossos dos mortos chegou até meus olhos devido aos inúmeros comentários tanto no Goodreads quanto no Instagram, mal pude me conter para começar essa leitura que envolvia um Thriller com a luta pelo direito dos animais. Além disso, fora o ganhador no Nobel de Literatura de 2018. Comecei, então, essa leitura cheia de expectativas a respeito da Sra. Dusheiko.

Uma série de mortes acontece na vizinhança de Dusheiko e ao que tudo indica, os animais estão se vingando após anos de sofrimento nas mãos dos caçadores locais. Uma investigação é aberta sobre esses casos e em paralelo acompanhamos as observações perspicazes da protagonista.

Para além desse suspense, a autora aproveita para levantar temas que ainda precisam ser discutidos na atualidade, como o direito dos animais! É lamentável a coisificação que os animais sofrem na nossa sociedade, são alvos fáceis para treinar tiro, são alvos fáceis para virar alimento, são alvos fáceis para qualquer crueldade humana. Olga não te força a ser vegano nesse livro, mas ela levanta várias problematizações que fazem o leitor refletir a respeito.

Além disso, outro ponto que achei muito relevante foi a questão do apagamento feminino em idades mais avançadas, um resquício do Caça as Bruxas que existe até hoje. Uma mulher que tem suas próprias convicções e é senhora de si, em geral, é tida como louca pelos mais novos. A velhofobia tão presente nos nosso cotidiano chega a ser cruel.

Confesso que não achei o suspense lá essas coisas maravilhosas, chegando a ser previsível, mas gostei dessa leitura pelo levantamento de assuntos tão essenciais. Algo que me fez achar a leitura chata em alguns momentos foram as partes envolvendo Astrologia, pois como eu não entendo necas de pitibiribas, achei muita encheção… Claro, é uma impressão minha que não tenho familiaridade nem interesse em estudar o assunto, talvez esse seja um ponto muito legal para outros leitores que sentem mais afinidade com a temática.

Mesmo não tendo sido tudo aquilo o que eu esperava, com certeza é um livro que indicarei para várias pessoas, pois ele traz boas reflexões e a escrita da autora é leve e cômica na medida certa.

Minha nota no GoodReads : 3.0/5.0 (liked it)

Condenada | Chuck Palahniuk | LeYa

Chuck Palahniuk já escreveu mais de 10 livros e ficou conhecido, principalmente, por sua obra Clube da Luta, que logo ganhou adaptação cinematográfica e arrebatou o coração do público, tornou-se um verdadeiro clássico do cinema.

Condenada é o primeiro livro de uma trilogia de dois livros e uma HQ, conta a história de Madison Spencer, uma jovem de 13 anos que tem baixa autoestima e está no inferno. Acompanhamos, assim, duas linhas narrativas, a da Madison no inferno e uma pregressa de quando ela estava viva.

Madison acredita que morreu por overdose de maconha e que foi para o inferno por ser gorda e feia. Já no inferno, Chuck monta uma espécie de Clube dos cinco para desbravar as diversas peculiaridades do submundo.

Adianto que o inferno de Palahniuk é escatológico, o peso e a sujeira toma conta de todo o ambiente. Algo interessante que achei nesse cenário é a convivência harmônica dos demônios de todas as crenças existentes, não apenas os da cristã.

“Não, não é justo, mas o deus de um homem é o diabo de outro. Quando cada civilização sucessora se torna um poder dominante, entre suas primeiras ações está destituir e demonizar quem quer que a cultura anterior tenha adorado. […] Conforme cada entidade ia sendo deposta, era relegado ao Inferno. Para deuses há tanto tempo acostumados a receber tributo e atenção afetuosa, claro que essa mudança de status os deixou loucos da vida.” p.42

A família de Madison também é algo interessante de observar, já que a hipocrisia deles faz com que mal deem atenção à filha e ao mesmo tempo adote crianças de países subdesenvolvidos só para se manter na mídia. Aqui surgem diversas críticas sobre as pessoas ricas que buscam ser ‘ecológicos’ apenas para passar uma ‘ideia positiva’ de sua imagem.

Em minha experiência de leitura, tive e impressão que o autor se usou de uma tempestade de ideias bizarra para a construção do inferno e ao mesmo tempo quis fazer um livro mais leve, quase adolescente, na vida terrena da protagonista.

Chuck Palahniuk considera suas obras como transgressivas e até entendo de certo modo, principalmente em Clube da Luta, mas Condenada me decepcionou em diversos momentos. Para além da construção esdrúxula do inferno, o autor passou as primeiras páginas tentando explicar a formação do grupo principal da história sem necessidade, qualquer pessoa reconhece os personagens de Clube dos Cinco sem precisar de uma introdução sobre… Sério, Chuck, não subestime a inteligência dos seus leitores.

Outro fator que me incomodou demais foi a questão feminina, logo nas primeiras linhas a baixa autoestima de Madison faz com que ela se chame de “gorda – uma verdadeira leitoa” p.5 e, para mim, uma das piores cenas é quando ela fica presa fora da escola e deseja que um policial a encontre e a estupre “Nem um segurança tarado me pegou. Droga” p.82, desses dois exemplos é possível perceber a misoginia presente ao longo da narrativa.

Não pretendo ler a continuação dessa história e vou passar pra frente meu exemplar desse livro.

Querida konbini | Sayaka Murata | Estação Liberdade

MURATA, Sayaka. Querida Konbini. Tradução de Rita Kohl. 1°ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.

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Detalhe para o pão recheado que fiz, rs.

Vez ou outra reflito sofre os problemas de se colocar a felicidade em coisas que ainda estão por vir, digo isso no sentido de que as vezes a gente passa por momentos tão degradantes porque esperamos que com isso talvez a felicidade apareça com o passar do tempo.

A grande questão é o quanto isso nos sobrecarrega de ansiedade e infelicidade. Precisamos mesmo nos esfolar de trabalhar hoje para curtir a vida apenas com a chegada da aposentadoria? Qual é, então, o significado de viver? Nosso estilo de vida nos permite sermos felizes?

Não falo no sentido do comodismo, do tipo “estou feliz com minha vida e não buscarei aprimoramento” (e aqui coloco aprimoramento nos mais diversos setores, seja pessoal, espiritual, intelectual, profissional etc), mas sobre conseguir aproveitar o hoje enquanto galgamos coisas melhores (não apenas no sentido financeiro, pode ser numa realização pessoal ou profissional).

Quando li a sinopse de Querida Konbini, logo pensei nisso tudo, sobre como está tudo bem você ser feliz hoje e não projetar a sua felicidade em algo futuro que poderá nunca chegar. Keiko Furukura é uma mulher de 36 anos que trabalha em uma konbini (uma espécie de loja de conveniência muito comum no Japão), local que serve de emprego  temporário para estudantes ou para mulheres que precisam complementar a renda em casa, pois a remuneração não é lá essas coisas (olha só esse toque machista de homem provedor da família, em?!).

Keiko entrou em simbiose com a konbini onde trabalha, está  acostumada aos seus cheiros, sons e cores, vive em função desse emprego mesmo que seja criticada pela família e pelos familiares por nunca ter conseguido algo melhor. Esse apego ao local de trabalho se deve, principalmente, por Keiko, finalmente ter conseguido se sentir parte de algo, pois nunca se sentiu abraçada pelas regras da sociedade por causa do seu jeito de ver a vida ser considerado anormal e estranho (ela tem uns pensamentos bem fora da linha de normalidade, como não achar nada demais se livrar de um bebê porque o choro incomoda e coisas desse tipo).

As críticas que as pessoas fazem a Keiko a incomodam bastante e ela se sente constantemente obrigada a dar satisfações só para não se sentir ainda mais excluída. Me pergunto que mal faz ela continuar nesse emprego que a deixa feliz e com sentimento de completude… E é esse o ponto, ela poderia estar ralando para se qualificar com o intuito de arranjar outro emprego para ganhar melhor e ser mais feliz, mas será que outro emprego a deixaria mesmo feliz??

Passo a pensar no limiar entre felicidade e zona de conforto e como podemos fazer para a escalada não ser só sofrimento… Como, ao final das contas, equilibrar felicidade presente e aperfeiçoamento (lembre-se que não me refiro só a financeiro/ profissional)?!

A narrativa de Sayaka Murata segue suavemente, combinando com a rotina de Keiko. Querida Konbini é um livro curtinho que traz algumas reflexões sobre essa questão de felicidade, encaixe social e trabalho.

“Nos serviços braçais, se você perde a saúde, deixa de ser útil. Por mais dedicada e séria que eu seja, quando meu corpo envelhecer, talvez eu não tenha mais utilidade para a loja.” p. 82

Economia, mulher e queima de livros

Nessa semana terei que assinar o contrato para a redução do salário e de tempo de trabalho por causa da pandemia do coronavírus, um problema de saúde que interferiu na vida de modo geral, seja social ou economicamente. Essa Medida Provisória brasileira de redução dos salários visa auxiliar as empresas para manter o empregos mais essenciais para que ela não pare completamente.

Em 1837, nesse mesmo 10 de maio, os Estados Unidos sofreu enormemente com a alta do número de desempregos, período que ficou conhecido como “Pânico de 1837” e hoje, 2020, estamos vivendo algo parecido, embora não pelas mesmas razões.

Tentamos ao máximo nos agarrar aos nossos empregos, quem consegue trabalhar de casa, no tal do Home Office, o faz de maneira intensa, pois é exaustivo ter serviços domésticos e laborais tudo no mesmo local. Uma sensação horrível de que não estamos largando o horário de trabalho nunca.

Os governantes estão fazendo jogo de cintura para conseguir contornar da melhor maneira a crise econômica, liberaram auxílios financeiros e investiram no que acharam mais condizente com a realidade do país. É claro que o momento também revelou (ou apenas ressaltou) a verdadeira cara desses tais governantes, seja por não ligar para o número de mortos (e quem esquecerá do famoso ‘e daí‘?) ou por desviar os insumos de outros países em estratégias rasteiras.

E por falar na atitude mesquina do Trump, é válido ressaltar também que hoje seria o aniversário de Mary Anne MacLeod Trump, a mãe do atual presidente dos Estados Unidos, que caiu justamente no Dia das Mães. Dia esse qO Que É Ser Uma Mãe Feminista - Mamãe Tagarelaue sempre causa reflexões importantes sobre a condição da mulher no núcleo familiar, levantando nas redes sociais as famosas frases ‘deseja feliz dia das mães, mas não lava a louça do almoço’.

A grande questão é que não é só no Dia das Mães que temos que dar um ‘descanso’ para essas mulheres. As mães, que perdem a sua identidade quando assumem o papel da maternidade, que deixam sua vida de lado para criar outro ser humano e até o fim da vida carrega a casa nas costas. Não adianta de nada levantar bandeira feminista e explorar a própria mãe nos serviços domésticos, é pura hipocrisia.

A Menina que Roubava Livros: Markus Zusak: Amazon.com.br: LivrosE para não fechar o texto sem indicar um livro, aproveito o gancho para falar sobre uma jovem e sua paixão pelos livros. No dia 10 de maio de 1933, na Alemanha, ocorreu o grande Bücherverbrennung, que significa queima de livros em alemão, evento que ocorreu em praça pública como propaganda da censura nazista. Claro, eu não poderia deixar de indicar o A menina que roubava livros, de Markus Zusak, que conta a história de Liesel Meminger, que ao aprender a ler de maneira torpe, utiliza a literatura como refúgio em meio ao cenário caótico e perturbador da Segunda Grande Guerra e, mais especificamente, em um 10 de maio.