As alegrias da maternidade | Buchi Emecheta | Dublinense

Emecheta, Buchi. As alegrias da maternidade. 2° ed. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

51zVTDlN1PLEsse livro chegou ao Brasil como indicação da Chimamanda para a TAG Livros e de lá pra cá foi o título com maior repercussão dentro do clube de assinatura. No ano passado, a Dublinense relançou a obra no Brasil.

As alegrias da maternidade é um romance autobiográfico em que o título é irônico e a história é incrivelmente rica e dolorosa. Aqui o leitor pode viajar na história da Nigéria desde os anos 30 (período da colonização britânica), passando por sua atuação na Segunda Guerra Mundial e o seu processo de modernização.

Os costumes religiosos e culturais embalam a miséria da vida de Nnu Ego que está em seu segundo casamento forçado com um homem que ela detesta para cumprir sua missão de ser mãe. Nessa sociedade as mulheres só se tornam completas quando cumprem a sua função de mãe.

Tendo que se virar entre o trabalho para completar a renda familiar e cuidar de seus filhos, Nnu Ego vive um dia após o outro, contando apenas em tentar garantir o alimento do dia seguinte. Enquanto o marido trabalha para um casal de britânicos que mora na cidade colonizada de Lagos e sai todas as noites para beber vinho de palma, deixando a esposa praticamente sozinha para se virar com todas as questões domiciliares.

A condição de colonizado é sutilmente mostrada pela autora em pequenos detalhes, como quando os britânicos fazem troça nos nigerianos por causa de sua cor ou quando a escravidão é banida da Nigéria, mas os brancos continuam podendo escravizar os negros ou até mesmo quando Naife é sequestrado para ir pra guerra.

A questão da educação também é algo bem marcante nesse livro, pois apenas os meninos poderiam continuar seus estudos, enquanto que as meninas precisavam ajudar a mãe a ganhar dinheiro para alimentar os irmãos e a pagar o colégio deles. A própria autora travou uma batalha enorme para conseguir entrar e permanecer no colégio.

Com o passar dos anos, a família de Nnu Ego começa a se deparar com as mudanças sociais de seu país. Seu modelo tradicionalista de viver passa a sair de cena, por mais que ela não conseguisse largar todas aquelas amarras.

Adaku é a representação de uma pessoa que vivia nos antigos costumes e consegue se abrir ao novo e prosperar por causa disso. Ela está disposta a fazer o que for para manter as filhas estudando, pois ela enxerga um futuro para as meninas que vai bem além dos dotes recebidos para que elas casassem.

Os sacrifícios e a solidão da maternidade são trabalhados de maneira ímpar nesse livro. Torci pelos personagens, me emocionais, sorri e fiquei chocada em vários episódios. As alegrias da maternidade se passa na África de meados anos 40, mas a opressão feminina aqui descrita ainda está presente em vários locais e eu não falo de casamento forçado, mas da imposição social de que as mulheres se resumem a um útero e precisam enfrentar qualquer miséria para cumprir o seu papel de mãe.

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Tróia | Cláudio Moreno | L&PM

5027848Essa foi uma releitura, dessa vez para o projeto LiterArte. Quando li Tróia pela primeira vez, ainda estava no colégio e hoje percebo que pouco aproveitei os conflitos da história naquela época.

Cláudio Moreno fez um apanhado de diversos relatos sobre a Guerra de Tróia, inclusive alguns capítulos desse livro sinalizam o início e fim dos acontecimentos que se passaram em Ilíada, de Homero.

A história da Guerra de Tróia é muito conhecida, a Grécia inteira se reúne contra a cidade de Tróia após Páris sequestrar Helena, a esposa de Menelau. Com a ajuda constante dos deuses gregos, os humanos travam uma batalha que há muito já estava escrita pelas Moiras.

A narrativa nos mostra a humanidade dos deuses do Olimpo. Suas fraquezas e preferências. A exemplo, vemos os caprichos de Aquiles sendo satisfeitos por Zeus após a intervenção de sua mãe, uma Nereida (uma espécie de sereia de água doce), ou os planos de Hera para vencer sua rival, Afrodite, após ela ter ganho o título de ‘a mais bela’.

Podemos apreender também a condição da mulher nessas civilizações, que culturalmente era relegada a ser apenas um objeto. Menelau foi roubado e ele se juntou aos aliados para reaver seu pertence, a formosa Helena. Além do mais, mesmo demonstrando não estar mais a vontade ao lado de Páris, a grega não tinha voz para se desvencilhar daquele laço. Em diversas passagens, os homens se incomodam de ser o segundo a ter relação sexual com uma mulher, pois ela “já estaria usada por outro”.

A narrativa de Cláudio Moreno é rápida, sem muita enrolação. O autor faz questão de enlaçar todos as etapas da Guerra à atuação dos deuses, nunca um acontecimento é uma banalidade, tudo se forma numa trama bem arquitetada. A cronologia dos acontecimentos não é bem delimitada, o leitor não consegue distinguir o que aconteceu em cada um dos anos da guerra, as cenas apenas seguem uma atrás da outra.

O final da história é surpreendente, embora tenha me deixado um pouco desanimada. Como apêndice para o leitor, os objetos de estudo utilizados pelo autor são listados ao final do livro. Foi interessante conhecer um pouco mais sobre a Mitologia Grega, a relação dos deuses com o homem e sobre as questões que compuseram o desenlace da Gerra de Tróia.

Projeto de Leitura | O mito da beleza

Olá, leitores!

Hoje trouxe para vocês um projeto de leitura conjunta para o livro O mito da beleza, da Naomi Wolf.

Esse livro foi escrito em 1991, mas mesmo depois de quase 30 anos ele permanece atual e presente no cotidiano de todos.

As lutas feministas muito avançaram ao longo dos anos e diversas conquistas foram realizadas. Hoje, muitas mulheres conseguiram se libertar da opressão do fogão e sair à luta de seus direitos e de seu espaço, mas infelizmente a maioria ainda é escrava do espelho. Por isso, a leitura desse livro é fundamental.

O intuito da autora ao escrever esse livro foi tentar desconstruir os mitos pessoais de beleza que nos colocamos como meta e mostrar que a mulher pode escolher a aparência que deseja ter sem obedecer a imposições do mercado e da indústria da beleza, ou seja, proporcionar uma consciência de beleza para que a mulher possa distinguir o que lhe está sendo imposto e decidir se realmente quer acatar ou tal tal característica.

Falar sobre o mito da beleza é necessário, pois esse padrão idealizado é responsável pela morte de jovens na mesa de cirurgia plástica clandestina ou pelo desenvolvimento de distúrbios alimentares.

Tem-se no imaginário popular de que as mulheres que criticam o mito da beleza estão fora do padrão (são gordas, feministas, feias, lésbicas, não brancas), mas a luta pelo fim dessa opressão é de todos, pois hoje até mesmo os homens estão sendo escravizados pelo ideal de beleza, cada vez mais vemos revistas masculinas que impõem um estilo, um corpo padrão, sem contar que os procedimentos estéticos também os alcançaram.

É incrível como o ideal de beleza sempre foi e sempre será inalcançável, pois ele é mutável ao longo do tempo. Isso porque ele sempre será usado contra as mulheres. Vejam só, se uma mulher resolve se dedicar a algo que não seja a beleza, podemos citar o seu lado profissional ou acadêmico, mesmo que ela seja a melhor naquilo, se ela não estiver no padrão de beleza, justamente isso será apontado “mas bem que ela poderia usar umas roupas mais femininas”, “ela se garante, mas deveria fazer as sobrancelhas”.

Então, é isso. Tudo o que eu comentei aqui está na apresentação e na introdução desse livro. Se vocês se interessaram, convido-os para participar desse projeto de leitura. 🙂

Vamos ao cronograma:

Cronograma semanal

Mangá | Witches

Olá, leitores!

Hoje vou falar sobre dois mangás incríveis que compõem essa pequena (em tamanho, porém grandiosa em conteúdo) série. Witches tem apenas dois volumes, foi escrita por Daisuke Igarashi e chegou ao Brasil pela Planet Mangá/ Panini Comics.

36552193O primeiro volume é composto pelas histórias Spindle (em duas partes), Kuarupu e A bruxa montada no pássaro. A primeira tem como protagonista uma bruxa pagã muito poderosa que precisa  enfrentar seu pior inimigo, ela mesma, que com toda a sua soberba não a permite se desenvolver melhor na magia e no seu autoconhecimento. Aqui o autor trabalha muito o embate entre a cultura pagã e a tentativa do cristianismo de se apropriar de seus elementos.

Em Huarupu, a protagonista é uma Xamã da Amazônia (sim, se passa no Brasil) e a história gira em torno da luta dela e de uma tribo indígena em lidar com ou enfrentar a entrada do homem branco na floresta. Muito interessante um ponto levantado sobre os espíritos dos animais depois que eles morrem.

A bruxa montada no pássaro aparenta não ter protagonista feminina até ser revelado que o místico está na mulher que aparece apenas para seu familiar.

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Nesse segundo volume, a estrutura do mangá permanece a mesma, três histórias sendo a última bem curtinha e protagonistas mulheres que se envolvem com o sobrenatural.

A primeira história que esse mangá traz é a Pedra da Reprodução, ou Pedra Genitalix. Uma bruxa da floresta e sua aprendiz começam a sentir algo de diferente no ar e todos os sinais indicam para a chegada da Pedra da Reprodução na Terra. O vaticano as convidam a resolver os problemas causados pela pedra, mesmo a contragosto, já que suas práticas vão de encontro ao cristianismo. Então, podemos perceber como as pessoas se aproveitam da sabedoria das bruxas em momentos de desespero, mas não as respeitam.

Essa questão da falta de respeito fica bem clara quando a pequena Alicia visita a cidade e ela é motivo de certo alvoroço por conviver com Mira.

Ladra de canções é o título da segunda história, que se desenvolve com a premissa de reencarnações e autoconhecimento.

Hinata é uma colegial que passa pelos dias sem realmente vive-los, como ela mesmo diz “[…] apenas assisto ao programa chamado ‘meu cotidiano’. Apenas assisto. ” P. 17. Então, ela rouba um dinheiro da escola e resolve viajar com Yuji, nessa viagem ela conhece Chitaru, que a ajuda a desperta seus sentidos para começar a realmente viver. As duas mulheres têm seus destinos entrelaçados nessa viagem de maneira transcendental.

A última história, que é bem curta, chamada Praia, nos leva a refletir sobre o limiar entre a vida e a morte. Contendo mais elementos visuais do que texto em si, os poucos diálogos aqui postos deixa o leitor matutando sobre o que realmente aconteceu ao gatinho.

Então, é isso. Amei a série Witches,  se você também gosta de histórias de bruxas, com conteúdos sobrenaturais ou com protagonistas femininas fortes, esse mangá é um prato cheio para você.

Feminismo para os 99 %|Boitempo

ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. O feminismo para os 99 %: um manifesto. 1° ed. São Paulo: Boitempo, 2019.

818.jpgO Feminismo para os 99% foi uma das melhores leituras que fiz em 2019, esse livro foi publicado mundialmente em março em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Foi escrito por Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, e chegou ao Brasil pela Boitempo, sob tradução da Heci Regina Candiani, numa edição linda, toda colorida e decorada.

Abertamente inspirado no Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx, o Feminismo para os 99% herdou a característica de manifesto, as capitulações em formato de Teses, a crítica a selvageria do capitalismo e as propostas para solucionar esses problemas, mas aqui a solução é o Feminismo para os 99%.

É sabido que estamos vivendo a 4° fase do feminismo, na era globalizada e antenada em redes sociais e o Feminismo para os 99% é a proposta de um feminismo mais abrangente, que não lute apenas um uma segmentação de pessoas. Vou explicar melhor, esse manifesto demonstra as diversas áreas em que as feministas podem lutar para conquistar um mundo melhor para todos, seja na luta de gênero, de classes ou de raça, pelo bem do ecossistema ou pelo fim da crise humanitária que tanto assola os refugiados. Você já parou para pensar na condição da mulher refugiada ou da mulher escravizada por grandes corporações?

O Feminismo é o movimento de luta mais longo da história e sua adaptação é necessária para auxiliar cada vez mais os que precisam de voz. O livro começa cerceando o Feminismo Liberal e passa por temas como o direito ao próprio corpo (sim, a questão do aborto), o trabalho gratuito de cuidados com o lar incutido como tarefa feminina e daí desponta para temas mais globais, como: crises sociais, crises ambientais….  Tudo converge para o grande responsável: o capitalismo.

Você pode estar pensando agora, “vixe, livro de comunista”, te respondo com um “sim e não, talvez”. O Feminismo para os 99% não levanta a bandeira do comunismo, nem do socialismo, ele apenas demonstra os males sociais causados pelo capitalismo que vão além da, já tão batida, exploração de mão de obra. Se o Feminismo conseguir frear a ganancia do capitalismo para que a vida de todos sejam boa e não apenas a de 1% da população, muito bem.

Por sua característica de manifesto, assim como o de Marx, as autoras trazem ideias e sugestões para melhorar o convívio nesse sistema tão predatório. O tom utópico é tênue, embora o leitor possa sentir que tudo isso é sim possível de resolver com o Feminismo.

A conscientização é o primeiro passo, acho que a divulgação desse livro é essencial para quem se interessa por um mundo melhor para TODOS.

Mangá | Ela e o seu gato

ela e o gatoQuando vi que esse mangá tratava da relação de uma mulher com o seu gato, logo fui atrás de saber mais sobre. Parecia ser muito bom.

A história de Ela e o seu gato é contada sob a perspectiva de Chobi, o gato encontrado na rua, que passou a morar com sua atual dona. O gato é apaixonado pela relação estabelecida entre eles.

A protagonista está tentando se adaptar a rotina estressante de sair diariamente para trabalhar, cozinhar e ainda ter tempo para relações sociais. Em seu cotidiano, é o amor de seu gato que traz certo alívio para ela. Pouco sabemos sobre o que se passa no trabalho dela, pois a narrativa é feita pelo gato, mas em alguns momentos também acompanhamos um encontro dela com uma amiga.

O mangá possui um tom melancólico em sua narrativa e os traços não são perfeitos, proporcionando ao leitor uma sensação de rotina e preguiça, algo típico dos gatos, rs. A história não traz grandes acontecimentos, sua proposta é mostrar a rotina de uma mulher e o seu gato, o que pode parecer monótono para alguns, mas algo sensível, verdadeiro e delicado para outros.

 

 

LiterArte | Antes do começo… A Mesopotâmia e a China

Olá, leitores!

Se você acompanha o blog no Instagram, deve ter visto a divulgação do Projeto LiterArte, onde vamos correlacionar o estudo das Artes Plásticas com a Literatura.

Resolvemos dar início com a leitura das obras clássicas gregas: Ilíada, Odisseia e Eneida. Porém, antes mesmo da expressão artística grega, houveram outras civilizações que tanto criaram artes plásticas, como escreveram livros também.

Então, trouxe a indicação de duas obras que precederam esse trio maravilho que leremos nesse semestre.

  • Epopeia de Gilgamesh

Essa obra é datada de 2.000 a.C e tida como o livro mais antigo de todos, ao lado do Livro dos Mortos, e originou-se na Mesopotâmia (atual Iraque).

A civilização suméria é conhecida pela criação da escrita cuneiforme, primeira linguagem escrita da história, bem como pela estruturação da primeira religião.

A Epopeia de Gilgamesh é composta por doze placas contendo cerca de 300 versos em escrita cuneiforme, onde é contada a história do relacionamento entre Gilgamesh e Enkidu, homens selvagens que foram criados por deuses e evitavam a opressão na cidade de Uruk (governada pelo rei Gilgamesh na época).

Aqui, podemos relacionar a história da Epopeia com o Marco da Vitória de Naram-sin (artista desconhecido, obra produzida em arenito rosa, hoje encontra-se no Museu do Louvre, em Paris), onde mostra a liderança do rei de Acádia, Naram-sin, que governou entre 2.334 a.C. a 2.279 a.C., e seu elo com o divino.

mesopotamia

Ambas as obras, tanto a literária quanto a plástica, representam uma característica político, religiosa e cultural da época, a teocracia. Característica essa que repercutiu também na arquitetura local, com a utilização dos Zigurates.

A Literatura Mesopotâmica serviu de inspiração para o primeiro poeta europeu registrado, Hesíodo, por volta de 700 a.C (olha só nosso gancho para a Grécia ❤ )

  • A arte da Guerra

Sem dúvida alguma, A arte da guerra é um dos livros mais conhecidos do mundo. Com táticas de guerra que podem ser adaptadas a várias áreas da vida, a obra chegou a servir como guia para ensinar as empresas a lidar com a concorrência.

A China foi a primeira civilização a trabalhar com o metal em táticas de guerra, fortalecendo, assim, suas armaduras e técnicas de combate. Em virtude dos vários confrontos, um de seus períodos históricos foi batizado como Período dos Reinos Combatentes (475 a.C. – 221 a.C.). Nessa mesma época, a filosofia chinesa também ganhava forma com o Confucionismo, Taoísmo e Legalismo.

a arte da guerra

Dada a realidade local, a arte laca Chinesa desenvolveu-se como uma utilidade para a proteção de bens de madeira, tornando-as mais resistentes e duráveis.

O primeiro imperador chinês, Qin Shi Huangdi, 259 a.C – 221 a.C., para sentir-se protegido, mandou construir um salão subterrâneo com um Exército de Terracota (artista desconhecido) construído em barro. O complexo de soldados conta com cerca de 8.000 figuras em posição de combate.

O cenário político da época também marca a produção artística local, dessa vez com sua vertente voltada à guerra.

Bom, é isso, pretendo trazer mais posts assim, indicando obras literárias a partir da história da arte, o que vocês acharam? 🙂