Cidadã de segunda classe | Buchi Emecheta | Dublinense

EMECHETA, Buchi. Cidadã de segunda classe. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

Cidadã de segunda classe

Esse livro se passa na década de 60, na Nigéria e na Inglaterra, porém é mais atual do que podemos supor e presente em mais lugares do que imaginamos. É assustadoramente duro e real.

Em Cidadã de segunda classe, Buchi conta a história de Adah, a jovem que sempre foi posta de lado na sua família porque não possuía o mérito de ser um menino. Depois de fazer tudo para ser aceita pelos mais próximos, consegue, a troncos e barrancos, a oportunidade de estudar, algo muito difícil para as meninas nigerianas.

Estudar era algo que deixava Adah satisfeita consigo. Sua instrução tornou-se, então, o seu diferencial e por conta disso arranjou um casamento que aparentava ser sua melhor opção, mesmo a contra gosto do irmão. Dedicada e esforçada, ela passa a sustentar o marido, que estudava para conseguir a certificação de contador.

O sonho de Adah, como o da maioria dos nigerianos, era se mudar para a Inglaterra. Depois de alguns anos ela consegue realizar esse sonho, mas a realidade mostra-se diferente do que ela imaginava, pois mesmo com o seu grau de instrução e com um bom emprego na Biblioteca, ela não passa de uma “cidadã de segunda classe” que precisa morar em estabelecimentos insalubres porque são os únicos locais que aceitam pessoas negras.

Ao longo da narrativa, a protagonista passa a entender a dureza de ser  uma “cidadã de segunda classe”, pois que o termo foge de tudo o que ela almejou para a sua vida. Por ser negra e mãe, esperava-se um padrão de vida abaixo do que Adah imaginava que teria na Inglaterra.

O racismo é latente em cada momento, bem como o machismo. Adah é um exemplo de mulher forte, que luta diariamente pelo seu espaço, mas que não consegue quebrar os grilhões sociais impostos por um péssimo casamento. Ser negra pesou muito mais num país em que ser branco era sinal de dignidade. “O conceito de ‘brancura’ acobertava um sem-número de pecados” p. 68

O desenvolvimento pessoal dela se faz em meio ao sofrimento da maternidade sem apoio e do pouco dinheiro que precisa ser dividido também para pagar os estudos do marido que em nada contribui para o bem estar familiar.

Assim como em As alegrias da maternidade, podemos perceber a influência do cristianismo trazido pelos britânicos para a população nigeriana. O machismo que já era cultural do local ganha mais subterfúgios para manter-se vivo.

“Aqueles malditos missionários! Haviam ensinado a Adah todas as coisas boas da vida, haviam lhe ensinado a Bíblia, segundo a qual a mulher deve estar disposta a ceder ao seu homem em todas as coisas, e que para o marido ela deve ser mais preciosa que rubis.” P. 41

Buchi aproveita o ensejo da religiosidade exacerbada para criticar os privilégios do povo branco. “Algumas pessoas eram criadas com todas as coisas boas prontinhas à espera delas, outras apenas como enganos. Enganos de Deus.” p.167.

Ao observar a vida dos brancos, principalmente depois de sua estadia na maternidade, ela percebe as injustiças acarretadas só por causa da cor de sua pele. Desenvolve um olhar mais crítico sobre a sua condição e desperta a jovem de personalidade forte que estava latente.

Fiquei super ansiosa para ler a continuação desse livro, que a Dublinense publicou nesse primeiro semestre de 2019, o No fundo do poço. Cidadã de segunda classe é um retrato vivo da condição de muitas mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos, machismo e racismo.

 

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Jude, o obscuro | Thomas Hardy | Companhia das Letras e TAG Curadoria

HARDY, Thomas. Jude, o obscuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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Jude, o obscuro, publicado inicialmente em 1895, foi escolhido pela Fernanda Montenegro para a Tag Curadoria no mês de maio de 2019. Quando li a sinopse de Jude, logo fiquei empolgada para mergulhar nessa história, pois me lembrou bastante os conflitos encontrados em “A flor da Inglaterra”, do George Orwell,e eu amo essa temática Vida acadêmica – Trabalho – Sociedade. A ideia da formação acadêmica como algo essencial para alcançar uma estabilidade financeira ou realização profissional é algo que detém certa complexidade que me fascina.

Jude é um órfão que foi criado de maneira rígida pela tia e nutria muita admiração pelo seu professor do colégio. Tal admiração chegou ao ponto de influenciá-lo a sonhar com o seu futuro, queria estudar na mesma faculdade que levou seu mestre a mudar de cidade.

O tempo passou e Jude manteve seus estudos autodidatas com as gramáticas de Latim e Grego que conseguia comprar de vendedores ambulantes, porém a realidade de sua condição social o impeliu a dedicar-se ao trabalho árduo, inicialmente ajudando a tia e depois como entalhador.

A necessidade financeira para sustentar a si e a Arabella, a filha do criador de porcos a qual ele namorou por um tempo e acabou casando sem um real interesse, o levou a uma vida medíocre,onde o cansaço e as obrigações muitas vezes minava o pouco tempo que ele teria aos seus amados livros. Aqui é interessante ressaltar como a criação de Arabella influenciou a maneira como ela lidou com o sonhador Jude e seus livros, por vezes fazendo troça e até ameaçando dar fim em seus exemplares, pois para ela aquela dedicação intelectual não valia de muita coisa.

Depois de algum tempo, Jude conhece Sue, uma jovem de alma livre que, além de prima e amiga, torna-se uma grande paixão. Percebe-se nesse livro que os relacionamentos são construídos com base na personalidade de cada um dos personagens, mas que sempre vão discutindo ou sendo modelados pelas convenções e imposições sociais. Certos embates com as tradições e a luta em libertar-se de algumas amarras são palpáveis, embora por vezes cruéis. Não é de se estranhar que a obra tenha sido bastante criticada na época, principalmente pela igreja. A relação quase aberta que Sue mantém com o professor quebra os padrões de uma época em que a mulher deveria fornecer servidão indiscutível ao seu marido (um amigo chega a questionar se ela o enfeitiçou com a ideologia do matriarcardo).

“[…] Segundo a cerimônia impressa ali, meu noivo me escolhe livremente, a seu gosto; mas eu não escolho. Alguém me entrega a ele, como uma jumenta ou uma cabra ou qualquer outro animal doméstico. Santificadas sejam vossas iluminadas opiniões a respeito das mulheres, ó Homens da Igreja! […]” P. 164

Mesmo com as aspirações libertárias dos personagens, os grilhões sociais falam mais alto, aprisionam e massacram o indivíduo que tenta caminhar com seus próprios pés. Isso aproxima bastante a história da realidade que vivemos até hoje (seja em relação as mulheres ou as dificuldades impostas à Jude para que ele siga o seu sonho de estudar).

Como falei inicialmente, gostei bastante da proposta de Thomas Hardy e confesso que se eu não tivesse esse apreço pelo tema, Jude teria sido uma leitura bem difícil e arrastada, pois a melancolia do cotidiano e o vai e vem da história acabou me cansando um pouco.

Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

Esse livro contém o ensaio do professor de filosofia Byung-Chul Han sobre a sociedade atual, que ele titulou de Sociedade do Cansaço. Para a construção do termo e de sua tese, o autor parte da perspectiva de Foucault e sua ‘sociedade disciplinar’, ou seja, enquanto o indivíduo da modernidade era uma figura que vivia da obediência e da mecanização de suas ações, hoje as pessoas estão tão envolvidas no discurso motivacional do ‘ser empreendedor de si’ e da necessidade de produzir que estão cada vez mais cansadas e doentes.

É bem pertinente essa observação de Byung-Chul e sua tese dialogou constantemente com minha rotina. Aquela dificuldade de aceitar o tédio ou algumas horas dedicadas ao nada propositalmente. É estranho que esse cansaço já parece um habitante de mim. Um exemplo claro disso é quando chego na parada de ônibus alguns minutos antes do horário que o transporte passará, já me bate uma ansiedade do tipo “nossa, tô perdendo tempo, eu poderia estar lendo ou adiantando algum e-mail, mas só faltam 10 minutos pra ele passar, preciso ficar atenta… Mas são 10 minutos fazendo nada!!!” E por aí vai. Percebi que preciso me abstrair mais de horários e evitar tantos compromissos e obrigações que caço ao acaso para preencher minhas horas.

A partir dessa construção histórico – filosófica, o texto critica também a dificuldade de dedicar-se ao ver contemplativo, uma vez que só queremos ver e absorver aquilo que trará algum benefício, por que não apenas contemplar e deixar os pensamentos soltos?!

Dormir o menos que você consegue e produzir o máximo chegando ao além do humano são as palavras chave para a sociedade atual. O cansaço se instalou e por aqui ficou como algo natural. O tempo parece cada vez mais rápido ou você que não observa o tempo passar?

Os pontos levantados por Byung são bem interessantes e reflexivos, em alguns momentos soou até mesmo como um tapa na cara. Essa obra é curtinha e o texto é bem repetitivo, vários títulos do autor saíram pela Editora Vozes nessa coleção que achei o preço até bacana.

Leia mulheres | Livro de outubro

Olá, leitores!

Como falei aqui, os clubes de leitura Leia Mulheres e Leituras Feministas que acontecem em Fortaleza se fundiram e agora são intercalados.

No encontro do Leia Mulheres de agosto foi definido o título que será discutido em outubro e será o Minha irmã serial killer, de Oyinkan Braithwaite.

Minha irmã, a serial killer

Em Minha irmã, a serial killer (My sister, the serial killer), a nigeriana Oyinkan Braithwaite conta uma história ao mesmo tempo bem-humorada e assustadora sobre duas irmãs com temperamentos e atitudes bem diferentes uma da outra: Korede e Ayoola.

Korede é amargurada, mas pragmática. Sua irmã mais nova, Ayoola, é a filha favorita, a mais bonita, e, possivelmente, com sérios distúrbios comportamentais. Seus três últimos namorados aparecem mortos. As duas irmãs desempenham papeis inusitados nessa trama de suspense e relações emocionais complexas. Oyn conduz a trama desse thriller psicológico com maestria que surpreende e encanta o leitor a cada página. Conta uma história cheia de suspense e mistério, com humor peculiar e ácido, sem deixar de lado a complexidade da mente de uma sociopata.

Achei bacana que os próximos encontros contarão com títulos de editoras que não são tão grandes quanto as líderes de mercado, mas trazem obras essenciais para levantar discussões tão pertinentes no nosso cotidiano. No caso desse livro de outubro, em específico, é ainda mais especial, tendo em vista que estamos dando mais espaço para a Literatura Africana, algo que eu nem cogitava ler na minha vida até alguns anos atrás. ❤

A Tamy, do LiteraTamy entrevistou a autora recentemente, segue o vídeo:

 

Os próximos encontros:

  • Setembro – Breve história do feminismo
  • Outubro – Minha irmã serial killer
  • Novembro – O feminismo para os 99%: um manifesto

Diário de leitura | Resumo de agosto de 2019

Olá!

Passei uns três meses lendo quase nada, o que me desmotivou um pouco a fazer esse tipo de postagem, mas agora em agosto retomei o meu ritmo, então estou aqui para compartilhar com vocês o que rolou em relação aos livros.

Livros lidos

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  1. Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon: É um romance road trip ambientado no sul do Brasil, há também a temática LGBT. Achei a leitura bem descontraída e rápida. Já tem resenha para ele aqui no blog.
  2. Autobiografia, de José Luís Peixoto: Confesso que não gostei muito desse livro, a escrita é o seu diferencial, mas a história em si não me agradou, achei parado e previsível demais (o título e a capa são um spoiler medonho).
  3. Coração azedo, de Jenny Zhang: livro de contos que conversam entre si e mostram a realidade de jovens orientais que imigraram com seus familiares para os Estados Unidos. As condições precárias e as dificuldades de relacionamento são os principais tópicos nas histórias.
  4. A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói: Essa pequena história é carregada de significado e faz uma crítica a certos aspectos sociais que nunca morreram, farei resenha pra ele em breve. 🙂
  5. A sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han: Apesar de muito repetitivo, a construção do pensamento do autor é bem interessante. A crítica em relação a nossa sociedade que se cobra cada vez mais é bem pertinente. Também haverá resenha pra ele logo logo.
  6. O corpo dela e outras farras, de Carmem Maria Machado: Livro que reúne contos de mulheres em diversos ambientes, seja em cenários a lá ficção científica ou sobre a maternidade. Há mistério e vazio em suas histórias, acho que a autora não trabalhou muito bem o ‘final em aberto’ de alguns contos, um dele até pareceu que foi abandonado na metade porque aconteceram tantas coisas para culminar em algo tão ok. Não gostei muito ao final das contas, me decepcionei porque os comentários sobre ele era de algo como “Black Mirror” feminino.

Novos na estante

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Para além do livro da TAG, esses foram minhas últimas aquisições. Há meses que eu não comprava nada, então aproveitei uma promoção na Amazon e fiz a festa. Yey…

Contando de baixo para cima, os três primeiros títulos são para estudar pra prova do mestrado. Pretendo tentar mestrado em educação daqui a alguns anos, então comecei a ler algumas obras da bibliografia para me familiarizar com os conteúdos. Sei que a lista pode mudar daqui pra lá, mas acho que a essência é a mesma.

O Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis é de uma conterrânea que descobri há pouco tempo e estou super curiosa para conhecer o seu trabalho. Jarid é cearense e tem vários projetos voltados para a escrita feminina.

O Fique Comigo e o No seu pescoço são livros de autoras Africanas, sendo o primeiro um romance e o segundo, uma coletânea de contos. Já li comentários maravilhosos sobre as duas obras e estou bem animada para lê-los.

O Breve história do feminismo é para o encontro de setembro do Leituras Feministas. Esse tava de promoção na Livraria Cultura perto do meu trabalho, então aproveitei a deixa. Pensando bem, esqueci de colocar o A sociedade do cansaço aqui na foto, rs, comprei junto com o Breve história. 😉

Sobre a Bienal que eu não fui

Desde que me entendo por gente, nunca deixei de ir pra Bienal do Livro do Ceará, mas nesse ano não compareci. Não sei explicar ao certo o motivo, mas acho que nem preciso me justificar. Ao final das contas, estava cansada demais e apesar de as palestras me interessarem, os horários não combinavam com a minha realidade… Os dilemas de morar longe de tudo e cansar só de planejar ir para um evento.

Espero estar mais animada (e com dinheiro) para a próxima.

Todos nós adorávamos caubóis | Carol Bensimon | Companhia das Letras

BENSIMON, Carol. Todos nós adorávamos caubóis. São Paulo:Companhia das Letras, 2019.

Todos nós adorávamos caubóisEsse livro foi indicado pela Noemi Jaffe para a TAG Curadoria do mês de agosto de 2019. É um romance a lá Road Trip de uma escritora brasileira contemporânea.

As duas protagonistas, Cora e Julia, são bem diferentes em termos de personalidade. Cora é a autêntica grunge (lápis nos olhos, botas, calça jeans justa e jaqueta vermelha), já Julia, como a própria narradora a descreve, é aquela moça certinha que tem coragem de levantar a mão para fazer uma pergunta faltando cinco minutos para terminar a aula.

Elas se conheceram na faculdade de jornalismo e logo fizeram amizade apesar da criação tão distinta, enquanto Cora viveu os privilégios de uma vida classe média, pois o salário do pai como médico supria todas as necessidades da família e mesmo no período de recessão, em que todos passaram por dificuldade, ela viveu tranquilamente. Julia,  por outro lado, veio de uma família do interior e sua formação foi em colégio religioso.

Depois alguns anos de amizade, Julia recebe a oportunidade de estudar no Canadá e Cora aproveita para largar o curso e ir estudar moda na França. Ambas se reencontram e resolvem tirar do papel a viagem pelo Sul do Brasil que tanto sonhavam.

Durante a viagem as duas jovens relembram momentos de sua juventude e os dissabores de suas relações familiares. O relacionamento entre as duas retoma algumas fagulhas e tenta se reestruturar mesmo depois de tanto tempo.

O amadurecimento delas é visível em suas conversas, na coragem de encarar temas antes jogados para debaixo do tapete, como o assunto Família, que passa a ser enfrentado e visto com outros olhos, até mais compreensíveis, posso dizer.

Este é um romance de formação, em que as protagonistas crescem ao passo que vivem o presente e relembram o passado. A escrita é carregada do sotaque sulista com os seus “tu”, “teu” e “guria”, bem como a paixão pelo chimarrão e pela bombacha, por vezes tive a sensação de ouvir a voz de Cora carregada de sotaque e tão cheia de amor por tudo isso.

Todos nós adorávamos caubóis é um prato cheio para quem gosta do estilo Road Trip e de conhecer um pouco mais sobre o próprio país.

As cidade visitadas durante a viagem foram:

  1. Porto Alegre;
  2. Antônio Prado;
  3. São Marcos;
  4. São Jorge da Mulada;
  5. São Francisco de Paula;
  6. Cambará do Sul;
  7. Caçapava do Sul;
  8. Minas do Camaquã;
  9. Bagé;
  10. Soledade.

 

Projeto de leitura | O mito da beleza | Cap. 3 – A cultura

Esse post faz parte do projeto de leitura do livro O mito da beleza, de Naomi Wolf.

No capítulo 3, titulado A Cultura, a autora ressalta mais uma vez sua visão classe média branca, em que as principais preocupações podem não passar de futilidade para outras classes.

Aqui Naomi Wolf desenvolve seu pensamento acerca da mulher como ser recipiente que está apta a receber as mais diversas influências, já que são seres sem personalidade e facilmente manipuláveis.

Inicialmente o capítulo critica o dualismo da figura feminina que paira entre a mulher cheia de atitude e inteligente e a mulher vazia e muito bonita. Ou seja, quando uma mulher demonstra personalidade e inteligência, aparentemente ela deixa de ser desejável para a sociedade machista. Naomi ilustra essa premissa com diversas cenas da Literatura.

Logo em seguida a autora retoma às grandes vilãs da classe média manipulável, já tanto criticadas por ela, as revistas e as propagandas. É interessante a linha histórica aqui demonstrada, em que antes da 2° Guerra as revistas femininas tinham o papel de domesticar a mulher para desejar alcançar o tripé mãe-esposa-dona de casa. Com o advento da guerra, as mulheres passaram a trabalhar fora de casa para garantir o sustento familiar, o que foi um verdadeiro tormento para os homens e para as campanhas publicitárias, uma vez que ao voltar da guerra os homens encontraram o mercado saturado de mão de obra barata, já as revistas, perderam sua força de manipulação, pois as mulheres trabalhadoras eram mais críticas.

Então, por volta da década de 60, as campanhas publicitárias encontraram uma maneira de trazer a mulher de volta às rédeas da manipulação. A ideia central era fazer com que a mulher passasse a odiar o próprio corpo e comprasse cada vez mais produtos de beleza em uma luta injusta, pois as revistas passaram a apresentar mulheres de 40 anos como se tivessem 65, a tratam as imagens de artistas escondendo qualquer mínimo “defeito” e a gerar um mal estar geral do tipo “nossa, como estou acabada!”.

A autora reflete também sobre como é complicado para uma revista falar sobre empoderamento feminino se na página seguinte o anunciante precisa de uma consumidora insatisfeita com o próprio corpo para se interessar pelos produtos dele. As revistas poderiam levar o feminismo da academia para um público maior, mas infelizmente é refém do capital.

É interessante quando Naomi fala que as mulheres substituíram os conselhos da própria mãe pelos dados em revistas, uma vez que as genitoras falharam no papel de não envelhecer. Daí o texto também traz os perigos das propagandas televisivas, da indústria pornográfica e da censura velada nos meios de comunicação.

Apesar da visão focal perene na obra, até agora a autora tem discutido de maneira construtiva o tal do mito da beleza, pois ela traz recortes históricos para demonstrar como chegamos até aqui. Esse capítulo, em especial, conversa muito com o nosso cotidiano, principalmente por causa das propagandas. Porém, por outro lado, também podemos levantar outra questão mais atual, como a de que produtos de beleza estão usando a pauta do empoderamento feminino e de auto aceitação para vender os produtos que servem para “corrigir” falhas, como produtos de maquiagem, por exemplo. É necessário olhar para tais manifestações com um olhar crítico, pois muitas vezes usam a bandeira do feminismo como máscara para continuar sua prática de massacrar a mulher.