Bartleby, o escriturário | Herman Melville | L&PM

Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street foi a primeira publicação de Melville após Moby Dick e saiu no periódico Putnam’s em 1853.

Esta obra é narrada por um advogado que trabalha com escrituração e possui três funcionários de personalidades bem distintas. Diante do aumento das demandas, ele resolve contratar um novo escrevente, então Bartleby é contratado. A figura do jovem logo chama a atenção de seu patrão “[…] Ainda hoje sou capaz de visualizá-lo – palidamente limpo, tristemente respeitável , incuravelmente pobre!”p. 27

Logo nos primeiros dias de trabalho, Bartleby se mostra diligente em suas atividades, copia os documentos com todo esmero possível, é o primeiro a chegar e o último a sair, não sai da mesa nem para comer. Tudo caminhava bem, até que ao ser solicitado pelo Advogado para realizar uma tarefa, responde com “Prefiro não fazer”.

A partir dessa recusa, o advogado começa a olhar Bartleby de maneira mais atenta, a apatia em relação à vida é o que sobressai. Até mesmo o uso do “Prefiro não fazer” demonstra a falta de imposição, de querência, ele não chega a não querer, apenas prefere.

A presença de Bartleby começa a incomodar a todos, aquele ser inerte que prefere não realizar atividades e que se alimenta apenas de bolinhos de gengibre parece apenas esperar pela passagem do tempo. O advogado tenta demitir o escriturário, mandá-lo embora, mas ele permanece ali.

A falta de informações sobre o passado, os anseios e os pensamentos do jovem incomoda a todos e levanta várias incógnitas ao leitor. O mais interessante é que esse ser apático desperta no advogado certa preocupação, a história, sem reviravoltas ou explicações, beira ao absurdo, a rotina do escritório é abalada de maneira sutil e inesperada.

Logo no início da leitura lembrei de Dickens, pela narrativa fluida e bem humorada, em seguida a história caminhou para características kafkianas e, ao final, posso resumir Bartleby na frase de Albert Camus: “O absurdo não liberta; amarra“.

Tróia | Cláudio Moreno | L&PM

5027848Essa foi uma releitura, dessa vez para o projeto LiterArte. Quando li Tróia pela primeira vez, ainda estava no colégio e hoje percebo que pouco aproveitei os conflitos da história naquela época.

Cláudio Moreno fez um apanhado de diversos relatos sobre a Guerra de Tróia, inclusive alguns capítulos desse livro sinalizam o início e fim dos acontecimentos que se passaram em Ilíada, de Homero.

A história da Guerra de Tróia é muito conhecida, a Grécia inteira se reúne contra a cidade de Tróia após Páris sequestrar Helena, a esposa de Menelau. Com a ajuda constante dos deuses gregos, os humanos travam uma batalha que há muito já estava escrita pelas Moiras.

A narrativa nos mostra a humanidade dos deuses do Olimpo. Suas fraquezas e preferências. A exemplo, vemos os caprichos de Aquiles sendo satisfeitos por Zeus após a intervenção de sua mãe, uma Nereida (uma espécie de sereia de água doce), ou os planos de Hera para vencer sua rival, Afrodite, após ela ter ganho o título de ‘a mais bela’.

Podemos apreender também a condição da mulher nessas civilizações, que culturalmente era relegada a ser apenas um objeto. Menelau foi roubado e ele se juntou aos aliados para reaver seu pertence, a formosa Helena. Além do mais, mesmo demonstrando não estar mais a vontade ao lado de Páris, a grega não tinha voz para se desvencilhar daquele laço. Em diversas passagens, os homens se incomodam de ser o segundo a ter relação sexual com uma mulher, pois ela “já estaria usada por outro”.

A narrativa de Cláudio Moreno é rápida, sem muita enrolação. O autor faz questão de enlaçar todos as etapas da Guerra à atuação dos deuses, nunca um acontecimento é uma banalidade, tudo se forma numa trama bem arquitetada. A cronologia dos acontecimentos não é bem delimitada, o leitor não consegue distinguir o que aconteceu em cada um dos anos da guerra, as cenas apenas seguem uma atrás da outra.

O final da história é surpreendente, embora tenha me deixado um pouco desanimada. Como apêndice para o leitor, os objetos de estudo utilizados pelo autor são listados ao final do livro. Foi interessante conhecer um pouco mais sobre a Mitologia Grega, a relação dos deuses com o homem e sobre as questões que compuseram o desenlace da Gerra de Tróia.

Mangá | Assim falou Zaraustra

manga assim falouLi esta adaptação da obra de Nietzsche antes mesmo de ler o original, então não tenho como comparar as duas versões (se saiu muito do escopo do clássico ou qualquer outra informação do tipo).

A experiência límpida com o mangá, sem conhecimento prévio da história, me proporcionou um aproveitamento muito bom. Percebe-se a simplicidade da linha narrativa, porém com grande reflexão filosófica.

Conta-se a história de uma família cristã, onde o pai é pastor e sustenta a esposa e os filhos a partir das ofertas arrecadadas pela igreja. O rumor de que um dos filhos do casal é adotado toma força e leva a um desequilíbrio emocional do núcleo familiar. O jovem Zara sai de casa em buscas de respostas às suas indagações e acompanha Salomé, que lhe apresenta a lei do eterno retorno. A partir daí os questionamentos filosóficos sobre  Deus e a igreja se fortalecem.

Aqui aparece a famosa frase de Nietzche “Deus está morto”. A explicação para a “morte” de Deus faz-se a partir das atitudes humanas, onde estaria Deus diante de tanta iniquidade e maldade na face da Terra? A essência da caridade tão pregada pelo Cristianismo se esvaiu ao longo dos anos e a avareza tomou conta dos lares. Os princípios básicos pregados pela doutrina foram deturpados pelas pessoas e, aos poucos, sufocaram a Deus com Ego humano. Ou seria Deus apenas uma criação do próprio ego humano para sentir-se especial?

O estilo do desenho é muito bonitinho, o que achei estranho foi ler uma edição de mangá no sentido ocidental, da direita pra esquerda.

O que Virgínia Woolf e James Joyce têm em comum

É sabido que Virgínia Woolf não gostou muito da obra mais conhecida de James Joyce, Ulisses, e isso resultou em associar o nome dos dois grandes escritores a desprazeres.

Virgínia era crítica literária e por conta disso o seu julgamento sobre Joyce foi tão enaltecido pelos leitores e simpatizantes do mundo dos livros a ponto de muitos considerarem que Virgínia detesta Joyce no geral, não apenas de uma obra dele.

Fofoca literária a parte, vamos ao que interessa: o que eles têm em comum?

  1. São grandes nomes da literatura e suas obras são lidas todos os anos por vários leitores no mundo;
  2. São considerados “difíceis de ler” por obras específicas, carma que os segue no imaginário de todo leitor. Virgínia ganhou essa fama com As Ondas e Joyce, com Ulisses;
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  3. Ambos possuem um livro descontraído que vai inteiramente contra a fama de “semi impossíveis da literatura”. Flush é da Virgínia e Dublinenses, o do Joyce;
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  4. Escrevem usando a técnica conhecida como fluxo de consciência;
  5. São escritores modernistas do final do século XX;
  6. Personagens que se sentem solitários apesar de todos os contatos sociais que possuem;
  7. O tempo das narrativas não correspondem ao tempo cronológico da história;
  8. Se aproximam do realismo psicológico;
  9. Uso de narrativa experimental;
  10. Distanciamento e uma iminente sensação de desgraça parecem estar sempre presentes.

Dos livros citados no post, já falei sobre:

Depois de revisitar esses comentários tão antigos acho que está na época de reler esses livros para tecer novas ideias sobre eles, rs.

Eu li: Flush, da Virgínia Woolf

Sem sombra de dúvidas Flush é o livro mais leve e descontraído da autora inglesa Virgínia Woolf, conhecida por suas histórias contadas em fluxo de consciência.

Virgínia Woolf inspirou-se em cartas escritas por Elizabeth Barrett e Robert Bowning que vira e mexe mencionavam  Flush, o esperto cachorrinho da raça Speniel, para fantasiar e criar essa história, a autora aproveita e descreve trechos das cartas ao longo da narrativa. Fadigada de todo esforço que seu último livro demandou, As Ondas, Virgínia escreve Flush como uma brincadeira descontraída para distrair-se, mal esperava ela que essa sua “brincadeira” faria tanto sucesso.

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Imagem do Instagram

Flush conta a história do cãozinho da raça Speniel, que renegou todos os prazeres da vida livre, das brincadeiras ao sol, para acompanhar sua dona, a senhoria Barrett, que vivia trancada em seu quarto devida sua saúde. Vez ou outra Flush saía à rua para passear, mas sempre guiado por sua coleira. Apesar de ser apenas um cãozinho, Flush conseguia diferenciar o enorme abismo existente entre as pessoas e os cães daquela sociedade, ele, por exemplo, um cão aristocrata que tinha direito a uma tigela vermelha e a uma guia na hora de passear, ao contrário de tantos vira latas que comiam o que encontravam na sarjeta e não tinham um dono para proporcioná-lhes regalias.

[…] Reparou com ar de aprovação no pote vermelho em que bebia sua água – marca dos privilégios de sua posição -; abaixou sua cabeça lentamente para permitir que a guia fosse presa à coleira – marca do preço que se tem que pagar por isso. Nessa ocasião, quando a Senhoria Barrett o viu olhando-se no espelho, estava errada. Ela pensou que ele parecia um filósofo meditando a respeito da diferença entre aparência e realidade. Ao contrário, ele era um aristocrata observando seus atributos. P. 37

Virgínia aproveita a inocente visão do cachorro Flush para alfinetar esses conflitos sociais, principalmente quando ela descreve o submundo existente ao lado dos quartos confortáveis  elegantes de Londres. Essa história traz à tona, também, as diferenças culturais entre países, a valoração exagera de certos atributos que são insignificantes em outros locais.

Com uma escrita leve, as 141 páginas desse livro proporcionam uma leitura rápida e bonita. Ressalto que há momentos em que Flush traz passagens melancólicas, um verdadeiro sofrimento para quem gosta muito de cães, a exemplo as passagens em que Flush é reprimido por suas atitudes mesquinhas e ele tenta entender porque está sendo “rejeitado”, ou quando ele passa maus bocados nas ruas perversas de Londres.

Fiquei aflita em alguns momentos desse livro, preocupada e com pena do cachorrinho, mas em tantas outras me senti recompensada com as comparações sociais e culturais que Virgínia aborda, ou seja, Flush é um livro descontraído, emocionante e rico.

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