Como viver com 24 horas por dia | Arnold Bennett | Auster

Estou em uma fase de autodesenvolvimento, tenho pesquisado e lido bastante sobre a relação do homem com o tempo e o trabalho. Em meio a essas minhas andanças livrescas, me deparei com o “Como viver com 24 horas por dia”, achei o título muito pretensioso, mas arrisquei.

Preciso ressaltar que Bennett traz em seu texto a visão de um inglês em meados dos anos 1900, ou seja, não considera nada de atividades domésticas + trabalho + estudo, algo completamente fora da minha realidade. Mesmo diante disso, ainda consegui extrair um valioso ensinamento daqui.

Geralmente vemos as horas que passamos trabalhando como a principal atividade do dia e tudo o que acontece antes ou depois são apêndices do trabalho (você acorda, toma banho, lancha para ir ao trabalho, toma banho, come, descansa, estuda para o trabalho). Arnold propõe que passemos a enxergar as horas fora do trabalho como as principais horas do dia, a labuta foi algo que você precisou ir lá executar para conseguir dinheiro ao final do mês.

Em seguida, o autor traz sugestões de como utilizar melhor esse tempo livre e um conceito que é uma das bases para o livro Minimalismo Digital: gastar o seu tempo com lazeres de qualidade, algo que engrandeça a você mesmo. Aqui pode parecer que ele está falando de ser produtivo até nas horas vagas, mas não é bem assim. Fazendo um paralelo com a sociedade atual, o autor propõe atividades que movimentem o corpo e envolvam aprendizado/ desenvolvimento e não ficar a mercê da passividade (oi, feed das redes sociais).

Basicamente, dedique as 3 horas noturnas ao que alimenta a sua alma, se não gosta de ler, enriqueça-se da maneira que lhe aprouver: jardinagem, marcenaria, pintura, artesanato, instrumento musical, etc. Pense na qualidade dessas atividades e compare com rolar o feed do Instagram.

Bennet traz ainda um esquema para auxiliar na organização dos dias, propõe que o cronograma semanal seja feito com base em 6 dias semanais e que o 7° seja usado para o descanso e o ócio. Ainda é comum nos sentirmos culpados ao descansar, mas esse relaxamento faz parte de ajudar o nosso corpo a processar melhor tudo o que queremos absorver e executar. O descanso faz parte da vida, como dormir ou comer.

No geral, esse livro não foi arrebatador, algo que mudasse completamente a minha forma de ver o mundo, mas esses pontos que aqui listei me fizeram passar algumas semanas refletindo.

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Êxtase da transformação | Stefan Zweig | Companhia das Letras

ZWEING. Stefan. Êxtase da transformação. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Êxtase da TransformaçãoChristine (sobre)vive na Áustria entre guerras, mora com a mãe e trabalha numa agência dos correios. O dinheiro mal dá para chegar ao final do mês se não for pelo racionamento constante de alimento e itens de necessidades básicas. Sua vida é posta de ponta cabeça com o convite de sua tia para viajar durante alguns dias com ela.

O contraste entre a vida miserável de Christine e a bonança em que a tia e seus amigos vivem é dilacerador para a jovem, ela constata que em apenas algumas poucas horas o tio ganha o que a ela levaria meses a fio de uma labuta massacrante. Os bailes e conversas bobas a enfeitiçam, fazem com que esqueça sua real origem e chegue a acreditar que ela faz mesmo parte daquele meio.

O regresso antecipado da moça desembaça sua visão para a real e dura vida que leva, passa a odiar cada detalhe que torna a sua vida pesada. O desfecho disso é surpreendente e o final em aberto deixa para o leitor a escolha entre catarse ou punição.

Ao longo de todo o romance me identifiquei demais com a vida de Christine, não que eu viva num cenário de pós guerra, mas o massacre cotidiano do trabalho é muito semelhante, como a eterna preocupação de acordar cedo para não se atrasar, a rotina esmagadora e as vontades tolhidas.

“E, ao sentar-se de manhã, às oito horas, Christine está cansada – cansada não por ter completado e realizado alguma coisa, mas cansada de antemão de tudo aquilo que virá, sempre os mesmo rostos, as mesmas perguntas, os mesmo gestos, o mesmo dinheiro.” P. 161

Uma das passagens que melhor representa esse meu sentimento de pertencimento é a seguinte:

“Todas as manhãs, quando vou ao trabalho, vejo os outros saindo dos portões de suas casas, maldormidos, sem alegria e com rostos inexpressivos, dirigindo-se a um trabalho que eles não escolheram e não apreciam, e que nada lhes importa, e vejo-os novamente à noite nos trens, quando voltam, com chumbo nos olhares e nos pés, todos esfalfados sem objetivo, ou com um objetivo que não entendem.” P. 197

Há um trecho que em Êxtase da transformação me lembrou um outro livro, que é o 24/7  capitalismo tardio e os fins do sono, pois ele fala que o sono ainda é a única coisa possível que proporciona certo distanciamento da rotina, que recebe corpos exaustos e os faz esquecer de tudo.

A narrativa de Zweig é encantadora, a construção da ida à sociedade burguesa e regresso ao massacrante cotidiano do operário é de causar revolta e reflexão. Gosto MUITO de livros que abordam a temática trabalho e sociedade, pois me mostra o quanto ainda temos a progredir nesse sentido. O autor traz análises da exploração do Capital que ainda são atuais e nos faz pensar no quanto ainda temos que progredir para alcançar o bem estar social.

É cada vez mais comum encontrar essa exploração dentro das empresas disfarçadas de nomes bonitos com Coach ou qualquer coisa que o valha, chamam de motivação e dão míseros trocados de recompensa para desempenhos que adoecem os indivíduos com stresse, ansiedade e depressão. As vezes os objetivos que colocam em nossas cabeças, como ganhar um pouco mais ou ter um cargo X não vale todo o adoecimento mental que isso pode causar.

Stefan Zweig nasceu em 1881 e matou-se em 1942, no Brasil,  por não acreditar que haveria um fim a todo o terror nazista que se instaurava durante a Segunda Guerra Mundial. Zweig se refugiou no Brasil e chegou a publicar o livro Brasil, país do futuro enquanto esteve por aqui.