O outro lado da moeda | Oscar Wilde | Hedra

Olá, leitores!

Na minha última visita à biblioteca do Centro de Humanidades da UFC me deparei com o O outro lado da moeda e eu precisava levá-lo para casa, pois ao final das contas se tratava de uma obra do Oscar Wilde que eu nunca tinha ouvido falar sobre e, mais ainda, um romance homoerótico, gênero totalmente novo para mim.

O outro lado da moeda foi publicado anonimamente em 1893 e imagino o alvoroço que essa obra deve ter causado na época, pois as cenas de sexo são descritas ricamente e o romance homossexual dos protagonistas é muito lindo.

Oscar Wilde já havia relatado em uma de suas cartas que ‘o que se faz em quatro paredes haverá, um dia, de ser proclamado algum dia’, pois bem, aqui temos o fruto da declaração. Mesmo respondendo a processos por suas atitudes, Wilde não titubeou ao escrever O outro lado da moeda, obra que alguns estudiosos correlacionam com a paixão que o autor teve pelo jovem acadêmico Lord Alfred.

Esse livro repercutiu tanto que foi um dos responsáveis pela conscientização e alteração das leis inglesas referente ao homossexualismo. Em diversos momentos o autor trabalha essa questão com comentários que seguem a linha do “que mal estou fazendo para as outras pessoas? Estou apenas amando e sendo feliz”. O que, de fato, é bem lúcido e vanguardista para a época.

A história desse livro pauta-se no romance entre o aristocrata francês Camille e o pianista René. Essa relação é construída com traços shakespearianos de amor avassalador acima de qualquer coisa. Como René possui uma alma artística, cigana e até mesmo muito supersticiosa, a relação do casal é cheia de misticismo que mais parece novela das 6, aquela coisa forte de almas gêmeas que sentem as mesmas emoções e tal.

Um beijo é algo mais do que o primeiro contato sensual entre dois corpos; é a emanação de duas almas enamoradas.” P. 134

A narrativa é feita por Camille contanto sua história com René muitos anos depois de ocorrida. Ele conversa com alguém que não é nomeado, mas faz perguntas e interage com o narrador.

Como um bom romance erótico, a história é cheia de paixão e as cenas de sexo são consequências de tudo o que os personagens passam. Indo além disso, há cenas, como quando Camille visita a casa noturna que são puramente sexo, sem a romantização de praxe. Ou seja, mesmo seguindo a linha romanesca, o autor demonstra que ele está escrevendo para mostrar a realidade do que acontece, tanto na vida amorosa de um casal homossexual, como a triste vida de uma dama da noite que sofre de tuberculose.

Gostei muito de ter lido O outro lado da moeda, pois ele é um misto de características marcantes e inovadoras para a sua época. É romântico, sensual e naturalista, ou seja, mesmo imbuído de elementos característicos do romance erótico traz ainda as mazelas da sociedade inglesa da época.

Eu li: A cidade do Sol, de Khaled Hosseini

Como proposto aqui, li A cidade do Sol em maio. Ao ver que esse livro completaria 10 anos de lançamento agora em maio de 2017, corri para tirá-lo da estante e não me arrependi nem um segundo!

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A cidade do Sol é traz a história de duas mulheres que tiveram seus caminhos cruzados por causa da guerra no Afeganistão. A primeira delas é Mariam, a harami (filha bastarda) que viveu até a adolescência isolada de todos e sob o ensinamento da mãe, Nana, que sempre fazia questão de dizer que a única coisa que uma mulher precisa aprender na vida é a suportar. A outra mulher é Laila, a filha do professor, que cresceu com a perspectiva de que ela poderia ser o que ela quisesse, poderia se preocupar com os estudos pois não precisaria de um casamento para sustentá-la “o casamento pode esperar; a educação não. Você é uma menina inteligentíssima. É mesmo, de verdade. Vai poder ser o que quiser, Laila.” p. 105.

A criação de Mariam e o início do seu casamento são muito sofridos, em vários momentos parei a leitura para tentar assimilar tudo o que essa mulher passou nas mãos dos que conduziam a sua vida. A primeira figura a ensinar a Mariam o seu lugar social, sempre abaixo dos homens, foi a sua mãe “assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente” p.12. Logo em seguida, o desprezo advindo da família oficial de seu pai, que não a aceitavam por ter sido gerada fora do casamento, e, por fim, o casamento que lhe impôs o uso da burca e a escravidão do lar. Veja bem, quando falo escravidão do lar não é apenas o ter que cuidar da casa, pois isso é necessário à todos (independente do gênero), mas uma coisa é você limpar e manter a sua casa por questões de higiene e zelo e outra totalmente diferente é a imposição advinda do marido de não deixar a mulher sair de casa e querer tudo impecavelmente no lugar por que são coisas “de mulher”.

Quando chegamos à parte dedicada à Laila, o leitor se depara com uma situação mais amena, a possibilidade de uma mulher poder estudar, se formar e só casar se for de sua inteira vontade. Engraçado que mesmo sendo vista como a fagulha de esperança feminina até mesmo para as amigas do colégio “Giti e eu já vamos ter parido uns quatro ou cinco filhos cada. Mas você, Laila, você ainda vai nos deixar orgulhosíssimas. Vai ser alguém.” p. 147, a própria mãe de Laila ainda alfineta sobre a reputação de uma mulher por ser vista conversando com um homem várias vezes “A reputação de uma menina, principalmente de uma menina bonita como você, Laila, é uma coisa delicada. É como segurar um mainá. Basta soltar um pouco as mãos e pronto: ele sai voando” p. 143.

O encontro dessas duas mulheres tão diferentes se dá por causa do pano de fundo em que a história se ambienta, o cenário político da época, que baseia-se no Golpe liderado pelo Partido Democrático do Povo do Afeganistão apoiado pela União Soviética que culminou após a morte de Daoud Khan (1909 – 1978), um líder progressista que lutava pelos direitos das mulheres.

A liberdade e as oportunidades que as mulheres tiveram entre 1978 e 1992 eram agora coisa do passado. Laila ainda se lembrava de seu pai dizendo que aqueles anos de governo comunista eram “uma boa época para ser mulher no Afeganistão”. Desde que os mujahedins assumiram o poder, em abril de 1992, o nome do país passou a ser Estado Islâmico do Afeganistão. A Suprema Corte do governo de Rabbani era formada agora por mulás de linha dura que trataram de eliminar todos os decretos de período comunista que fortaleciam a posição das mulheres e de substituí-los por determinações baseadas na Shari’a, as estreitas leis islâmicas segundo as quais as mulheres têm que andar cobertas, são proibidas de viajar sem a companhia de um parente de sexo masculino, são punidas por apedrejamento se cometerem adultério.

P. 229

Esse cenário político mencionado em A cidade do Sol me fez pesquisar sobre o país e fiquei chocada ao saber que na década de 70 as mulheres usam saia a cima do joelho! Para quem nasceu depois do início da década de 90 não acompanhou as transformações que o país sofreu e talvez por isso tenham a imagem de que as mulheres afegãs andam cobertas de burca por causa de tradições muito antigas as quais ainda não conseguiram se libertar… Não! Esse costume tem menos de 30 anos!!!

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Mulheres afegãs andando nas ruas de Cabul em 1972

Ao longo desse livro, várias cenas me impressionaram e por diversas vezes eu li e reli trechos, as frases me tocavam de uma maneira ímpar, com um misto de beleza e tristeza. As reflexões postas por Khaled são reais e por isso tocam tanto o leitor.

Sobre a estrutura do livro, as cenas, apesar de cronológica, dão saltos e em muitos momentos deixam fios soltos para que o leitor entenda o que aconteceu a partir dos próximos acontecimentos, achei muito legal essa proposta. A composição das frases e dos diálogos foram pensados de maneira a deixar a leitura doce diante de tando fel ali demonstrado. Khaled é o autor do best selles O caçador de pipas e sua fama de bom escritor não perdeu-se em nenhum momento n’A cidade do sol, ao contrário, ele poderia ter o mesmo reconhecimento graças a esse seu segundo título.

Assisti: Lygia, uma escritora brasileira

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Ontem, dia 21 de abril, a TV Cultura apresentou um documentário inédito sobre a Lygia Fagundes Telles, claro que eu não poderia ter deixado de assistir.

Lygia, uma escritora brasileira teve uma hora de duração e foi composto por trechos de entrevistas com a autora, relatos de familiares, críticos e amigos da Lygia. A produção fez um rápido tour sobre a personalidade e carreira dela, pontou a representatividade de alguma de suas obras e sua paixão pela escrita.

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Lygia se entregou à Literatura desde muito cedo, seu primeiro livro foi publicado aos 15 anos ao custeio do pai, de uma forma avassaladora, tinha um emprego fixo (ela era Procuradora do Estado do Ceará e fez um trocadilho a respeito do cargo, passou 30 anos procurando não sabia o que e nunca havia se achado ali), mas queria viver só dos livros, o que lhe rendeu alguns percalços financeiros.

A autora escreveu de forma feminina, inovadora e política sem tornar-se apelativa. Mostrou uma personagem lésbica em seu romance, Ciranda de Pedra, laçado em 1954 e em o Seminário dos Ratos fez alegorias ao período da ditadura (ela diz que o livro estava tão chato que o responsável pela censura na época nem chegou a lê-lo por completo, ainda bem!).

Ao longo da produção, Lygia fala ainda sobre a sua amizade com a Clarice Lispector e com a Hilda Hilst, três mulheres tão diferentes e com tantas coisas em comum. Clarice, conhecida por sua introspecção; Hilda, por sua loucura imediatista; e Lygia, a doçura e simpatia em pessoa. Esclarece também o seu patriotismo e as dificuldades que o Brasil impõe aos seus filhos, o que concebe a constante necessidade de lutas advindas do povo.

Alguns críticos literários lamentam que a academia do Nobel de Literatura nunca tenha enxergado Lygia com toda a sua força e feminilidade, mas quem sabe um dia, né?!

Eu fui: XII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Ontem, dia 15 de abril, aproveitei o sábado lá na Bienal do Livro de Fortaleza, o evento deveria ter ocorrido no ano passado (para cumprir a periodicidade bienal), mas devido a alguns problemas financeiros alegados na época, o evento foi prorrogado para esse ano e só digo uma coisa: super valeu a pena esperar um pouco mais.

A bienal desse ano estava maior, com mais stands de livros e com atrações imperdíveis.

No sábado, o dia que eu fui, houve três mesas que me empolgaram muito para assistir, que foram: Lira Neto e Tércia Montenegro, Socorro Acioli e Luiz Ruffato e Valter Hugo Mãe e Claudene Aragão. Uma pena enorme que não consegui pegar a apresentação do Valter Hugo Mãe, pois já era tarde e eu precisei vir embora, mas as outras duas mesas foram muito boas, divertidas e emocionantes.

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A mescla de autoras cearenses com autores sulistas foi muito gratificante, pois de um lado tivemos o lado mais frágil da literatura (não no quesito qualidade, mas no quesito visibilidade): cearense e mulher e do outro, homens sulistas, o resultado? A conversa foi tão agradável que nem deu para notar qualquer diferença, eram escritores fazendo o que todos nós, que estávamos lá, amamos: falar sobre literatura.

Lira Neto faz Jornalismo Literário e é publicado pela Editora Companhia das Letras, seus mais recentes trabalhos são: História do Samba e a Biografia de Getúlio Vargas, seu site é: http://www.liraneto.com/.

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A Tércia Montenegro escreve para o Jornal O Rascunho, é professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará e o seu trabalho mais recente é Turismo para cegos, publicado pela Companhia das Letras. Blog pessoal da autora: https://literatercia.wordpress.com/.

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A Socorro Acioli é cearense, assim como a Tércia, jornalista de formação, tem uma coluna semanal no jornal O Povo, ministra oficinas (ateliês, como ela prefere chamar) sobre escrita criativa e a sua obra mais recente é A cabeça do santo, publicado pela Companhia das Letras. Engraçado que a Socorro escreve sobre causos cearenses e o mítico popular que é tão rico nas bandas de cá, os estudiosos enquadram sua obra em Realista Fantástico, mas nada mais é do que a realidade por aqui (Moreira Campos e Caio Porfírio Carneiro que o digam). Blog da autora (está desatualizado): https://socorroacioli.wordpress.com/.

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O Luiz Ruffato é mineiro, colunista do jornal El País, onde escreve sobre política atual, sua formação é em mecânica e quando se apaixonou pela Literatura não pensou duas vezes em trabalhar com isso. Seu trabalho mais recente é o Inferno Provisório, publicado pela Companhia das Letras. Interessante que Ruffato fez um micro guia sobre a Literatura Brasileira há um tempo e ao falar sobre a Literatura Cearense (sim, apesar de curto, o texto é bastante rico, pois enumera autores de todas as regiões brasileiras) ele elenca quatro escritoras que estão fazendo bonito por aqui e duas delas são: Tércia Montenegro e Socorro Acioli. Foi muito amor numa tarde só. Blog pessoal do autor onde ele comenta suas leituras: http://lendoosclassicosluizruffato.blogspot.com.br/.

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Em relação a compras, aproveitei pouco, pois os stands de R$10,00 estavam super-hiper-mega-power lotados, pois tinham livros que estão no auge, como O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares e Star Wars. Citando esses dois títulos já deve dar para imaginar a loucura que estava por lá.

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Aproveitei para completar a série Desaparecidos da Meg Cabot, eu só tinha o primeiro volume e encontrei os outros três por R$10,00 cada (não foi no stande específico desse preço, pasmem!), o que me deixou bem surpresa já que os livros da autora são bem salgadinhos aqui no Brasil.

Comprei também três livros técnicos que poderão ser úteis na minha faculdade, que foram: Comunicação Corporativa, do Rivaldo Chinem, Marketing no Brasil, do Riccardo Morici, e A economia irracional, organizado por Paul Slovic. Para quem não sabe, eu curso Secretariado Executivo na UFC.

Havia stands de Universidades brasileiras, como a UFMG, a UFC e a UNICAMP; de editoras grandes, como a Panini e a Companhia das Letras. Sem contar nos stands temáticos: cultura italiana e espanhola, religiosos, regionalista (o cordel, como sempre, estava bem chamativo) e infantil.

A exposição de livros ficava no térreo, no primeiro andar havia salas temáticas com exposições bem interessantes, como miniaturas, robôs, fósseis e apresentações circenses, uma pena que o tempo não me permitiu visitar essa ala. O segundo andar inteiro foi usado para as apresentações dos autores visitantes. O evento está sensacional.

A XII Bienal Internacional do Livro do Ceará está acontecendo no Centro de Eventos do Ceará, do dia 14 ao dia 23 de abril. 🙂

Eu Li: Utopia, de Thomas Morus

MORUS, Thomas. A Utopia. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

utopia_14669558772066sk1466955877bThomas Morus criticou em sua mais conhecida obra, a Utopia, o governo inglês de sua época. Referindo-se à política de cercamento como uma das principais responsáveis pelas mazelas do povo inglês.  O cercamento é uma grande revolução agrícola que acontece no mundo feudal, onde as terras passam a ser cercadas e a pertencer a apenas um senhor.

As famílias camponesas que eram acostumadas a retirar o seu sustento das terras veem-se de mãos abanando enquanto que os senhores das terras se esbaldavam em lucros provenientes de terras que antes alimentavam o povo e no momento alimentava apenas as ovelhas que geravam lã e eram vendidas ao mercado. Lã esta que custava muito e que os pobres camponeses não poderiam pagar por elas.

Essa falta de acolhimento, para Morus, era a responsável por gerar pais de famílias dispostos a roubar para levar o sustento para casa, se o próprio Estado não pode prover as condições mínimas para o seu povo viver, como cobrar deles agir corretamente ao invés de tentar sobreviver a mais um dia? Podemos notar isso quando o autor descreve o que ele considera uma injustiça: “Minha convicção íntima, eminência, é que é injusto matar-se um homem por ter tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser organizada de modo a garantir para cada um uma igual porção de bens.” P. 34-35

Essa falta de organização mencionada acima é também uma critica ao mal que as propriedades privadas acarretam, a desigualdade gerada entre os que ganham muito por proventos que vêm de suas terras e os que morrem de fome porque não têm oportunidade de trabalhar. Isso é ressaltado quando Morus ressalta que os utopianos dividem tudo o que plantam como se todos fosse parte de uma grande família.

Morus tece, ainda, um sistema de punir os transgressores sem precisar mata-los por seus crimes. A ideia de usar a sua força braçal para garantir o necessário à sua sobrevivência e os excedentes alimentar os cofres públicos, como uma ação de mão dupla que tira as pessoas da criminalidade, por oferecer itens básicos de sobrevivência, e gera renda ao Estado.

O primeiro livro que compõe a obra de Morus é montada ao estilo dos filósofos gregos, como um diálogo em que o viajado Rafael descreve os vários modelos de sociedade que conheceu ao longo de suas viagens ao lado de Américo Vespúcio.

Como um dos grandes pensadores do humanismo renascentista, Morus trata da condição humana no feudalismo decadente e logo em seguida propões a estruturação de uma sociedade ideal. O autor afirma que apesar de não acreditar que a tal ilha de Utopia exista, seria muito bom ver alguns aspectos democráticos de lá sendo colocados em prática no governo de seu país.

Eu li: Flush, da Virgínia Woolf

Sem sombra de dúvidas Flush é o livro mais leve e descontraído da autora inglesa Virgínia Woolf, conhecida por suas histórias contadas em fluxo de consciência.

Virgínia Woolf inspirou-se em cartas escritas por Elizabeth Barrett e Robert Bowning que vira e mexe mencionavam  Flush, o esperto cachorrinho da raça Speniel, para fantasiar e criar essa história, a autora aproveita e descreve trechos das cartas ao longo da narrativa. Fadigada de todo esforço que seu último livro demandou, As Ondas, Virgínia escreve Flush como uma brincadeira descontraída para distrair-se, mal esperava ela que essa sua “brincadeira” faria tanto sucesso.

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Imagem do Instagram

Flush conta a história do cãozinho da raça Speniel, que renegou todos os prazeres da vida livre, das brincadeiras ao sol, para acompanhar sua dona, a senhoria Barrett, que vivia trancada em seu quarto devida sua saúde. Vez ou outra Flush saía à rua para passear, mas sempre guiado por sua coleira. Apesar de ser apenas um cãozinho, Flush conseguia diferenciar o enorme abismo existente entre as pessoas e os cães daquela sociedade, ele, por exemplo, um cão aristocrata que tinha direito a uma tigela vermelha e a uma guia na hora de passear, ao contrário de tantos vira latas que comiam o que encontravam na sarjeta e não tinham um dono para proporcioná-lhes regalias.

[…] Reparou com ar de aprovação no pote vermelho em que bebia sua água – marca dos privilégios de sua posição -; abaixou sua cabeça lentamente para permitir que a guia fosse presa à coleira – marca do preço que se tem que pagar por isso. Nessa ocasião, quando a Senhoria Barrett o viu olhando-se no espelho, estava errada. Ela pensou que ele parecia um filósofo meditando a respeito da diferença entre aparência e realidade. Ao contrário, ele era um aristocrata observando seus atributos. P. 37

Virgínia aproveita a inocente visão do cachorro Flush para alfinetar esses conflitos sociais, principalmente quando ela descreve o submundo existente ao lado dos quartos confortáveis  elegantes de Londres. Essa história traz à tona, também, as diferenças culturais entre países, a valoração exagera de certos atributos que são insignificantes em outros locais.

Com uma escrita leve, as 141 páginas desse livro proporcionam uma leitura rápida e bonita. Ressalto que há momentos em que Flush traz passagens melancólicas, um verdadeiro sofrimento para quem gosta muito de cães, a exemplo as passagens em que Flush é reprimido por suas atitudes mesquinhas e ele tenta entender porque está sendo “rejeitado”, ou quando ele passa maus bocados nas ruas perversas de Londres.

Fiquei aflita em alguns momentos desse livro, preocupada e com pena do cachorrinho, mas em tantas outras me senti recompensada com as comparações sociais e culturais que Virgínia aborda, ou seja, Flush é um livro descontraído, emocionante e rico.

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O impossível de Cocteau e Gaiman

Engraçado quando começamos a ler um autor e nos deparamos com pensamentos parecidos aos nossos, mais atordoante quando o autor fala de maneira tão eloquente exatamente o que você vem pensando há um tempo  que conclui a frase pensando “era exatamente isso que eu queria dizer quando pensava nisso!!”.

Espantoso, singular (?), curioso. Quantas pessoas podem pensar a mesma ideia em níveis diferentes?

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Instagram 

Parei para pensar nisso quando estava lendo o discurso Faça boa arte, do Neil Gaiman, e me deparei com a frase:

“Se você não sabe que é impossível fica mais fácil fazer” (o livro não é paginado)

E, claro, lembrei da célebre frase de Jean Cocteau que tanto rodeia pelo Facebook:

“Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez”

Tá, influencias podem existir, isso é óbvio e nada mais do que normal, mas o que me chamou atenção foi como as palavras soaram mais reais para mim na voz de Neil Gaiman. Lia e relia a frase de Cocteau e a achava bonita, inspiradora, mas sem nenhum significado factual plausível para o meu dia a dia, talvez por hipossuficiência minha de conseguir chegar a essas entrelinhas ou apenas me identifiquei por causa do contexto em que li a frase de Gaiman, ainda não sei.

Frases soltas nos trazem esse efeito de beleza e incompletude. Palavras bonitas que tem um significado rico em seu contexto, mas que perdem parte de seu valor ao se desprenderem, típico das inúmeras frases retiradas do livro O pequeno príncipe. Para quem retirou os quotes dos livros aqueles pensamentos são completos, mas é delicado topar com essas frases por acaso, vocês não acham?

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Eu li: A viagem

A viagem , primeiro romance da inglesa Virginia Woolf, conta a história da jovem Rachel Vinrace que foi criada pSAMSUNG CAMERA PICTURESelo pai pelas tias de forma protetora sem muito contato com pessoas diferentes, apenas aquele habitual grupo de amigos.

Rachel passa a conhecer novas pessoas quando viaja com sua tia Helen para o Brasil. No livro não diz, especificamente, que vieram para o Brasil, mas as referências nos faz supor que o seja, pois elas estão às margens do Amazonas e os barcos saem de lá carregando borracha, o que caracteriza o norte brasileiro.

O leitor percebe o crescimento da protagonista quando ela passa a tomar decisões sérias por conta própria, como quando ela resolve que não mais irá à igreja e expõe seus argumentos, antes dessa nova percepção, Rachel ia à igreja fielmente por costume familiar e nunca havia parado para pensar a respeito daquilo.

As relações interpessoais compõem o ponto que mais chama a atenção do leitor durante a leitura, principalmente quando Rachel começa a perceber as nuances de cada personagem de acordo com seus quartos e o que cada aposento pode revelar de seus hóspedes. As conversas de cada personagem, que não são poucos, também enriquece essa diferenciação de caráter e manias.

– Assim que alguma coisa acontece… pode ser um casamento, um nascimento ou morte… de modo geral preferem que seja morte… todo mundo quer nos ver. Insistem em nos ver. Não têm nada a dizer; não dão a mínima para nós; mas temos de ir ao almoço, chá ou jantar, e se não vamos somos condenados. É o cheiro de sangue – continuou – Não as culpo; apenas, se eu poder evitar, não terão o meu! P. 457

Virgínia Woolf consegue com maestria a máxima dos escritores de mostrar e deixar o leitor tirar suas próprias conclusões sobre os sentimentos envolvidos em cada cena ao invés de apenas descrevê-la. Uma cena que revela bem isso é quando Rachel está transtornada e senta-se numa mesinha ao final do corredor e se pergunta o que ela está fazendo ali, do que vale tudo aquilo que ela está vivendo? O sentimento passado ao leitor é de profunda angústia e auto conhecimento.

A viagem pode parecer um romance enfadonho aos que buscam apenas uma história superficial onde coisas acontecem, mas para extrair a essência de Virgínia é necessário olhos atentos e pacientes, pois a história em si não tem muitos clímax ou reviravoltas (apenas uma, ao meu ver), mas a construção da narrativa e a forma de nos contar são únicas.

Um adendo: para quem conhece a história da autora encontrará pequenas nuances que remetem a sua vida, a Fran do blog Livro e Café chegou a chamá-las de preságios. A mesma frase que está em sua carta de despedida ao marido, escrita um pouco antes do suicídio, a descrição da sensação de estar se afogando e também sua relação com mulheres (quando ela fala que é complicado se relacionar com homens e que Terence nunca entenderia o que ela sente).

– Talvez eu peça demais – continuou. – Talvez não seja realmente possível ter o que eu quero. Homens e mulheres são diferentes demais. Você não pode entender… não entende. P. 448

Fiz diário de leitura para esse livro, então você pode conferir mais quotes e minhas impressões durante a leitura nesse link.

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Poe & Sherlock

Que Edgar Allan Poe (1809 – 1849) foi um dos grandes influenciadores da literatura mundial isso já é sabido por todos, mas você sabia que ele pode ter influenciado, inclusive, o surgimento do detetive inglês Sherlock Holmes?

Poe criou um d220px-poe_rue_morgue_byam_shawetetive peculiar, o cavaleiro Augustine Dupin, que mora em Paris e tem suas histórias contadas por um colega de quarto. Peculiar porque por vezes ele trabalha sem receber dinheiro, apenas pela diversão de inocentar alguém culpado injustamente (Os assassinatos da rua Morgue, 1841), enquanto que em outra história ele procura por recompensas em dinheiro (A carta roubada, 1844). Além desses dois contos citados, Dupin aparece também em O mistério de Marie Morgêt, 1842.

Arthur Conan Doyle (1859 – 1930), escritor e médico, afirma ter se inspirado em um professor de Edimburgo, o cirurgião Dr. Joseph Bell, que era capaz de fazer deduções sobre os hábitos das pessoas ao observá-las, Doyle, impressionado, resolveu aguçar essa habilidade em seu personagem Sherlock (1887 – 1927). la-et-jc-sir-arthur-conan-doyle-victim-of-police-conspiracy-archives-show-20150318

Com características de Augustine Dupin e de Joseph Bell, poderíamos dizer que Sir. Arthur Conan Doyle inspirou-se em ambos para escrever as histórias de Sherlock Holmes, histórias essas que resultaram de horas e horas de um consultório oftalmológico em que nem um só paciente entrou durante muito tempo.

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Exposição “O Quinze, de Rachel, como eu o vi”

Durante a primeira semana de dezembro estava disponível na biblioteca do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará (UFC) a exposição O Quinze, de Rachel, como eu o vi, uma iniciativa do grupo Iluminuras.

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Informações sobre a exposição em bordado

O grupo Iluminuras tem inspiração nas tradições medievais de contar estórias por meio da criação de imagens, eles recontam a Literatura com a criação de bordados. A proposta do grupo começou como uma homenagem ao centenário de nascimento do contista cearense José Maria Moreira Campos. Em 2015, a homenagem foi aos 85 anos da obra clássica de Rachel de Queiroz, O Quinze.

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Texto feito em bordado manual
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r Retrato de Rachel de Queiroz em bordado artesanal

A exposição contou com a criação de 20 bordadeiras que participam de uma espécie de clube de leitura como base para a criação das peças. Com coordenação das professoras Neuma Cavalcante e Odalice Castro e apoio do Museus da Imagem e do Som, o clube de leitura e curso de “bordado literário”já tem o cronograma para o ano de 2016:

  • 2016.1: A casa, de Natércia Campos;
  • 2016.2: O recado do morro (Corpo de Baile), de João Guimarães Rosa.

O que achei mais bacana do grupo foi a dedicação aos autores locais, um incentivo muito bacana para ler e trabalhar artisticamente tais obras.

Ao chegar ao local da exposição o visitante logo é recebido por uma decoração caprichada feita com peças bordadas, informações sobre a obra trabalhada e elementos da cultura cearense.

 

Os quadros feitos pelas artesãs estavam dentro do auditório da biblioteca e continha uma imagem para cada capítulo do livro. Não preciso nem ressaltar que os quadros que representavam a morte do menino Josias me comoveram, essa é uma das partes do livro mais emocionantes para mim e foi muito bacana essa experiência de reviver tais sentimentos por meio do artesanato local.

Foi inspirador visitar a exposição, primeiramente por conhecer artesãs que se dedicam ao bordado usando a literatura como temática para seus trabalhos e em segundo, poder rever a estória de um livro tão maravilhoso sob outra perspectiva. Ah, claro, e por se tratar de uma obra da Literatura Cearense, que tanto anseio por conhecer mais e melhor.

Após a exposição os quadros estarão disponíveis para visitação no Museu da Imagem e do Som, localizado na Av. Barão de Studart, 410, em Fortaleza.