Sex Education ou Life Education?

A imagem e sinopse dispostas na Netflix para Sex Education não chamaram minha atenção, me pareceu uma comédia que falava sobre sexo e ponto. Até que um colega de trabalho me indicou a série e disse que eu ia gostar bastante por causa dos temas que ela aborda, que são típicos de minhas polêmicas diárias na mesa do almoço.

Então, fui lá assistir. Em poucas palavras, a história da série se resume a um rapaz, Otis, que ajuda os adolescentes do colégio a resolver seus problemas sexuais, toda a sabedoria do jovem advém dos anos em que ouviu a mãe exercer sua profissão, terapeuta sexual/ de casais. Para além desse serviço, há triângulo amoroso, rotina escolar e muita reflexão sobre dramas atuais.

Sim, a série com toque de comédia e tom adolescente traz temas bastante polêmicos e reais, como aborto, homofobia, frustração e condição feminina. Para uma série que começou com uma cena de sexo e tem o elenco formado basicamente por adolescentes, os assuntos citados anteriormente contrataram de uma maneira brutal e chegou a me dar um nó na garganta e vontade de abraçar a Netflix.

Vamos por partes.

O episódio que trata sobre a questão do aborto traz uma personagem que está pela segunda vez na clínica para realizar o procedimento e ela já tem três filhos, em um dado momento ela relata que se arrepende mais pelos filhos que teve do que pelos os que ela optou por não ter, já que ser uma péssima mãe é pior do que não ser mãe. É possível supor que essa personagem é uma possível usuária de drogas pelo seu jeito eufórico e pelas unhas sujas, mas essa parte não fica clara, então cabe a interpretação.  Em geral, esse é o argumento utilizado por quem é pró aborto, já que a interrupção da gestação causaria menos problemas do que uma criança sem nenhum amparo.

Logo depois, o episódio que me deixou super mal foi o que o Eric, amigo de Otis, sai de casa vestido de cosplay de uma personagem de determinado filme cult na cultura LGBTQI+, em seu percurso ele é furtado e é agredido por estar transvestido. Nos dias seguintes ele opta por sufocar sua verdadeira personalidade por causa da crueza do mundo em não aceitar sua realidade. Ao chegar em casa humilhado e chorando logo depois do ocorrido, a frase que o pai fala pra ele é dura e verdadeira “se é essa a vida que você quer, você tem que aprender a ser mais forte”. E essa cena me deixou refletindo sobre o quão mais difíceis são os degraus da vida de quem se assume e enfrenta uma realidade ainda muito preconceituosa. Quem se difere um pouco do que foi estabelecido como o “normal” precisa exercitar essa força para lutar e sobreviver diariamente.

As frustrações dos adolescentes estão presentes em todos os episódios e não falo apenas de frustração sexual, como o título da série sugere. O atleta que tem horários e alimentação rigorosos, mas que sofre de ansiedade e vomita todos os dias depois dos treinos; o filho do diretor que se sente deslocado em casa, na escola e não aceita o fim do relacionamento, as constantes decepções e pés na jaca que levaram Adam a ingressar no colégio militar obrigatoriamente; cito novamente Eric, que se absteve de sua própria personalidade por um tempo para viver num mundo ‘comum’ e angustiante. Vários são os exemplos que Sex Education traz para levantar o assunto.

A condição feminina é apresentada também em vários episódios, como o medo de ter fotos íntimas vazadas, o tabu relacionado a roupas (é lindo ver Ola ir ao baile de terno e não de vestido) e a importância da masturbação feminina. Uma cena, em especial, me deixou pensativa: quando Maeve explica porque tem o apelido de ‘morde pau’, isso começou quando ela tinha 14 anos e um colega do colégio pediu pra ficar com ela e a garota recusou, desde então sua reputação vem sendo denegrida por comentários maldosos, aqui levanta-se a questão de como a ‘reputação/ imagem’ das mulheres fica a mercê dos homens, basta um veredito deles para surgir um estigma.

Ufa… Eu poderia levantar vários outros pontos ou comentar cada um dos episódios e haveria assunto para várias conversas, mas deixo aqui pontas em aberto para que você possa assistir, refletir e levantar os temas nas próximas rodas de conversa, assim como passei a usar a série para exemplificar meus temas polêmicos na mesa do almoço do trabalho.

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