A vida intelectual | Cap. 1 – A vocação intelectual

Obra publicada originalmente em 1921 por Antonin-Dalmace Sertillanges (1863-1948) e revista pelo autor nos anos de 1934 e 1944, tem como principal inspiração os trabalhos de São Tomás, em especial o ‘dezesseis preceitos para adquirir o tesouro da ciência‘.

Declaradamente tomista e escrito por um padre, ‘A vida intelectual’ possui um fundo religioso que pode incomodar aos não teístas. O autor propõe-se a orientar o espírito intelectual cristão para uma vida de estudos.

O primeiro capítulo é titulado ‘A vocação intelectual’ e possui três divisões, a saber: O intelectual é um consagrado, O intelectual não é um isolado e O intelectual pertence a seu tempo.

No primeiro tópico, O intelectual é um consagrado, Sertillanges (2019) aponta a vida intelectual como uma vocação que exige penetração e esforço metódico, é interessante o uso do termo vocação, pois não estamos lidando com um trabalho que pode ser feito por qualquer um, uma vez que deve ser a dedicação de uma vida, “A vida de estudos é austera e impõe pesadas obrigações. […] requer uma dedicação que poucos são capazes.” (SERTILLANGES, 2019, p.27)

Para tanto, claro, é necessário que quem resolveu se dedicar à vida intelectual tenha o estudo como a sua recompensa espiritual, aquilo que lhe dá um verdadeiro prazer, que não o faz por obrigação ou com impaciência.

A busca pela verdade é um dos pilares para o desenvolvimento da vida intelectual, deve-se amar buscá-la, ainda mais quando se é um consagrado. A consagração do tempo e do coração faz parte dessa dedicação, pois somente com o investimento do tempo e com a diligência é que se terá uma real busca e consentimento pela verdade.

Ao evocar a figura do intelectual no imaginário popular, logo pensamos na pessoa que só estuda e não faz mais nada, mas o autor deixa claro que se você tem apenas 2 horas por dia e as dedica com afinco à vocação, mesmo que lento, o progresso se apresentará. Sertillanges, inclusive, aponta a importância de se manter um ofício e de como as parcas horas ganham outro significado, pois exigem ainda mais comprometimento e dedicação, afirmando ainda:

“O que vale mais do que tudo é o querer, um querer profundo: querer ser alguém, chegar a algum lugar; ser já, pelo desejo, esse alguém qualificado por seu ideal.” (SERTILLANGES, 2019, p.31)

Essa motivação na busca pela verdade mesmo nas horas e recursos financeiros limitados me lembrou bastante o personagem Jude, de Thomas Hardy, que mesmo em condições precárias para sobreviver, ele não deixa de contar as moedas para comprar suas gramáticas de Latim e de Grego, estudando até mesmo no fundo da carroça que usava para trabalhar (HARDY, 2019).

Para além dessa dedicação diária aos estudos, o autor menciona a importância de buscar a Deus diariamente em seu tempo de estudo. Kempis (2019), demonstra que não adianta estudar e conhecer a ciência se não buscar a humildade semelhante a de Jesus, pois a soberba corrompe ao ansiar por aplausos e por reconhecimento como resultado de seu esforço, somente a vida santa aos pé de Deus é que pode preencher o coração do homem.

No tópico seguinte, O intelectual não é um isolado, o autor diferencia a Solidão do Isolamento, pois a Solidão é composta daquele momento de meditação, de dedicação à mente e ao espírito, enquanto que o Isolamento é uma mesquinharia que deforma a personalidade.

Mesmo que haja a necessidade de manter a solidão para o auto desenvolvimento, cair nas armadilhas do isolamento é um risco. A interação social faz parte da vida do intelectual, mas não em demasia e não sem necessidade, pois é o contato com o mundo que tornará possível aplicar e conjecturar os temas estudados nos momentos solitários.

A terceira parte do primeiro capítulo, O intelectual pertence a seu tempo, ressalta a importância de identificar o seu gênero de estudo o quanto antes para iniciar imediatamente o seu tempo de dedicação. Fazer essa delineação é essencial para evitar a desgovernança a que estamos sujeitos.

Pode-se perceber que nesse primeiro capítulo, Sertillagens faz o alicerce da vida intelectual, mostrando, principalmente, que ela se faz por meio da vocação. A busca pela verdade é o Norte e o caminho a seguir é traçado com base em sua escolha de estudo, os recursos são a dedicação e o amor por essa incessante jornada.

Referências

HARDY, Thomas. Jude, o obscuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. São Paulo: Principis, 2019.

SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A vida intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos. São Paulo: Kírion, 2019.

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