Eu li: Sejamos todos feministas

Em Sejamos Todos Feministas, Chimamanda tece alguns ocorridos em sua vida e na vida de conhecidos próximos que a fizeram refletir sobre a sociedade machista em que estamos inseridos. Ela rebate as criticas ao feminismo demostrando que ser feminista não é odiar os homeSEJAMOS_TODOS_FEMINISTAS__1421353639414193SK1421353639Bns, nem muito menos deixar de se depilar e querer mandar nos homens, ser feminista é reconhecer que existe diferença de gênero e lutar pelo fim desse sexismo.

Os relatos de casos são jogados para o leitor como uma forma de esclarecer os pensamentos da autora. A formação do texto em si é um pouco incômoda, pois muitas vezes os assuntos são encerrados de maneira brusca para logo começar outro exemplo. Entendo que esse livro é uma adaptação de uma palestra e que essa estranheza que me causou possa ser fruto dessa conversão de formatos, mas não poderia deixar de mencionar.

Sejamos Todos Feministas é um livro para ser lido por todas as pessoas, como o próprio título sugere, independentemente se você é homem, mulher, feminista ou acha que as mulheres já conquistaram muito. Lutemos todos pelo fim da desigualdade de gênero.

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Eu li: Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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Lido em e-book

Lygia foi consagrada como contista da década de 40 e apenas dez anos depois (1954, para ser mais precisa) publicou seu primeiro romance, o Ciranda de Pedra, que já ganhou duas adaptações homônimas pela Rede Globo, uma em 1981 e outra em 2008. O sucesso na escrita de estórias curtas foi além, se estendeu para outros gêneros e resultou nessa incrível obra, clássico da Literatura Brasileira.

Considerando sua época de publicação, Ciranda de Pedra é um romance existencialista transgressor, que aborda temas pouco citados até então, como: homossexualismo, traições, doenças psicológicas, desestruturação familiar e questões femininas.

O livro é divido em duas partes, que marcam a infância e o amadurecimento de Virgínia. Quando criança, a protagonista vive situações difíceis de lidar, como a loucura da mãe, o perene sentimento de rejeição vindo do pai e o deslocamento social na presença das irmãs e dos amigos.

Após concluir os estudos, Virgínia volta para a casa do pai e tem que encarar de frente tudo aquilo que a afligia na infância. As coisas mudaram, mas a protagonista ainda guarda muitos sentimentos daquele tempo antigo, o que a surpreende em alguns momentos.

A trajetória de Virgínia é marcada por perdas e ressentimentos, mas sua força de vontade demostra a força de uma mulher para superar seus medos e vencer na vida sem depender de ninguém. Um exemplo muito claro disso é que as irmãs de Virgínia, Bruna e Otávia, são invejadas pela beleza quando crianças, mas são sustentadas pelo pai quando adultas mesmo depois de casada, enquanto que Virgínia, escarnecida por ser diferente e nunca se enquadrar em nada, é a única que se forma e que faz questão de ganhar seu próprio dinheiro (lembrem-se de que estamos falando da década de 50).

Poucas palavras poderiam definir Ciranda de Pedra, bem como todas elas talvez não conseguissem descrevê-lo por completo. A narrativa simples, cheia de lembranças e as emoções carregadas, nada é meio termo nesse romance, é calmaria ou fúria.

Eu li: Turismo para cegos, de Tércia Montenegro

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Como falei lá no Snap (avecsamantha), a Tércia foi minha professora quando eu fazia Letras na UFC e sua personalidade sempre chamou minha atenção. Atualmente, que considero meu momento de redescoberta da Literatura Cearense, tenho valorizado mais as obras locais e em virtude desses dois pontos, resolvi dar uma chance à escrita da Tércia.

“Turismo para cegos” foi publicado, com o incentivo do programa Petrobrás Cultural, pela Companhia das Letras e foi um dos primeiros trabalhos da autora como romancista, pois até então ela trabalhava bastante com contos.

Falando brevemente da estória, “Turismo para cegos” nos apresenta um casal nada convencional, Pierre, um servidor público insosso em sua essência, e Laila, uma professora de artes que ficou cega por causa de uma doença. A narrativa é contada por uma vendedora da loja Pet Shop onde o Pierre e Laila foram comprar um cão guia e pelos relatos de Pierre durante um encontro com a vendedora numa cafeteria.

Os três personagens centrais dessa estórias são bem caricatos, distintos e tomados por reflexões sobre aquilo que os rodeiam. Eles são construídos para mostrar ao leitor as máscaras que cada um carrega e também a condição a que eles se submetem por causa de suas escolhas.

Escancarou seu ímpeto, trouxe visitas sem aviso, e ainda por cima visitas perturbadoras como só pai e mãe conseguem ser. P. 125

Pierre, que é feio e sem muita perspectiva de viver uma vida que possa valer a pena, encontra um sentido para a sua vida ao dar a Laila a oportunidade de viajar e conhecer, a sua maneira, novos lugares, viver novas experiências. Essa relação de troca custou caro, financeiramente e emocionalmente a ambos. Uma relação nada saudável que foi baseada na conveniência. Em alguns momentos eles apresentam certo misantropismo, como quando falam de pessoas mais velhas, ou recém nascidos .

Aos poucos a personalidade manipuladora de Laila vai consumindo a Pierre. Ao meu ponto de vista, Laila tinha seus acessos de excentricidade por se sentir liberta de algo que sempre lhe aprisionou, concomitante a aceitação de sua nova condição.

Para quem acompanha a Tércia em seu blog pode notar claramente que ela se colocou dentro desse livro, tanto nos personagens como nas cenas descritas, como no caso do cacto enfeitado para o natal e o desprezo pelas luzes natalinas, bem como sua paixão por arte, fotografias e viagens.

Uma coisa me incomodou na construção do enredo, quando certos relatos não seriam possíveis de serem conhecidos, pois Laila havia guardado alguns segredos que são contados por Pierre, mesmo que ela nunca os tenha revelado a ele, como a mania que ela tinha de criar novos rostos para as pessoas depois de ouvir sua voz, mas mesmo assim Pierre os descreve em sua narrativa.

“Turismo para cegos” trabalha bem aquela velha questão sobre as máscaras sociais numa narrativa um pouco estática, sem clímax marcante e com capítulos curtos. Pode até parecer que a estória não leva a lugar nenhum, mas as inúmeras reflexões podem ser feitas nas entrelinhas, um charme de escrita.

Publicado originalmente no blog WMB