Heroínas negras brasileiras| Jarid Arraes | Pólen

ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Antes de tudo quer pedir que, caso você trabalhe em escola, tente levar esse livro para seus alunos, ele é mais do que necessário!

Jarid fez um trabalho de mestra, reuniu histórias de mulheres negras que participaram da construção do nosso país, isso é um marco e uma leitura essencial para todos. Isso porque já é difícil se ter heroínas, negras então são quase raras, isso ficou bem evidente pra mim quando li a história de Aqualtune, princesa africana que foi vendida como escrava de procriação para o Brasil, lutou mesmo grávida para proteger Palmares e (pasmem!) foi avó de Zumbi dos Palmares (só lemos sobre ele na escola, sua mãe também foi guerreira na luta contra a escravidão).

O livro é composto de ilustrações em xilogravura, cordéis que contam a história dessas figuras inspiradoras e um breve resumo da vida delas em texto corrido, para quem se interessar em pesquisar mais depois.

E depois de conhecer 15 mulheres maravilhosas, fiquei a imaginar a quantidade de nomes que se perderam por puro racismo e misoginia, esse trabalho deve ser constante e espero ver mais obras assim no mercado.

Eu fui: XII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Ontem, dia 15 de abril, aproveitei o sábado lá na Bienal do Livro de Fortaleza, o evento deveria ter ocorrido no ano passado (para cumprir a periodicidade bienal), mas devido a alguns problemas financeiros alegados na época, o evento foi prorrogado para esse ano e só digo uma coisa: super valeu a pena esperar um pouco mais.

A bienal desse ano estava maior, com mais stands de livros e com atrações imperdíveis.

No sábado, o dia que eu fui, houve três mesas que me empolgaram muito para assistir, que foram: Lira Neto e Tércia Montenegro, Socorro Acioli e Luiz Ruffato e Valter Hugo Mãe e Claudene Aragão. Uma pena enorme que não consegui pegar a apresentação do Valter Hugo Mãe, pois já era tarde e eu precisei vir embora, mas as outras duas mesas foram muito boas, divertidas e emocionantes.

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A mescla de autoras cearenses com autores sulistas foi muito gratificante, pois de um lado tivemos o lado mais frágil da literatura (não no quesito qualidade, mas no quesito visibilidade): cearense e mulher e do outro, homens sulistas, o resultado? A conversa foi tão agradável que nem deu para notar qualquer diferença, eram escritores fazendo o que todos nós, que estávamos lá, amamos: falar sobre literatura.

Lira Neto faz Jornalismo Literário e é publicado pela Editora Companhia das Letras, seus mais recentes trabalhos são: História do Samba e a Biografia de Getúlio Vargas, seu site é: http://www.liraneto.com/.

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A Tércia Montenegro escreve para o Jornal O Rascunho, é professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará e o seu trabalho mais recente é Turismo para cegos, publicado pela Companhia das Letras. Blog pessoal da autora: https://literatercia.wordpress.com/.

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A Socorro Acioli é cearense, assim como a Tércia, jornalista de formação, tem uma coluna semanal no jornal O Povo, ministra oficinas (ateliês, como ela prefere chamar) sobre escrita criativa e a sua obra mais recente é A cabeça do santo, publicado pela Companhia das Letras. Engraçado que a Socorro escreve sobre causos cearenses e o mítico popular que é tão rico nas bandas de cá, os estudiosos enquadram sua obra em Realista Fantástico, mas nada mais é do que a realidade por aqui (Moreira Campos e Caio Porfírio Carneiro que o digam). Blog da autora (está desatualizado): https://socorroacioli.wordpress.com/.

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O Luiz Ruffato é mineiro, colunista do jornal El País, onde escreve sobre política atual, sua formação é em mecânica e quando se apaixonou pela Literatura não pensou duas vezes em trabalhar com isso. Seu trabalho mais recente é o Inferno Provisório, publicado pela Companhia das Letras. Interessante que Ruffato fez um micro guia sobre a Literatura Brasileira há um tempo e ao falar sobre a Literatura Cearense (sim, apesar de curto, o texto é bastante rico, pois enumera autores de todas as regiões brasileiras) ele elenca quatro escritoras que estão fazendo bonito por aqui e duas delas são: Tércia Montenegro e Socorro Acioli. Foi muito amor numa tarde só. Blog pessoal do autor onde ele comenta suas leituras: http://lendoosclassicosluizruffato.blogspot.com.br/.

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Em relação a compras, aproveitei pouco, pois os stands de R$10,00 estavam super-hiper-mega-power lotados, pois tinham livros que estão no auge, como O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares e Star Wars. Citando esses dois títulos já deve dar para imaginar a loucura que estava por lá.

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Aproveitei para completar a série Desaparecidos da Meg Cabot, eu só tinha o primeiro volume e encontrei os outros três por R$10,00 cada (não foi no stande específico desse preço, pasmem!), o que me deixou bem surpresa já que os livros da autora são bem salgadinhos aqui no Brasil.

Comprei também três livros técnicos que poderão ser úteis na minha faculdade, que foram: Comunicação Corporativa, do Rivaldo Chinem, Marketing no Brasil, do Riccardo Morici, e A economia irracional, organizado por Paul Slovic. Para quem não sabe, eu curso Secretariado Executivo na UFC.

Havia stands de Universidades brasileiras, como a UFMG, a UFC e a UNICAMP; de editoras grandes, como a Panini e a Companhia das Letras. Sem contar nos stands temáticos: cultura italiana e espanhola, religiosos, regionalista (o cordel, como sempre, estava bem chamativo) e infantil.

A exposição de livros ficava no térreo, no primeiro andar havia salas temáticas com exposições bem interessantes, como miniaturas, robôs, fósseis e apresentações circenses, uma pena que o tempo não me permitiu visitar essa ala. O segundo andar inteiro foi usado para as apresentações dos autores visitantes. O evento está sensacional.

A XII Bienal Internacional do Livro do Ceará está acontecendo no Centro de Eventos do Ceará, do dia 14 ao dia 23 de abril. 🙂

Eu Li: O Tempo em Estado Sólido, da Tércia Montenegro

Apesar do trocadilho com o livro do sociólogo Zygmunt Bauman, O Tempo em Estado Sólido não tem a proposta de desmentir teorias sobre a sociedade moderna nem nada do tipo. Ele é, na ve13427896_1037000099699641_3529101958537950954_nrdade, uma reunião de contos da escritora cearense Tércia Montenegro.

O livro é curtinho, a linguagem da autora e a diagramação contribuem para uma leitura muito rápida e fluida. Esse é o terceiro livro da Tércia que leio e diferentemente de seu romance Turismo Para Cegos, ela não se transcreve tanto em meio aos personagens, mas, assim como em Linha Férrea, ela deixa transparecer bastante suas principais influências literárias (talvez seja uma característica de suas estórias curtas, mas creio que ainda preciso ler mais obras dela para chegar a essa conclusão).

Em O Tempo em Estado Sólido os contos são intercalados entre narrativas em primeira e terceira pessoa e também entre personagens que aprecem hora como protagonista hora como personagem secundário. A brincadeira com o a solidez das coisas e dos sentimentos são tidas em alguns poucos contos, mas bem presente nessa brincadeira de vai e vem de personagens, o que o outro está fazendo enquanto isso acontece, o que os levou até ali etc.

 

Eu li: O Menino Mágico

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O Menino Mágico, de Rachel de Queiroz

O Menino Mágico, livro infantil da Rachel de Queiroz, foi selecionando pela Unesco, em 1971, como um dos livros para representar o que há de melhor em literatura para crianças e jovens de até 14 anos (livros “excepcionais que serviriam para melhor compreensão entre povos), foram selecionados livros de 57 países, sendo 10 livros de cada um. Como não resisto a uma boa literatura local, não podia deixar de ler mais um da Rachel.

Raquel de Queiroz conta a estória de um menino que tinha seus desejos de “faz de conta” realizados de maneira inesperada, que muitas vezes deixa o leitor em dúvida se as feitorias são mesmo mágicas ou acasos do destino, mas ao final é possível ter certeza se o menino é mesmo mágico ou não (claro que não vou contar, né?).

Como todo livro infantil, Rachel aborda temas pertinentes do cotidiano infantil com aquele tom de aprendizado ao final, as típicas lições sociais de não mentir, confiar na família etc.

Alguns motivos que me levariam a ler O Menino Mágico (ou indicar) para uma criança são: Rachel não empobrece a linguagem escrita para falar para crianças; o livro estimula a imaginação infantil, principalmente por trazer uma fantasia com um toque de verossimilhança (quem nunca brincou de faz de conta e viu nitidamente suas ideias tornando-se quase reais?); e as lições não são escancaradas como nas fábulas, mas trazem vários ensinamentos de maneira sutil ao longo da narrativa.

As ilustrações do livro também trazem a estória para mais perto das crianças, pois não temos aqueles trabalhos gráficos super caprichados, mas personagens desenhados em linhas simplórias, como os desenhos da maioria das crianças.

Então, O Menino Mágico está mais do que indicado para a criançada e se o leitor for cearense, está mais indicado ainda, principalmente pela oportunidade de aprender o significado de algumas palavras locais que já caíram um pouco em desuso, mas que fazem parte da história do estado em que vive.

Exposição “O Quinze, de Rachel, como eu o vi”

Durante a primeira semana de dezembro estava disponível na biblioteca do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará (UFC) a exposição O Quinze, de Rachel, como eu o vi, uma iniciativa do grupo Iluminuras.

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Informações sobre a exposição em bordado

O grupo Iluminuras tem inspiração nas tradições medievais de contar estórias por meio da criação de imagens, eles recontam a Literatura com a criação de bordados. A proposta do grupo começou como uma homenagem ao centenário de nascimento do contista cearense José Maria Moreira Campos. Em 2015, a homenagem foi aos 85 anos da obra clássica de Rachel de Queiroz, O Quinze.

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Texto feito em bordado manual
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r Retrato de Rachel de Queiroz em bordado artesanal

A exposição contou com a criação de 20 bordadeiras que participam de uma espécie de clube de leitura como base para a criação das peças. Com coordenação das professoras Neuma Cavalcante e Odalice Castro e apoio do Museus da Imagem e do Som, o clube de leitura e curso de “bordado literário”já tem o cronograma para o ano de 2016:

  • 2016.1: A casa, de Natércia Campos;
  • 2016.2: O recado do morro (Corpo de Baile), de João Guimarães Rosa.

O que achei mais bacana do grupo foi a dedicação aos autores locais, um incentivo muito bacana para ler e trabalhar artisticamente tais obras.

Ao chegar ao local da exposição o visitante logo é recebido por uma decoração caprichada feita com peças bordadas, informações sobre a obra trabalhada e elementos da cultura cearense.

 

Os quadros feitos pelas artesãs estavam dentro do auditório da biblioteca e continha uma imagem para cada capítulo do livro. Não preciso nem ressaltar que os quadros que representavam a morte do menino Josias me comoveram, essa é uma das partes do livro mais emocionantes para mim e foi muito bacana essa experiência de reviver tais sentimentos por meio do artesanato local.

Foi inspirador visitar a exposição, primeiramente por conhecer artesãs que se dedicam ao bordado usando a literatura como temática para seus trabalhos e em segundo, poder rever a estória de um livro tão maravilhoso sob outra perspectiva. Ah, claro, e por se tratar de uma obra da Literatura Cearense, que tanto anseio por conhecer mais e melhor.

Após a exposição os quadros estarão disponíveis para visitação no Museu da Imagem e do Som, localizado na Av. Barão de Studart, 410, em Fortaleza.

Eu li: Turismo para cegos, de Tércia Montenegro

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Como falei lá no Snap (avecsamantha), a Tércia foi minha professora quando eu fazia Letras na UFC e sua personalidade sempre chamou minha atenção. Atualmente, que considero meu momento de redescoberta da Literatura Cearense, tenho valorizado mais as obras locais e em virtude desses dois pontos, resolvi dar uma chance à escrita da Tércia.

“Turismo para cegos” foi publicado, com o incentivo do programa Petrobrás Cultural, pela Companhia das Letras e foi um dos primeiros trabalhos da autora como romancista, pois até então ela trabalhava bastante com contos.

Falando brevemente da estória, “Turismo para cegos” nos apresenta um casal nada convencional, Pierre, um servidor público insosso em sua essência, e Laila, uma professora de artes que ficou cega por causa de uma doença. A narrativa é contada por uma vendedora da loja Pet Shop onde o Pierre e Laila foram comprar um cão guia e pelos relatos de Pierre durante um encontro com a vendedora numa cafeteria.

Os três personagens centrais dessa estórias são bem caricatos, distintos e tomados por reflexões sobre aquilo que os rodeiam. Eles são construídos para mostrar ao leitor as máscaras que cada um carrega e também a condição a que eles se submetem por causa de suas escolhas.

Escancarou seu ímpeto, trouxe visitas sem aviso, e ainda por cima visitas perturbadoras como só pai e mãe conseguem ser. P. 125

Pierre, que é feio e sem muita perspectiva de viver uma vida que possa valer a pena, encontra um sentido para a sua vida ao dar a Laila a oportunidade de viajar e conhecer, a sua maneira, novos lugares, viver novas experiências. Essa relação de troca custou caro, financeiramente e emocionalmente a ambos. Uma relação nada saudável que foi baseada na conveniência. Em alguns momentos eles apresentam certo misantropismo, como quando falam de pessoas mais velhas, ou recém nascidos .

Aos poucos a personalidade manipuladora de Laila vai consumindo a Pierre. Ao meu ponto de vista, Laila tinha seus acessos de excentricidade por se sentir liberta de algo que sempre lhe aprisionou, concomitante a aceitação de sua nova condição.

Para quem acompanha a Tércia em seu blog pode notar claramente que ela se colocou dentro desse livro, tanto nos personagens como nas cenas descritas, como no caso do cacto enfeitado para o natal e o desprezo pelas luzes natalinas, bem como sua paixão por arte, fotografias e viagens.

Uma coisa me incomodou na construção do enredo, quando certos relatos não seriam possíveis de serem conhecidos, pois Laila havia guardado alguns segredos que são contados por Pierre, mesmo que ela nunca os tenha revelado a ele, como a mania que ela tinha de criar novos rostos para as pessoas depois de ouvir sua voz, mas mesmo assim Pierre os descreve em sua narrativa.

“Turismo para cegos” trabalha bem aquela velha questão sobre as máscaras sociais numa narrativa um pouco estática, sem clímax marcante e com capítulos curtos. Pode até parecer que a estória não leva a lugar nenhum, mas as inúmeras reflexões podem ser feitas nas entrelinhas, um charme de escrita.

Publicado originalmente no blog WMB