Minha sombria Vanessa | Kate E. Russell | Intrínseca

RUSSELL, Kate Elizabeth. Minha Sombria Vanessa. Intrínseca: Rio de Janeiro, 2020.

Minha Sombria Vanessa

A primeira vez que vi esse livro foi em vídeo do Blog Literature-se, me chamou bastante atenção o fato de a autora ter pensado inicialmente em escrever um romance entre uma jovem e seu professor e só depois ter percebido que se tratava de um caso de pedofilia.

Daí, inspirada principalmente em Nabokov (não apenas em Lolita), Kate reformulou sua história e criou o Minha sombria Vanessa, que traz diversas reflexões sobre a pedofilia e, principalmente, sobre a dificuldade da vítima aceitar que está inserida num relacionamento abusivo.

A narrativa possui duas linhas temporais, uma que nos apresenta a Vanessa de 15 anos e o seu relacionamento abusivo com o professor de literatura Jacob que tinha 44 anos. A segunda linha narrativa é o que seria nos tempos atuais e temos uma Vanessa adulta que trabalha num emprego medíocre e é cheia de complexos trazidos da adolescência, enquanto acompanha as acusações de várias jovens sobre abusos sexuais cometidos por Jacob.

Durante essa leitura fiz várias longas pausas para refletir sobre minhas experiências e o quanto pensamos que estamos acima desse rótulo ou que somos diferentes, mas na realidade é a mesma coisa e eu não fui uma exceção à regra como sempre imaginei.

Em vários momentos senti raiva da Vanessa e até mesmo da autora por defender o professor Jacob, mas logo em seguida percebia que eu fazia a mesma coisa. A visão apaixonada de uma criança ou pré-adolescente parece distorcer ainda mais a realidade.

Esse é um livro extenso que precisa de muita parcimônia para concluir a leitura, pois é um gatilho de pedofilia e relacionamento abusivo. Para quem viveu relacionamentos assim e acha que só aconteceu porque você consentiu, olha, amiga, precisamos conversar, você também não é uma exceção à regra.

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Sobre os ossos dos mortos |Olga Tokarczuk | Todavia

TOKARCZUK, Olga. Sobre os ossos dos mortos. São Paulo: Todavia, 2019.

Sobre os ossos dos mortos

Sobre os ossos dos mortos chegou até meus olhos devido aos inúmeros comentários tanto no Goodreads quanto no Instagram, mal pude me conter para começar essa leitura que envolvia um Thriller com a luta pelo direito dos animais. Além disso, fora o ganhador no Nobel de Literatura de 2018. Comecei, então, essa leitura cheia de expectativas a respeito da Sra. Dusheiko.

Uma série de mortes acontece na vizinhança de Dusheiko e ao que tudo indica, os animais estão se vingando após anos de sofrimento nas mãos dos caçadores locais. Uma investigação é aberta sobre esses casos e em paralelo acompanhamos as observações perspicazes da protagonista.

Para além desse suspense, a autora aproveita para levantar temas que ainda precisam ser discutidos na atualidade, como o direito dos animais! É lamentável a coisificação que os animais sofrem na nossa sociedade, são alvos fáceis para treinar tiro, são alvos fáceis para virar alimento, são alvos fáceis para qualquer crueldade humana. Olga não te força a ser vegano nesse livro, mas ela levanta várias problematizações que fazem o leitor refletir a respeito.

Além disso, outro ponto que achei muito relevante foi a questão do apagamento feminino em idades mais avançadas, um resquício do Caça as Bruxas que existe até hoje. Uma mulher que tem suas próprias convicções e é senhora de si, em geral, é tida como louca pelos mais novos. A velhofobia tão presente nos nosso cotidiano chega a ser cruel.

Confesso que não achei o suspense lá essas coisas maravilhosas, chegando a ser previsível, mas gostei dessa leitura pelo levantamento de assuntos tão essenciais. Algo que me fez achar a leitura chata em alguns momentos foram as partes envolvendo Astrologia, pois como eu não entendo necas de pitibiribas, achei muita encheção… Claro, é uma impressão minha que não tenho familiaridade nem interesse em estudar o assunto, talvez esse seja um ponto muito legal para outros leitores que sentem mais afinidade com a temática.

Mesmo não tendo sido tudo aquilo o que eu esperava, com certeza é um livro que indicarei para várias pessoas, pois ele traz boas reflexões e a escrita da autora é leve e cômica na medida certa.

Minha nota no GoodReads : 3.0/5.0 (liked it)

Heroínas negras brasileiras| Jarid Arraes | Pólen

ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Antes de tudo quer pedir que, caso você trabalhe em escola, tente levar esse livro para seus alunos, ele é mais do que necessário!

Jarid fez um trabalho de mestra, reuniu histórias de mulheres negras que participaram da construção do nosso país, isso é um marco e uma leitura essencial para todos. Isso porque já é difícil se ter heroínas, negras então são quase raras, isso ficou bem evidente pra mim quando li a história de Aqualtune, princesa africana que foi vendida como escrava de procriação para o Brasil, lutou mesmo grávida para proteger Palmares e (pasmem!) foi avó de Zumbi dos Palmares (só lemos sobre ele na escola, sua mãe também foi guerreira na luta contra a escravidão).

O livro é composto de ilustrações em xilogravura, cordéis que contam a história dessas figuras inspiradoras e um breve resumo da vida delas em texto corrido, para quem se interessar em pesquisar mais depois.

E depois de conhecer 15 mulheres maravilhosas, fiquei a imaginar a quantidade de nomes que se perderam por puro racismo e misoginia, esse trabalho deve ser constante e espero ver mais obras assim no mercado.

Fusão do Leia Mulheres de Fortaleza com o Leituras Feministas

Olá, leitores!

Há quanto tempo, não?!

Pois bem, retorno ao blog com uma novidade para quem é de Fortaleza e regiões vizinhas: os clubes de leitura Leia Mulheres (LM) e Leituras Feministas (LF) agora serão intercalados.

Antigamente os clubes ocorriam no segundo (LF) e último (LM) sábado de cada mês, agora os encontros ocorrerão apenas no último sábado, sendo um mês para o LM e um mês para o LF, ficando assim:

  • Agosto – Leia Mulheres (As meninas, de Lygia Fagundes Telles)
  • Setembro – Leituras Feministas (Breve história do feminismo, de Carla Cristina Garcia)
  • Outubro – Leia Mulheres (A definir)
  • Novembro – Leituras Feministas (Feminismo para os 99%: um manifesto, de Nancy Fraster)
  • Dezembro – Leia Mulheres (A definir)

De certo modo, ficou melhor porque quem participa dos encontros do Leia Mulheres agora poderá conversar também sobre livros teóricos feministas além dos romances escritos por mulheres e o grupo em si deve aumentar também, já que haverá apenas um  dia por mês de encontro. A parte chata é que as indicações mensais de leituras foram reduzidas, mas nada que seja de outro mundo, rs.

As alegrias da maternidade | Buchi Emecheta | Dublinense

Emecheta, Buchi. As alegrias da maternidade. 2° ed. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

51zVTDlN1PLEsse livro chegou ao Brasil como indicação da Chimamanda para a TAG Livros e de lá pra cá foi o título com maior repercussão dentro do clube de assinatura. No ano passado, a Dublinense relançou a obra no Brasil.

As alegrias da maternidade é um romance autobiográfico em que o título é irônico e a história é incrivelmente rica e dolorosa. Aqui o leitor pode viajar na história da Nigéria desde os anos 30 (período da colonização britânica), passando por sua atuação na Segunda Guerra Mundial e o seu processo de modernização.

Os costumes religiosos e culturais embalam a miséria da vida de Nnu Ego que está em seu segundo casamento forçado com um homem que ela detesta para cumprir sua missão de ser mãe. Nessa sociedade as mulheres só se tornam completas quando cumprem a sua função de mãe.

Tendo que se virar entre o trabalho para completar a renda familiar e cuidar de seus filhos, Nnu Ego vive um dia após o outro, contando apenas em tentar garantir o alimento do dia seguinte. Enquanto o marido trabalha para um casal de britânicos que mora na cidade colonizada de Lagos e sai todas as noites para beber vinho de palma, deixando a esposa praticamente sozinha para se virar com todas as questões domiciliares.

A condição de colonizado é sutilmente mostrada pela autora em pequenos detalhes, como quando os britânicos fazem troça nos nigerianos por causa de sua cor ou quando a escravidão é banida da Nigéria, mas os brancos continuam podendo escravizar os negros ou até mesmo quando Naife é sequestrado para ir pra guerra.

A questão da educação também é algo bem marcante nesse livro, pois apenas os meninos poderiam continuar seus estudos, enquanto que as meninas precisavam ajudar a mãe a ganhar dinheiro para alimentar os irmãos e a pagar o colégio deles. A própria autora travou uma batalha enorme para conseguir entrar e permanecer no colégio.

Com o passar dos anos, a família de Nnu Ego começa a se deparar com as mudanças sociais de seu país. Seu modelo tradicionalista de viver passa a sair de cena, por mais que ela não conseguisse largar todas aquelas amarras.

Adaku é a representação de uma pessoa que vivia nos antigos costumes e consegue se abrir ao novo e prosperar por causa disso. Ela está disposta a fazer o que for para manter as filhas estudando, pois ela enxerga um futuro para as meninas que vai bem além dos dotes recebidos para que elas casassem.

Os sacrifícios e a solidão da maternidade são trabalhados de maneira ímpar nesse livro. Torci pelos personagens, me emocionais, sorri e fiquei chocada em vários episódios. As alegrias da maternidade se passa na África de meados anos 40, mas a opressão feminina aqui descrita ainda está presente em vários locais e eu não falo de casamento forçado, mas da imposição social de que as mulheres se resumem a um útero e precisam enfrentar qualquer miséria para cumprir o seu papel de mãe.

Fome | Roxane Gay | Globo livros

ROXANE, Gay. Fome: uma anatomia do (meu) corpo. São Paulo: Globo livros, 2017.

fome.jpgFome: uma anatomia do (meu) corpo é uma autobiografia de Roxane Gay em que ela relata o abuso sexual que sofreu aos 12 anos de idade e como isso influenciou sua autoestima, chegando engordar para não ser atrativa aos homens.

Roxane demostra as dificuldades que sofre por causa de seu corpo, seja pelos julgamentos e comentários ou pelo trabalho redobrado em realizar atividades rotineiras, como caminhar com amigos por exemplo. Os relacionamentos amorosos dela também sofrem com sua baixa autoestima, mesmo depois de trinta anos ela continua a se sentir culpada pelo o que ocorreu na infância e que não merece ser amada.

A relação da autora com seu corpo sofre os estigmas sociais imposto para pessoas obesas, que frequentemente são vistas como descuidadas. Ainda mais quando se é mulher, uma vez que a maioria das garotas são ensinadas a ocupar pouco espaço, serem magras, falar baixo…

Em geral, a mulher na sociedade está constantemente em busca de um corpo mais magro, procurando um chá milagroso. Já está na nossa cultura que é falta de educação falar que uma mulher está mais gorda ou mais velha e a maioria delas fica com raiva quando isso acontece. O corpo da mulher é alvo de padrões estabelecidos por homens. Um caso recente no Brasil, quando a Xuxa postou uma foto sua sem maquiagem e a chamaram de velha nas redes sócias. Parece que mulheres não podem envelhecer ou engordar que já é alvo de comentários, parecendo irresponsabilidade e não algo natural do corpo humano.

Roxane além de contar a sua história nos faz refletir sobre a condição do corpo feminino numa sociedade cruel que está disposta a criticar qualquer característica divergente dos padrões impostos por uma visão masculina de corpo bonito. Este é um livro pesado de se ler, pois fala de traumas e sentimentos.

Maria Bonita | Adriana Negreiros | Objetiva

NEGREIROS, Adriana. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

maria bonita.jpgMaria Bonita: Sexo violência e mulheres no cangaço é um livro de não ficção escrito pela Adriana Negreiros. É inegável o esforço e paixão da autora para pesquisar e escrever sobre o assunto, isso fica muito claro, principalmente, na maneira como ela escreveu o livro usando a linguagem do cangaço, por vezes até parecia que eu estava ouvindo algum contador de histórias do interior do nordeste me falando sobre a época dos cangaceiros.

Lampião e Maria Bonita são figuras muito emblemáticas aqui no Nordeste e apesar de terem sido bandidos, são homenageados de diversas maneiras, seja como suvenir ou em festas regionais. O que eu não fazia ideia é do quanto eu, que fui ensinada na escola sobre o cangaço, não sabia de nada a respeito… As atividades dos cangaceiros fazem parte da nossa história e são apresentadas em nossa cultura de forma amena, pelo menos na escola eu só ouvi falar de que eles eram bandidos cruéis, tidos por Robin Hood do sertão por alguns. A realidade é que eles foram muito mais do que isso, Lampião chegou a receber o título de “bandido mais notório da América do Sul” P. 65 pelo The New York Times, o pavor que assolava o sertão nordestino tinha fama internacional.

A crueldade do bando é absurda e é incrível perceber como as pessoas tinham medo do grupo, pois quando eles chegavam em determinado local todos se calavam ou tentavam fugir, pois já se esperavam o pior.

Algo que chamou minha atenção nesse livro foi a semelhança entre a banalização da violência no cangaço e nas ruas do Ceará de hoje. Vivemos com medo, tememos esbarrar em alguém e assistimos a cenas de violência diariamente na TV como “só mais um caso”. Teria a violência do cangaço realmente acabado após o fim das atividades de Lampião e Corisco?

O esmero da Adriana em sua pesquisa é espetacular, todas as informações apresentadas por ela são referenciadas com jornais da época, relatos e outras obras resultante de pesquisa sobre o assunto. Recomendo muito a obra para quem interesse no assunto, é indispensável para quem quer aprender mais sobre o assunto.

 

 

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola | Maya Angelou |Astral Cultural

ANGELOU, Maya. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. São Paulo: Astral Cultural, 2018.

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola é uma autobiografia de Maya Angelou carregada de sofrimento e superação.

O livro traz a história da jovem Marguerite que nasceu em 1928 e foi morar com a avó em Stamps, Arkansas, após a separação dos pais. A jovem cresce no mercado da avó entre as décadas de 30 e 40 numa cidadezinha ao sul dos Estados Unidos onde ouve as histórias dos negros que trabalhavam colhendo algodão e aprende matemática na prática ao pesar grãos e passar trocos. Aos poucos, sua consciência é construída sob influência desses relatos tão frequentes, da religiosidade da avó, dos livros e da sabedoria precoce do irmão.

“Se crescer é doloroso para a garota Negra do sul, estar ciente do seu não pertencimento é a ferrugem na navalha que ameaça a garganta.”

Maya cresce se achando feia e excluída, seja por causa de sua cor ou pela forma como era tratada pelos brancos, sua auto aceitação ainda piora quando ela sofre abuso sexual por parte do namorado da mãe. Ao longo do livro é possível sentir “a culpa” que ela carrega pelo ocorrido, seja por causa do julgamento, pela situação em si ou pelo fim que o homem teve, é incrível a sutileza e a perenidade em que essa ‘culpa’ permanece ao longo da vida da vítima. A descaracterização parcial de seu físico que veio com o alisamento dos cabelos trouxe à jovem certo conforto, pois agora parecia mais com a mãe e menos com as pessoas sofridas da cidade onde cresceu.

Maya Angelou foi escritora, poeta, atriz, cantora, uma artista completa e nessa sua auto biografia é possível perceber sua esperteza e sagacidade tanto por se destacar intelectualmente na escola da cidade grade e ser adiantada uma série, como por sua determinação e garra de ir em busca do seu sonho de trabalhar numa profissão em que não era acessível aos negros.

“A mulher negra é agredida nos anos jovens por todas essas forças comuns da natureza ao mesmo tempo em que fica presa no fogo cruzado triplo do preconceito masculino, do ódio branco ideológico e da falta de poder Negro.”

Uma parte do livro que me trouxe bastante reflexão foi na formatura escolar de Maya em que o seu colega de classe está discursando sobre o futuro e suas perspectivas, mas tais palavras pareciam vazias, pois que opções aqueles jovens negros teriam além de cursos que os preparavam para os mesmos empregos desprestigiados? A escola de agricultura e mecânica, ao final das contas apenas treinava mais carpinteiros, fazendeiros, pedreiros e empregadas. Essa falsa opção de ter escolhas, uma escravidão velada.

“[…] se meu irmão quisesse ser advogado, ele teria que primeiro pagar uma pena pela cor de sua pele colhendo algodão e capinando campos de milho e estudando por correspondência à noite por vente anos?”

O Eu sei por que o pássaro canta da gaiola me lembrou a leitura de O Sol é para todos, pois ambos são narrados por crianças e abordam o racismo sofrido pelos negros ao Sul dos Estados Unidos por volta da década de 30.

Esse livro é um misto de sofrimento, realidade e beleza. A luta diária de Maya, suas superações e força são inspiradoras.

Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bEsse é o terceiro livro da Chimamanda que tenho a oportunidade de me deleitar, os dois primeiros foram Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas, ambos ensaios sobre a questão de gênero.

Hibisco Roxo foi o primeiro romance da autora nigeriana que tive contato e mesmo já tendo iniciado a leitura com expectativas altas devido aos inúmeros elogios que li na internet, ainda assim essa obra me surpreendeu.

Os sentimentos ao longo da leitura são inúmeros, orgulho, vergonha, aprendizado, amor, inquietação, raiva, dentre outros. Ao final, o conflito sobre a condição humana é perene. O que é uma boa ação? Uma agressão física pode ser justificada? Fazer boas ações te redime ao cometer um ato mau? Se eu estava fazendo algo para o bem de uma pessoa e ela se feriu fisicamente, posso me sentir culpado ou fiz em sã consciência? Até onde o medo de represálias pode impedir manifestações contra uma administração que corta recursos a ponto de faltar o básico à população? Servir a Deus tem limites?

A narrado de Hibisco roxo é Kambili, uma jovem que tenta ao máximo agradar ao pai, Eugene, ele, por sua vez, é um religioso fanático, que fecha os olhos a tudo e a todos que não pertença a sua religião. Engraçado (ou não) que Eugene valoriza tanto o Cristianismo a ponto de agredir fisicamente os familiares e de renegar a tudo e a todos que venham de qualquer outra religião, até mesmo o seu próprio pai e as tradições do povo Nigeriano.

A questão da imposição cultural advinda da excessiva catequização é o dorso de Hibisco roxo, e como a valoração dessa cultura de fora afeta as relações entre familiares e muda a perspectiva de um ser humano. Religiosamente uma pessoa pode chegar a ser má na tentativa de fazer o que ela julga correto, seja julgando as atitudes do próximo ou sufocando sua cultura local.

“- Sabe, padre, é que nem fazer okpa – disse Obiora – A gente mistura a farinha de feijão-fradinho com o dendê e depois cozinha no vapor por horas. Você acha que dá para ficar só com a farinha de feijão fradinho? Ou só com o dendê?

– Do que você está falando? – perguntou padre Amadi.

– De religião e tirania – disse Obiora” P. 184

Ao chegar à casa de tia Ifeoma, Kambili tem uma surpresa ao se deparar com pessoas tão diferentes. Enquanto que em sua casa tudo gira em torno de Eugene e como seria a melhor forma de agradá-lo, na residência da tia a jovem encontra seus primos, com idade bem semelhantes a sua, discutindo sobre política, emitindo opiniões próprias, lendo jornal e livros e ouvindo música com temática social. Um verdadeiro choque e é ali que a protagonista se permite ser ela mesma, sorrir, se apaixonar e viver. Seu irmão, Jaja, da mesma maneira, passa a ver o mundo que há fora da capsula criada pelo pai.

A riqueza proporcionada pelas diferentes relações sociais e pelo conhecimento das condições divergentes das suas levam os dois irmãos a questionar o modo como sempre levaram a vida regrada demais sem emitir ideias ou realizar gostos.

“[…] A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave de liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.” P. 22

Além de toda essa questão religiosa, cultural e política, é evidente também a misoginia, como quando os vizinhos começam a falar que Eugene deveria procurar outra esposa porque a sua não gera mais filhos ou quando a Beatrice não consegue nem comprar cortinas novas se o marido não der o veredito final… São atitudes que podem parecer pequenas coisas, mas que ao final são o fertilizante da desigualdade de gênero.

“Eu quis dizer que sentia muito por Papa ter quebrado as estatuetas dela, mas as palavras que saíram foram:

-Sinto muito que suas estatuetas tenham quebrado, Mama” P. 16-17

A visão aberta de tia Ifeoma as vezes assusta aos que estão acostumados a viver em suas bolhas, principalmente Beatrice que não consegue enxergar a vida sem o marido pois ele é o provedor financeiro da casa, como se isso fosse o essencial para viver e superasse toda e qualquer humilhação, violência e emudecimento que o relacionamento trouxer.

“- Nwunye m, às vezes a vida começa quando o casamento acaba” P. 83

Em um dado momento de Hibisco roxo lembrou de Outros jeitos de usar a boca, mais especificamente da frase em que Rupi Kaur diz para não associar gritos a amor, pois seus filhos podem entender raiva como uma forma de carinho.

Eu poderia falar mais e mais sobre esse livro da Chimamanda, mas como não quero dar spoilers, fico por aqui e aproveito o ensejo para indicar Hibisco roxo para todos que gostam de um romance mais profundo, que tenham uma escrita deliciosa e tragam reflexões enriquecedoras para a vida.

Os homens explicam tudo para mim, de Rebecca Solnit

IMG_20180319_202523.jpgEntão eu li Os homens explicam tudo para mim, da jornalista e escritora Rebecca Solnit.

Sinopse:

Em seu ensaio icônico “Os Homens Explicam Tudo para Mim”, Rebecca Solnit foca seu olhar inquisitivo no tema dos direitos da mulher começando por nos contar um episódio cômico: um homem passou uma festa inteira falando de um livro que “ela deveria ler”, sem lhe dar chance de dizer que, na verdade, ela era a autora. A partir dessa situação, Rebecca vai debater o termo mansplaining, o fenômeno machista de homens assumirem que, independente do assunto, eles possuem mais conhecimento sobre o tema do que as mulheres, insistindo na explicação, quando muitas vezes a mulher tem mais domínio do que o próprio homem. Por meio dos seus melhores textos feministas, ensaios irônicos, indignados, poéticos e irrequietos, as diferentes manifestações de violência contra a mulher, que vão desde silenciamento à agressão física, violência e morte. Os Homens Explicam Tudo para Mim é uma exploração corajosa e incisiva de problemas que uma cultura patriarcal não reconhece, necessariamente, como problemas. Com graça e energia, e numa prosa belíssima e provocativa, Rebecca Solnit demonstra que é tanto uma figura fundamental do movimento feminista atual como uma pensadora radical e generosa.

Confesso que a sinopse desse livro me ganhou logo de cara e o comprei achando que conteria uma coletânea de histórias cômicas (de tão trágicas tornaram-se cômicas), mas me enganei. De certo modo esse desvio nas minhas expectativas foi bom, pois Rebecca trouxe ensaios sobre a condição feminina ao longo dos anos e em diferentes setores da sociedade.

Apontarei aqui algumas ideias que Rebecca expõe ao leitor e que, pelo menos para mim, foram colírios para enxergar o mundo de maneira mais lúcida.

Casamento igualitário

Um dos termos trabalhados pela autora foi o de casamento igualitário, alcunha utilizada para denominar casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu nunca havia parado para pensar que essa denominação pressupões que casamento heterossexual não é um casamento igualitário, semanticamente falando, mas bem que poderia ser, pois um casal que, independente do sexo, se respeita e trata um ao outro como um igual poderia ser denomina sim casamento igualitário. Não seria o sexo, mas as atitudes entre o casal que determinaria se um casamento é ou não igualitário ?!?

Desaparecimento gradativo

Fazer as mulheres sumirem ao longo da história é fichinha, a exemplo os nomes das famílias das mulheres que sumiram para dar espaço ao sobrenome do esposo. Essa história de ser chamada pelo nome do marido me lembrou algo estranho na língua brasileira: no ato do casamento hétero, as partes tornam-se ‘marido’ e ‘mulher’, não seria a mulher ‘mulher’ antes do matrimônio?

“É fácil chamar de crimes os desaparecimentos da guerra suja na Argentina; mas como devemos chamar os milênios de desaparecimento das mulheres – da esfera pública, da genealogia, do status legal, da voz, da vida?” P. 96

Clamamos por voz!

O chamado feminino mais claro é a necessidade de voz, isso fica explicito em notícias diárias que lemos nos jornais, como no caso da adolescente de 16 anos assediada na UFC e como uma enxurrada de outras garotas sentiram-se a vontade para relatar assédios sofridos ao longo da graduação depois de UMA ter sido ouvida. O motivo de não ter feito os relatos antes? “Falar? Ninguém vai ouvir”.

As mulheres precisam de voz nessa luta diária para alcançar a igualdade, cansamos de ser chamadas de loucas, de colocarem a culpa nas nossas roupas, de pensar mil vezes antes de ser simpática por medo de parecer outra coisa.

“‘Ela é louca’ é o eufemismo padrão para “Eu estou desconfortável com o que ela está dizendo”. P. 138

Rebecca faz um paralelo dessa falta de crédito com Cassandra, da Mitologia Grega:

“E mais uma coisa sobre Cassandra: a descrença com que suas profecias eram recebidas era resultado de uma maldição lançada sobre ela pelo deus Apolo, quando ela se recusou a fazer sexo com ele. A ideia de que a perda de credibilidade está ligada a reivindicar os direitos sobre o seu próprio corpo estava ali presente o tempo todo. Mas com as Cassandras da vida real que há entre nós, podemos desfazer a maldição, tomando nossas próprias decisões sobre em que acreditar, e por quê.” P. 151


A autora apresenta diversos outros pensamentos ao longo do livro que aguça o pensamento crítico do leitor sobre a questão feminina. Aqui ela faz links com alguns de seus outros livros e traz casos reais para ilustrar sua linha de raciocínio.

Algo que senti falta nessa obra foram referências, pois diversos casos citados por Rebecca eu já havia lido em outros livros, mas os que eu não conhecia, gostaria de saber mais sobre os relatos e de ser encaminhada por meio de referências, como nos livros da Angela Davis .

É isso, Os homens explicam tudo para mim é uma leitura rápida, rica, alterna entre leve e pesada por causa do seu conteúdo e a escrita da Rebecca faz o livro fluir de maneira ímpar.