O quarto de Jacob | Virgínia Woolf |Novo Século

Resultado de imagem para o quarto de jacobO quarto de Jacob é o terceiro livro escrito pela autora inglesa Virgínia Woolf, mas o primeiro que ela ela escreveu sentindo-se livre para criar a sua própria maneira de narrar, pois até então precisava seguir os ditames da editora do irmão sobre os padrões a seguir.

Esse livro traz a história de Jacob, personagem que conhecemos por meio do olhar das pessoas que o rodeiam. O enredo é desconstruído e fragmentado em diversos momentos que o jovem aparece na vida dos conhecidos. Por causa dessa forma de narrar, o livro é comumente associado a escola artística impressionista, uma vez que não há delimitação das formas, mas uma turva construção.

A partir dessas diversas perspectivas, percebemos Jacob como um rapaz de boa família e rico, educado, tímido e muito dedicado ao estudo do Grego, ele chega a viajar para a Grécia e Roma para conhecer os clássicos da cultura europeia. Esses olhares construíram um personagem sem ele nem ao menos ser o principal narrador ou haver um narrador onisciente para descrevê-lo.

A estrutura da narrativa é o que mais chama a atenção durante a leitura, não a história em si, uma vez que não há um fluxo contínuo. Talvez o experimentalismo de Virgínia nessa obra cause estranheza ao leitor, desde as composições frasais à estruturais.

É claro que aquele olhar perspicaz sobre a sociedade e o ser humano está presente aqui também. Interessante destacar dois momentos, a exemplo do referido: primeiramente quando uma senhora está aterrorizada por encontrar-se numa cabine do transporte coletivo com um homem, o seu terror é palpável e a todo momento ela planeja como poderá se defender caso ele tente algo “Decidiu que atiraria o vidro de perfume com a mão direita, e com a esquerda puxaria o fio do alarme” P. 45, sensação bastante comum até hoje, em que as mulheres se sentem ameaçadas na presença de homens desconhecidos, o lado feminista de Virgínia diz olá (rs).

Em outro momento, ela ressalta a incrível habilidade humana de se distrair “Sem dúvida, nossa visa seria muito pior sem o nosso espantoso talento para a ilusão” P. 188, não sei qual a intenção da autora no texto original, mas entendi o ato de ilusão como a capacidade submergir-se em criações culturais para afastar-se da vida real, não necessariamente de criar realidades inexistentes (como em casos amorosos, por exemplo), e isso é bem pertinente! Quantas vezes o leitor não mergulhou em histórias e dramas para fugir de uma realidade insossa ou discrepante da ideal ?! A arte nos salva!

Não sou a leitora mais assídua de Virgínia Woolf, devo ter lido uns 4 ou 5 livros livros dela, mas é possível perceber como alguns elementos se repetem em suas obras, como em A Viagem, que Mrs. Dalloway (protagonista de um outro romance seu) aparece de passagem, ou em Flush, cachorrinho cocker speniel, a mesma raça que aparece em O quarto de Jacob. Enfim… Há traços que perduram por suas obras. 

Em O quarto de Jacob também há um flash do que mais tarde colocaria fim à vida de Virgínia (como já ocorrera em A Viagem anteriormente quando uma personagem descreve a agonia de submergir em águas pesadas), pois uma das personagens pensa em matar-se no Rio Tâmisa: ” – Bem, posso me afogar no Tâmisa – chorava Fanny Elmer, passando depressa pelo Asilo de Órfãos” P. 191. A autora cometeu suicídio aos 59 anos, momento em que encheu os bolsos de pedras e entrou no Rio Ouse, seu corpo fora encontrado apenas semanas depois.

Diante de uma explosão de técnica, que caracterizou de vez Virgínia como uma escritora modernista (com traços impressionais, nesse romance em especial), podemos perceber muito da autora ao longo das páginas.

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Liberta-me (Shatter me #2), de Tahereh Mafi

MAFI, Tahereh. Liberta-me. Ribeirão Preto: Novo Conceito, 2013.

Olá, leitores!

Depois de exatos cinco anos de que li o primeiro volume da trilogia Estilhaça-me, dei uma chance à continuação da história. Lembro que eu não tinha gostado muito do final do primeiro livro e isso me fez desanimar em ler os próximos, mas com o projeto ‘tirando a poeira’ resolvi dar uma chance a Liberta-me.

Liberta-me acontece dentro do Ponto Ômega, uma espécie de refúgio para pessoas com dons, que nada mais são do que poderes especiais do tipo super força, invisibilidade e etc. A protagonista Juliette está tentando se adaptar a ver sua condição como algo positivo enquanto que precisa resolver sua conturbada vida amorosa.

Vamos por partes. Os personagens principais dessa história são adolescentes em uma faixa etária entre 15 e 20 anos, são bem jovens e uma das principais preocupações deles é estar com o amor da sua vida e coisas do tipo. A Juliette, em específico, não tem experiência alguma em relacionamentos sociais e se vê agora tendo amigos e namorado, algo totalmente novo.

O triangulo amoroso da história é muito bonitinho e é válido lembrar que estamos lidando com um livro jovem adulto, então o seu foco principal é sim o romance e o cenário distópico é só o pano de funo. Entendo a proposta da autora, mas creio que isso acabou tornando a história MUITO superficial, pois a Tahereh tem um baita conteúdo a explorar que são pessoas com poderes especiais numa sociedade distópica e enquanto o mundo está um caos, estamos presos no Ponto Ômega compartilhando os conflitos internos da Juliette sobre não poder beijar o namorado. Bem desestimulante em certo aspecto.

Ok, mas deixando de lado a falta que senti em ler sobre formação social e política desse cenário que a autora propôs, temos a mente da Juliette que é depressiva e insegura. A partir dessa perspectiva acompanhamos seu romance que mais parece novela da Globo, mas não digo isso em um sentido pejorativo, pelo contrário, a narrativa da autora é tão viciante que eu PRECISAVA virar as páginas para saber o que aconteceria em seguida.

Então, senti falta de vários elementos que enriquecessem a história, mas entendo a proposta da autora e concluo dizendo que como romance jovem adulto esse segundo livro é maravilhoso, mas como distopia nem tanto.

O que Virgínia Woolf e James Joyce têm em comum

É sabido que Virgínia Woolf não gostou muito da obra mais conhecida de James Joyce, Ulisses, e isso resultou em associar o nome dos dois grandes escritores a desprazeres.

Virgínia era crítica literária e por conta disso o seu julgamento sobre Joyce foi tão enaltecido pelos leitores e simpatizantes do mundo dos livros a ponto de muitos considerarem que Virgínia detesta Joyce no geral, não apenas de uma obra dele.

Fofoca literária a parte, vamos ao que interessa: o que eles têm em comum?

  1. São grandes nomes da literatura e suas obras são lidas todos os anos por vários leitores no mundo;
  2. São considerados “difíceis de ler” por obras específicas, carma que os segue no imaginário de todo leitor. Virgínia ganhou essa fama com As Ondas e Joyce, com Ulisses;
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  3. Ambos possuem um livro descontraído que vai inteiramente contra a fama de “semi impossíveis da literatura”. Flush é da Virgínia e Dublinenses, o do Joyce;
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  4. Escrevem usando a técnica conhecida como fluxo de consciência;
  5. São escritores modernistas do final do século XX;
  6. Personagens que se sentem solitários apesar de todos os contatos sociais que possuem;
  7. O tempo das narrativas não correspondem ao tempo cronológico da história;
  8. Se aproximam do realismo psicológico;
  9. Uso de narrativa experimental;
  10. Distanciamento e uma iminente sensação de desgraça parecem estar sempre presentes.

Dos livros citados no post, já falei sobre:

Depois de revisitar esses comentários tão antigos acho que está na época de reler esses livros para tecer novas ideias sobre eles, rs.

Eu li: A viagem

A viagem , primeiro romance da inglesa Virginia Woolf, conta a história da jovem Rachel Vinrace que foi criada pSAMSUNG CAMERA PICTURESelo pai pelas tias de forma protetora sem muito contato com pessoas diferentes, apenas aquele habitual grupo de amigos.

Rachel passa a conhecer novas pessoas quando viaja com sua tia Helen para o Brasil. No livro não diz, especificamente, que vieram para o Brasil, mas as referências nos faz supor que o seja, pois elas estão às margens do Amazonas e os barcos saem de lá carregando borracha, o que caracteriza o norte brasileiro.

O leitor percebe o crescimento da protagonista quando ela passa a tomar decisões sérias por conta própria, como quando ela resolve que não mais irá à igreja e expõe seus argumentos, antes dessa nova percepção, Rachel ia à igreja fielmente por costume familiar e nunca havia parado para pensar a respeito daquilo.

As relações interpessoais compõem o ponto que mais chama a atenção do leitor durante a leitura, principalmente quando Rachel começa a perceber as nuances de cada personagem de acordo com seus quartos e o que cada aposento pode revelar de seus hóspedes. As conversas de cada personagem, que não são poucos, também enriquece essa diferenciação de caráter e manias.

– Assim que alguma coisa acontece… pode ser um casamento, um nascimento ou morte… de modo geral preferem que seja morte… todo mundo quer nos ver. Insistem em nos ver. Não têm nada a dizer; não dão a mínima para nós; mas temos de ir ao almoço, chá ou jantar, e se não vamos somos condenados. É o cheiro de sangue – continuou – Não as culpo; apenas, se eu poder evitar, não terão o meu! P. 457

Virgínia Woolf consegue com maestria a máxima dos escritores de mostrar e deixar o leitor tirar suas próprias conclusões sobre os sentimentos envolvidos em cada cena ao invés de apenas descrevê-la. Uma cena que revela bem isso é quando Rachel está transtornada e senta-se numa mesinha ao final do corredor e se pergunta o que ela está fazendo ali, do que vale tudo aquilo que ela está vivendo? O sentimento passado ao leitor é de profunda angústia e auto conhecimento.

A viagem pode parecer um romance enfadonho aos que buscam apenas uma história superficial onde coisas acontecem, mas para extrair a essência de Virgínia é necessário olhos atentos e pacientes, pois a história em si não tem muitos clímax ou reviravoltas (apenas uma, ao meu ver), mas a construção da narrativa e a forma de nos contar são únicas.

Um adendo: para quem conhece a história da autora encontrará pequenas nuances que remetem a sua vida, a Fran do blog Livro e Café chegou a chamá-las de preságios. A mesma frase que está em sua carta de despedida ao marido, escrita um pouco antes do suicídio, a descrição da sensação de estar se afogando e também sua relação com mulheres (quando ela fala que é complicado se relacionar com homens e que Terence nunca entenderia o que ela sente).

– Talvez eu peça demais – continuou. – Talvez não seja realmente possível ter o que eu quero. Homens e mulheres são diferentes demais. Você não pode entender… não entende. P. 448

Fiz diário de leitura para esse livro, então você pode conferir mais quotes e minhas impressões durante a leitura nesse link.

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Eu li: Anexos, de Rainbow Rowell

Assim que pegamos um chick lit para ler logo imaginamos como protagonista a típica mulher balzaquiana, com mais de trinta anos e solteira, vivendo sua vida O.K e tentando “desencalhar”.

Sempre li e ouvi ótimos comentários sobre todos os livros da autora e eles só aumentavam cada vez mais a minha vontade de ler algo da Rainbow.  Anexos, o primeiro que li da autora, surpreende logo no comecinho, quando nos deparamos com um protagonista do sexo masculino que trabalha no setor de segurança informacional de um renomado jornal.

Sem título
Anexos, de Rainbow Rowell. Novo Século.

O trabalho de Lincoln não é nada excitante, apenas ler os e-mails marcados como suspeito por um programa que os selecionada mediante um algoritmo qualquer. Esse emprego tira um pouco o sono de Lincoln porque ele sente como se esse não fosse um emprego de verdade, ganhar muito apenas para ler e-mails.

 

Sem ainda ter superado seu primeiro e único relacionamento, da época da escola, o protagonista se vê numa situação embaraçosa, ele se apaixona por uma das funcionárias do jornal só por ler os e-mails pessoais trocados com sua melhor amiga.

Aqueles dilemas da vida cotidiana presentes nos livros desse gênero permanecem em Anexos, mas alguns desses tópicos são vistos sob a perspectiva de Lincoln, o que achei bem diferente, pois já estava acostumada a ler as preocupações cotidianas por meio da ótica feminina.

Esse é o típico livro que gosto de ler durante aquelas ressacas literárias por causa da leitura simples e rápida, um incentivo quando não estamos muito no pique.  A fluidez da escrita da autora me lembrou da forma como a Marian Keyes constrói seus personagens e enredos.

Anexos traz reflexões simplórias e pertinentes, como: relacionamentos fadados ao fracasso que recebem inúmeras chances, mas que no fundo ambos sabem que aquilo não funcionará mais; amizades verdadeiras que não apenas dão suporte nas horas difíceis, mas também dá puxões de orelha quando necessário; a vida é feita de ciclos e por mais que estejamos naquela inércia sempre aparece algo novo, casualmente, para nos despertar, é só olhar com atenção.

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