Três romances para refletir sobre a condição feminina

Olá, leitores!

Hoje trouxe para vocês uma listinha rápida com dicas de romances para ler e refletir sobre um tema que está muito presente no nosso cotidiano.

Todos os dias é possível ver casos de feminicídio nos jornais, barbáries inigualáveis. A mulher, por ser fisicamente mais frágil e, por vezes, ter o seu lugar de fala cortado pelo machismo cotidiano ou sofrer abusos psicológicos e emocionais em relacionamentos nada saudáveis. Pensando nisso, trouxe aqui a indicação de três romances para ilustrar como a vida de muitas mulheres pode ser devastada sem a força da luta (e das conquistas) das mulheres.

1. A cidade do Sol, de Khaled Hosseini

a_cidade_do_sol_1295553285bA cidade do Sol é forte e marcante, traz a história de duas mulheres que cresceram de forma diferente, uma era incentivada pelo pai a estudar e a sonhar com o futuro, a outra era uma filha bastarda que passou a infância escondida para não manchar o nome do pai. Elas se encontram em condições adversas, durante a guerra no Afeganistão, e passam a compartilhar o mesmo teto, sofrendo física e emocionalmente num país em que as mulheres não possuem voz e precisam andar de burca nas ruas.

Falei sobre esse livro AQUI.

2. Hibisco Roxo, de Chimamanda Gnozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bChimamanda é mais conhecida pelos seus dois manifestos Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas. Em Hibisco Roxo a autora nos apresenta uma família nigeriana com suas tradições e a influência do cristianismo na cultura deles. É pesada a forma como a religiosidade exagerada pode varrer a vida de uma mulher para debaixo do tapete e fingir que não há nada acontecendo.

Falei sobre ele AQUI.

 

 

3. O conto da Aia, de Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bO conto da Aia ficou conhecido principalmente após a adaptação como série e repercutiu bastante durante as últimas eleições brasileiras. Uma distopia que levanta a temática de como as mulheres, em geral, são as primeiras a ter seus direitos retirados em momentos de crise e, novamente, como a religiosidade tenta apagá-las.

Falei sobre a obra AQUI.

 

 

 

Então, é isso, histórias de mulheres afegãs e nigerianas, bem como uma ficção sobre até onde as atrocidades machista-religiosas podem chegar.

É válido ressaltar que esses não são os únicos e podem não ser os melhores, a lista foi criada com base nos livros que eu li. Então o post fica aberto caso você queira acrescentar mais títulos nos comentários para que eu e os outros leitores possam conhecer mais obras do gênero. 😉

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Obra póstuma de Ariano Suassuna foi publicada pela Nova Fronteira

Ariano Suassuna é um escritor brasileiro mais conhecido por sua peça teatral que virou filme, O Auto da Compadecida, que mesclou ironias ao divino e aos costumes interioranos do nordeste.

Em 2014 Ariano faleceu e deixou uma série de livros inacabados que trazem o alter ego do autor. Certa vez ele revelou que começou a escrever o Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores ainda na década de 80 e apesar de ter se dedicado anos a fio, concluiu apenas dois livros (a ideia original era fazê-lo em 7 volumes). Escritor detalhista, fez questão de desenhar todos os desenhos contidos nessa série, o que levou ainda mais tempo para concluir os livros.

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Aqui Suassuna se permitiu misturar estilos, desde os convencionais até os recurso digitais (há um QC que redireciona o leitor a uma vídeo aula). Uma pena que ele tenha deixado seu projeto A ilumiara inacabado, mas a boa notícia é que a Editora Nova Fronteira lançou em novembro esses dois volumes escritos, mesmo sem a conclusão da história.

A mulher desiludida, da Simone de Beauvoir

O livro A mulher desiludida, da Simone de Beauvoir, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira é composto por três contos A idade da desilusão, Monólogo e A mulher desiludida. Simone é conhecida por seu discurso forte e cheio de personalidade, principalmente sobre a condição humana, como a velhice e o ser mulher, por exemplo.

O primeiro conto, A idade da desilusão, é narrado em primeira pessoa por uma professora de literatura aposentada que hoje escreve livros sobre Rousseau e Montesquieu. Uma intelectual que começa a questionar os fatores mais banais da vida ao chegar à terceira idade. Afinal de contas, o que é envelhecer? O corpo já não lhe é mais o que se tinha o costume de ver ao espelho, as pessoas ao seu redor mudam, se adaptam, mas e você?

“’ Olha lá, você está engordando!’ (Ele não parece haver notado que eu recuperei minha forma.) Comecei um regime, comprei uma balança. Nunca imaginei outrora que me incomodaria com o meu peso, mas me sinto obrigada a me ocupar com ele. Quanto menos eu me reconheço em meu corpo, mais me sinto obrigada a me ocupar com ele. Está a meus cuidados e eu o trato com uma dedicação aborrecida, como a um velho amigo meio desfavorecido, meio diminuído, que precisasse de mim.” (P.15)

Sua vida começa a parecer se esvaindo de seus dedos quando seu filho resolve ser carreirista, se dedicar a um trabalho e galgar ascensão visando o retorno financeiro, logo Philippe a quem tinha planejado todos os passos na academia, haveria de ser intelectual igual a mãe, mas a quebra dessa linha tão bem arquitetada levou a protagonista a se sentir incomodada por atuar naquilo, passou até a cismar com o marido, André:

“Todo mundo o aborrece. E eu? Ele me tinha dito há muito, muito tempo: ‘Desde que a tenho, não poderei jamais ser infeliz’ Mas não parece muito feliz. Não me amava mais como antes. O que é amar, para ele hoje? Tornei-me um velho hábito que não lhe dá mais nenhuma alegria.” (P. 23)

Engraçado que Simone escreveu uma frase nesse conto que ainda é muito atual, principalmente na atual conjuntura social em que nos encontramos “O telefone não reaproxima, confirma distâncias” (P.41). Quem nunca pensou na máxima de que as redes sociais costumam aproximar quem está longe e distanciar quem está perto? Pois bem, o telefone, o smartphone e as redes sociais compõem o tripé dessa estruturação e confirmação de distâncias interpessoais.

O segundo conto pode parecer um pouco estranho por se tratar de um fluxo de pensamento constante. Sabe quando nos deitamos para dormir ou divagamos durante uma viagem no coletivo? Pensamos mil coisas aleatórias e meio segundo depois não lembramos de nada, seguimos nossa vida como se aquele pequeno momento filosófico nem tivesse acontecido. É mais ou menos isso que acontece em Monólogo, o frenesi de pensamentos é marcado também pela escassez de pontuação e de paragrafação.

O terceiro conto é o que dá título ao livro, A mulher desiludida, e traz o diário de uma mulher que descobriu a traição do marido. Tentando não abrir mão do homem que foi o seu grande amor durante anos. É angustiante acompanhar as pequenas lutas da protagonista, que tenta encontrar onde foi que ela errou durante o relacionamento e como tudo mudou bem debaixo de seus olhos. O relacionamento entre casais e entre pais e filhos são repassados em diversos momentos do texto e nos fazem refletir sobre a condição delicada da unidade familiar “Os pais nunca têm as filhas de seus sonhos, pois fazem delas certa ideia, à qual elas deveriam se curvar. As mães aceitam-nas como são” (P.110).

Nos três contos fica nítido toda a angústia feminina diante de seus relacionamentos sociais, um furacão emocional que acaba por exercitar a força da mulher em suportar muito. A inquietação, a luta e a força de vontade são características marcantes nessas três mulheres, bem como o intelecto cultural apurado.

Esse foi o primeiro livro da Simone de Beauvoir que leio e me surpreendi com a carga de sentimentos que nutrem essas poucas páginas. Não é um livro para se ler numa sentada, A mulher desiludida exige um coração aberto e empatia para se caminhar ao lado dessas figuras propostas.

Eu li: A cidade do Sol, de Khaled Hosseini

Como proposto aqui, li A cidade do Sol em maio. Ao ver que esse livro completaria 10 anos de lançamento agora em maio de 2017, corri para tirá-lo da estante e não me arrependi nem um segundo!

a cidade do sol

A cidade do Sol é traz a história de duas mulheres que tiveram seus caminhos cruzados por causa da guerra no Afeganistão. A primeira delas é Mariam, a harami (filha bastarda) que viveu até a adolescência isolada de todos e sob o ensinamento da mãe, Nana, que sempre fazia questão de dizer que a única coisa que uma mulher precisa aprender na vida é a suportar. A outra mulher é Laila, a filha do professor, que cresceu com a perspectiva de que ela poderia ser o que ela quisesse, poderia se preocupar com os estudos pois não precisaria de um casamento para sustentá-la “o casamento pode esperar; a educação não. Você é uma menina inteligentíssima. É mesmo, de verdade. Vai poder ser o que quiser, Laila.” p. 105.

A criação de Mariam e o início do seu casamento são muito sofridos, em vários momentos parei a leitura para tentar assimilar tudo o que essa mulher passou nas mãos dos que conduziam a sua vida. A primeira figura a ensinar a Mariam o seu lugar social, sempre abaixo dos homens, foi a sua mãe “assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente” p.12. Logo em seguida, o desprezo advindo da família oficial de seu pai, que não a aceitavam por ter sido gerada fora do casamento, e, por fim, o casamento que lhe impôs o uso da burca e a escravidão do lar. Veja bem, quando falo escravidão do lar não é apenas o ter que cuidar da casa, pois isso é necessário à todos (independente do gênero), mas uma coisa é você limpar e manter a sua casa por questões de higiene e zelo e outra totalmente diferente é a imposição advinda do marido de não deixar a mulher sair de casa e querer tudo impecavelmente no lugar por que são coisas “de mulher”.

Quando chegamos à parte dedicada à Laila, o leitor se depara com uma situação mais amena, a possibilidade de uma mulher poder estudar, se formar e só casar se for de sua inteira vontade. Engraçado que mesmo sendo vista como a fagulha de esperança feminina até mesmo para as amigas do colégio “Giti e eu já vamos ter parido uns quatro ou cinco filhos cada. Mas você, Laila, você ainda vai nos deixar orgulhosíssimas. Vai ser alguém.” p. 147, a própria mãe de Laila ainda alfineta sobre a reputação de uma mulher por ser vista conversando com um homem várias vezes “A reputação de uma menina, principalmente de uma menina bonita como você, Laila, é uma coisa delicada. É como segurar um mainá. Basta soltar um pouco as mãos e pronto: ele sai voando” p. 143.

O encontro dessas duas mulheres tão diferentes se dá por causa do pano de fundo em que a história se ambienta, o cenário político da época, que baseia-se no Golpe liderado pelo Partido Democrático do Povo do Afeganistão apoiado pela União Soviética que culminou após a morte de Daoud Khan (1909 – 1978), um líder progressista que lutava pelos direitos das mulheres.

A liberdade e as oportunidades que as mulheres tiveram entre 1978 e 1992 eram agora coisa do passado. Laila ainda se lembrava de seu pai dizendo que aqueles anos de governo comunista eram “uma boa época para ser mulher no Afeganistão”. Desde que os mujahedins assumiram o poder, em abril de 1992, o nome do país passou a ser Estado Islâmico do Afeganistão. A Suprema Corte do governo de Rabbani era formada agora por mulás de linha dura que trataram de eliminar todos os decretos de período comunista que fortaleciam a posição das mulheres e de substituí-los por determinações baseadas na Shari’a, as estreitas leis islâmicas segundo as quais as mulheres têm que andar cobertas, são proibidas de viajar sem a companhia de um parente de sexo masculino, são punidas por apedrejamento se cometerem adultério.

P. 229

Esse cenário político mencionado em A cidade do Sol me fez pesquisar sobre o país e fiquei chocada ao saber que na década de 70 as mulheres usam saia a cima do joelho! Para quem nasceu depois do início da década de 90 não acompanhou as transformações que o país sofreu e talvez por isso tenham a imagem de que as mulheres afegãs andam cobertas de burca por causa de tradições muito antigas as quais ainda não conseguiram se libertar… Não! Esse costume tem menos de 30 anos!!!

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Mulheres afegãs andando nas ruas de Cabul em 1972

Ao longo desse livro, várias cenas me impressionaram e por diversas vezes eu li e reli trechos, as frases me tocavam de uma maneira ímpar, com um misto de beleza e tristeza. As reflexões postas por Khaled são reais e por isso tocam tanto o leitor.

Sobre a estrutura do livro, as cenas, apesar de cronológica, dão saltos e em muitos momentos deixam fios soltos para que o leitor entenda o que aconteceu a partir dos próximos acontecimentos, achei muito legal essa proposta. A composição das frases e dos diálogos foram pensados de maneira a deixar a leitura doce diante de tando fel ali demonstrado. Khaled é o autor do best selles O caçador de pipas e sua fama de bom escritor não perdeu-se em nenhum momento n’A cidade do sol, ao contrário, ele poderia ter o mesmo reconhecimento graças a esse seu segundo título.