O falecido Mattia Pascal | Luigi Pirandello | Abril

PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal. São Paulo: Abril, 2010.

O Falecido Mattia PascalMattia Pascal levava uma vida bem mediana com o seu olho torto e a sogra super chata que ele precisava aturar porque havia engravidado a esposa (e a esposa de um conhecido da família) mesmo sem ter emprego fixo. Cansado de todas as humilhações, saiu um dia para apostar numa casa de azar e ele deu MUITA sorte, depois de uma semana, ele saiu de lá com dinheiro suficiente para levar uma vida confortável para ele para a esposa. O grande x da questão é que quando ele resolveu, de fato, retornar para casa, viu uma manchete no jornal que encontraram um corpo afogado no rio e todos o reconheceram como se fosse o pobre Mattia, então essa foi a deixa que ele usou para assumir uma nova identidade e toca uma nova vida longe dos perrengues da sogra.

Esse livro me lembrou bastante o Memórias póstumas de Brás Cubas, principalmente pelo realismo que chega a ser tragicômico! Outro fator em comum entre ambas as obras é a quebra da quarta parede, em que o narrador, mesmo sendo personagem, tem ciência de que está escrevendo um livro e conversa com seus possíveis leitores.

Mesmo tendo sido escrito no comecinho dos anos de 1900, o humor de Pirandello é atual e nos faz refletir em diversas situações que se aplicam perfeitamente aos dias de hoje. Ciente de ter escrito uma ficção, não tardou e a obra do italiano deu o que falar quando alguns casos parecidos aconteceram na vida real, o limiar indeterminado entre vida e arte.

“Mas o verdadeiro motivo de todos os nossos males, dessa nossa tristeza, você sabe qual é? A democracia, meu caro, a democracia, ou seja, o governo da maioria. Porque quando o poder está nas mãos de um só, ele sabe que é único e que deve satisfazer a si mesmo, então temos a tirania mais difícil e odiosa: a tirania fantasiada de liberdade. Com certeza! Oh, por que você acha que eu sofro? Sofro exatamente por causa dessa tirania fantasiada de liberdade…” P. 150

Um livro indispensável para quem gosta de ler os Clássicos ou para quem quer começar a lê-lo, pois a sua narrativa flui de maneira ímpar, como qualquer romance escrito com linguagem atual, ele é maravilhoso, engraçado e crítico.

O outro lado da moeda | Oscar Wilde | Hedra

Olá, leitores!

Na minha última visita à biblioteca do Centro de Humanidades da UFC me deparei com o O outro lado da moeda e eu precisava levá-lo para casa, pois ao final das contas se tratava de uma obra do Oscar Wilde que eu nunca tinha ouvido falar sobre e, mais ainda, um romance homoerótico, gênero totalmente novo para mim.

O outro lado da moeda foi publicado anonimamente em 1893 e imagino o alvoroço que essa obra deve ter causado na época, pois as cenas de sexo são descritas ricamente e o romance homossexual dos protagonistas é muito lindo.

Oscar Wilde já havia relatado em uma de suas cartas que ‘o que se faz em quatro paredes haverá, um dia, de ser proclamado algum dia’, pois bem, aqui temos o fruto da declaração. Mesmo respondendo a processos por suas atitudes, Wilde não titubeou ao escrever O outro lado da moeda, obra que alguns estudiosos correlacionam com a paixão que o autor teve pelo jovem acadêmico Lord Alfred.

Esse livro repercutiu tanto que foi um dos responsáveis pela conscientização e alteração das leis inglesas referente ao homossexualismo. Em diversos momentos o autor trabalha essa questão com comentários que seguem a linha do “que mal estou fazendo para as outras pessoas? Estou apenas amando e sendo feliz”. O que, de fato, é bem lúcido e vanguardista para a época.

A história desse livro pauta-se no romance entre o aristocrata francês Camille e o pianista René. Essa relação é construída com traços shakespearianos de amor avassalador acima de qualquer coisa. Como René possui uma alma artística, cigana e até mesmo muito supersticiosa, a relação do casal é cheia de misticismo que mais parece novela das 6, aquela coisa forte de almas gêmeas que sentem as mesmas emoções e tal.

Um beijo é algo mais do que o primeiro contato sensual entre dois corpos; é a emanação de duas almas enamoradas.” P. 134

A narrativa é feita por Camille contanto sua história com René muitos anos depois de ocorrida. Ele conversa com alguém que não é nomeado, mas faz perguntas e interage com o narrador.

Como um bom romance erótico, a história é cheia de paixão e as cenas de sexo são consequências de tudo o que os personagens passam. Indo além disso, há cenas, como quando Camille visita a casa noturna que são puramente sexo, sem a romantização de praxe. Ou seja, mesmo seguindo a linha romanesca, o autor demonstra que ele está escrevendo para mostrar a realidade do que acontece, tanto na vida amorosa de um casal homossexual, como a triste vida de uma dama da noite que sofre de tuberculose.

Gostei muito de ter lido O outro lado da moeda, pois ele é um misto de características marcantes e inovadoras para a sua época. É romântico, sensual e naturalista, ou seja, mesmo imbuído de elementos característicos do romance erótico traz ainda as mazelas da sociedade inglesa da época.

A flor da Inglaterra | George Orwell | Companhia das Letras

ORWELL, George. A flor da Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Geroge Orwell é conhecido por sua distopia 1984 e pela fábula A revolução dos bichos. Muito se valoriza pelas críticas sociais oferecidas pelo autor nessas duas obras, mas o que poucas pessoas sabem é que existem críticas mais próximas da nossa realidade em outras obras do autor e esse é o caso de A flor da Inglaterra.

Nesse livro conhecemos a história de Gordon Comstock, um homem de 29 anos de idades sem grandes feitos em sua vida. Advindo de uma família comum e sem nenhum mérito em particular, Gordon é o último descendente homem de seu sobrenome. A irmã, Julia, que sempre se anulou em detrimento dele, nada mais é do que uma trabalhadora que passa o ano dando a vida ao trabalho para ter um pequeno prazer ao final do ano: comprar presentes de natal.

Gordon teve oportunidades na vida, como continuar os estudos após o fundamental e até mesmo arranjar um emprego bom que lhe pagasse bem e houvesse, ainda, a chance de galgar promoções, mas sua alma de poeta se incomodava com os privilégios que o dinheiro lhe proporcionava, queria viver com apenas o necessário e produzir os seus poemas.

Os planos de Gordon saíram pela culatra quando a falta de dinheiro começou a impedi-lo de pensar em outra coisa que não fosse a diferença de classes e na relação Dinheiro x Cultura.

“Ninguém sofre grandes privações com um salário de duas libras por semana, e se sofre, elas não são importantes. É na mente e na alma que a falta de dinheiro prejudica as pessoas. ” P. 75

“Dinheiro para o tipo certo de educação, dinheiro para os amigos influentes, dinheiro para o ócio e a paz de espírito, dinheiro para as viagens à Itália. É o dinheiro que escreve livros, é o dinheiro que os vende.” P. 17

Para além da perene crítica ao dinheiro, Orwell também aborda em diversos momentos a produção cultural neste sentido: como produzir coisas boas? A boa literatura é realmente comercializada ou o que gira o comércio das livrarias é mais do mesmo?

E se aparecer um escritor que mereça ser lido? Será que seremos capazes de reconhecê-lo, tão sufocados estamos com tanto lixo? P. 21

Com uma narrativa bem leve e caricata, A flor da Inglaterra foi uma surpresa boa para mim. Confesso que o peguei na biblioteca pela proposta do “trabalhar com o que se ama ou trabalhar por dinheiro”, que sempre foi um verdadeiro dilema para mim, e acabei gostando mais do que imaginei. Por diversas vezes tive raiva do orgulho de Gordon, mas em outros momentos ri de suas implicâncias e refleti em suas conclusões sobre a vida e o dinheiro.

Orwell é, nesse momento, um dos meus autores preferidos principalmente por sua crítica agridoce, que afaga e bate ao mesmo tempo. Amei A flor da Inglaterra e convido a todos que tiverem a oportunidade de lê-lo a deliciar-se nos dias sujos de um trabalhador londrino.

Mrs. Dalloway | Virginia Woolf | Nova Fronteira

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2015.

Para conseguir concluir essa leitura, comecei e recomecei pelo menos umas cinco vezes antes de engatar de vez. Não é uma leitura tão fluida quanto eu gostaria, mas é um bom livro.

A história de Mrs. Dalloway em si  não traz grandes aventuras ou reviravoltas de tirar o fôlego. Virgínia nos prende pela frugalidade do cotidiano, ela nos convida a olhar novamente para aquilo que já está despercebido e camuflado pela rotina.

Aqui temos Clarissa Dalloway, uma senhora que resolveu dar uma festa para receber conhecidos. Ela faz questão de sair para comprar as flores que decorarão sua recepção e a partir daí ela se perde em inúmeros devaneios durante o seu dia de expectativa e preparo. Como disse anteriormente, a história em si não tem nada de excepcional.

Então, o que torna Mrs. Dalloway tão aclamado e ainda tão vivo no rol dos Clássicos? A priori, o ponto que mais enaltece a obra de V. Woolf é a narrativa, o fluxo de consciência que em dados momentos está claro o narrador externo aos acontecimentos e em diversos outros, perdido nos pensamentos dos personagens.

A criação dos personagens é outra característica marcante nesse livro. Dois protagonistas que são tão diferentes e ao mesmo tempo tão próximos que mais parecem os dois lados de uma única moeda. Há Clarissa, a senhora rica que prepara recepções para os amigos, a mulher casada que optou por uma vida insossa ao lado de um homem que nem ao menos ela ama de verdade, um passado também simplório à exceção de uma única vez que se permitiu beijar uma mulher. Os tons cinza da vida de Clarissa embalam a calmaria desse livro. Septimus, por sua vez, é ex combatente de guerra e já viveu momentos intensos , sentindo-se agora preso à uma vida em que ele vive à expectativa de um acontecimento enquanto ouve a esposa falar das pessoas a sua volta, quanta futilidade.

Os dois protagonistas não interagem durante a história, eles seguem suas vidas como qualquer um. E aí está o charme de Mrs. Dalloway, o cotidiano trabalhado sob diferentes perspectivas. A vida é isso, um dia após o outro acompanhado de certa ânsia, de lembranças, de desejos…

Ao final, gostei de ter lido Mrs. Dalloway pela sensibilidade narrativa da autora e de suas reflexões sobre coisas que ainda existem na atualidade. As construções sociais e críticas aqui empregadas são ricas e demonstram as peculiaridades que o homem nunca conseguiu se desvencilhar.

O Sol é para todos, da Harper Lee

LEE, HARPER. O Sol é para todos. 10° ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

  • Tradução de Beatriz Horta
  • Título original: To kill a Mockinbird
  • ISBN 978-85-03-00949-2
  • Skoob | Good Readers | Amazon

Olá, leitores!

Eu li O Sol é para todos, da Harper Lee, e só tenho um sentimento: Que livro é esse, minha gente? Sensacional!

A autora descreve aqui o cenário de Maycomb, uma cidadezinha do Alabama, nos anos de 1930. Por aqui o que rola são as características das tradicionais famílias que formaram a região. A história é contada por Scout. uma garotinha de 8 anos que passa é muito amiga de seu irmão Jem e são criados pelo pai, Atticus, e pela empregada, Cal.

É engraçado a forma como Harper Lee coloca todas as expectativas que estão em cima do comportamento das garotas da época, como andar de vestido, usar colar de pérolas e pintar as unhas de nude, mas Scout leva o título de selvagem por muitos vizinhos pelo simples fato de que seu pai a deixa brincar com Jem e usar calças. A pequena, assim, desde muito cedo luta contra essas regras impostas pelos gêneros.

[…] Quando eu disse que usando vestido eu não conseguiria fazer nada, ela retrucou que eu não devia fazer nada exigisse calças compridas. P. 108

A discussão central da obra é sobre preconceito de cor e sobre ser justo. Atticus Finch é advogado e foi incumbido de defender Tom Robinson, um negro acusado de estuprar a filha mais velha de Bob Ewell. Os Ewell viviam por trás do lixão e eram conhecidos por viver às custas dos cheques do serviço social, ou seja, não trabalhavam, tinham pouca (quase nenhuma) higiene e pouquíssima educação.

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Atticus é um homem a frente de seu tempo, já considerava os negros como iguais, ao contrário de toda a sociedade racista daquela época. Inclusive, ele e seus filhos sofriam ameaças e chacotas por ter essa visão mais avançada. O pai da família Finch é um homem tão centrado e tão justo que não fazia dois pesos e duas medidas, levaria um familiar ao tribunal, como qualquer outro se ele tivesse feito algo de errado.

A autora fala, ainda, sobre o fanatismo religioso daquela época, em que, para alguns, qualquer tipo de prazer era considerado pecado, mesmo que esse prazer consistisse em cultivar flores no jardim.

[…] às vezes a bíblia na mão de um determinado homem é pior do que uma garrafa de uísque na mão de … ah, do seu pai.

[…]

[…] O que eu quis dizer foi que, mesmo se Atticus Finch bebesse até cair, não seria tão cruel quanto alguns homens mesmo quanto estão completamente sóbrios.  P. 62

O sol é para todos com certeza já entrou para lista das melhores leituras que fiz nesse ano. A escrita descontraída e divertida sob a perspectiva de uma criança inteligente e ávida por conhecer o mundo foi muito instigante, fez com que a trama carregasse diversos temas pesados e fosse leve ao mesmo tempo.

 

Memórias póstumas de Brás Cubas

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril, 2010.

Muito ouvia falar de Machado de Assis, mas não entendia bem como ele conseguia arrancar tantos elogios. Não sei se a inocência das primeiras leituras difíceis me impusessem certo caminhar trôpego aos Clássicos, mas me redimi. Depois da quinta tentativa de ler Memórias Póstumas, finalmente consegui extrair a ironia, o desdenhar e a classe Machadiana.

Brás Cubas é um defunto autor, não um autor defunto, como ele mesmo faz questão de frisar logo nas primeiras páginas, resolveu contar os episódios de sua vida terrena, os desamores e os benefícios de ter nascido numa família abastarda brasileira do século XIX. Desde criança Brás apresenta traços de mesquinharia e egoísmo, não se distancia muito disso durante a vida adulta, Machado de Assis apresenta os primeiros traços da escrita Realista brasileira, fugindo dos padrões românticos de protagonistas e amores perfeitos.

O livro é escrito em pequenos capítulos, alguns tão curtos que não chegam nem até metade da página. Brás faz constantemente referências metalinguísticas e me parece que ele repassou a sua vida numa publicação e aos poucos vai se dando conta de seu jeito mesquinho, como quando ele vai dar uma ajuda financeira a um antigo colega de infância e faz questão de escolher a nota mais surrada para lhe confortar um pouco, ou algo que o valha.

Longe de impor uma obrigação de leitura, como muitas escolas o fazem, aproveito o ensejo para ressaltar que caso você tenha a oportunidade e disposição, dê uma chance à Machado.

Eu li: Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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Lido em e-book

Lygia foi consagrada como contista da década de 40 e apenas dez anos depois (1954, para ser mais precisa) publicou seu primeiro romance, o Ciranda de Pedra, que já ganhou duas adaptações homônimas pela Rede Globo, uma em 1981 e outra em 2008. O sucesso na escrita de estórias curtas foi além, se estendeu para outros gêneros e resultou nessa incrível obra, clássico da Literatura Brasileira.

Considerando sua época de publicação, Ciranda de Pedra é um romance existencialista transgressor, que aborda temas pouco citados até então, como: homossexualismo, traições, doenças psicológicas, desestruturação familiar e questões femininas.

O livro é divido em duas partes, que marcam a infância e o amadurecimento de Virgínia. Quando criança, a protagonista vive situações difíceis de lidar, como a loucura da mãe, o perene sentimento de rejeição vindo do pai e o deslocamento social na presença das irmãs e dos amigos.

Após concluir os estudos, Virgínia volta para a casa do pai e tem que encarar de frente tudo aquilo que a afligia na infância. As coisas mudaram, mas a protagonista ainda guarda muitos sentimentos daquele tempo antigo, o que a surpreende em alguns momentos.

A trajetória de Virgínia é marcada por perdas e ressentimentos, mas sua força de vontade demostra a força de uma mulher para superar seus medos e vencer na vida sem depender de ninguém. Um exemplo muito claro disso é que as irmãs de Virgínia, Bruna e Otávia, são invejadas pela beleza quando crianças, mas são sustentadas pelo pai quando adultas mesmo depois de casada, enquanto que Virgínia, escarnecida por ser diferente e nunca se enquadrar em nada, é a única que se forma e que faz questão de ganhar seu próprio dinheiro (lembrem-se de que estamos falando da década de 50).

Poucas palavras poderiam definir Ciranda de Pedra, bem como todas elas talvez não conseguissem descrevê-lo por completo. A narrativa simples, cheia de lembranças e as emoções carregadas, nada é meio termo nesse romance, é calmaria ou fúria.