A flor da Inglaterra | George Orwell | Companhia das Letras

ORWELL, George. A flor da Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Geroge Orwell é conhecido por sua distopia 1984 e pela fábula A revolução dos bichos. Muito se valoriza pelas críticas sociais oferecidas pelo autor nessas duas obras, mas o que poucas pessoas sabem é que existem críticas mais próximas da nossa realidade em outras obras do autor e esse é o caso de A flor da Inglaterra.

Nesse livro conhecemos a história de Gordon Comstock, um homem de 29 anos de idades sem grandes feitos em sua vida. Advindo de uma família comum e sem nenhum mérito em particular, Gordon é o último descendente homem de seu sobrenome. A irmã, Julia, que sempre se anulou em detrimento dele, nada mais é do que uma trabalhadora que passa o ano dando a vida ao trabalho para ter um pequeno prazer ao final do ano: comprar presentes de natal.

Gordon teve oportunidades na vida, como continuar os estudos após o fundamental e até mesmo arranjar um emprego bom que lhe pagasse bem e houvesse, ainda, a chance de galgar promoções, mas sua alma de poeta se incomodava com os privilégios que o dinheiro lhe proporcionava, queria viver com apenas o necessário e produzir os seus poemas.

Os planos de Gordon saíram pela culatra quando a falta de dinheiro começou a impedi-lo de pensar em outra coisa que não fosse a diferença de classes e na relação Dinheiro x Cultura.

“Ninguém sofre grandes privações com um salário de duas libras por semana, e se sofre, elas não são importantes. É na mente e na alma que a falta de dinheiro prejudica as pessoas. ” P. 75

“Dinheiro para o tipo certo de educação, dinheiro para os amigos influentes, dinheiro para o ócio e a paz de espírito, dinheiro para as viagens à Itália. É o dinheiro que escreve livros, é o dinheiro que os vende.” P. 17

Para além da perene crítica ao dinheiro, Orwell também aborda em diversos momentos a produção cultural neste sentido: como produzir coisas boas? A boa literatura é realmente comercializada ou o que gira o comércio das livrarias é mais do mesmo?

E se aparecer um escritor que mereça ser lido? Será que seremos capazes de reconhecê-lo, tão sufocados estamos com tanto lixo? P. 21

Com uma narrativa bem leve e caricata, A flor da Inglaterra foi uma surpresa boa para mim. Confesso que o peguei na biblioteca pela proposta do “trabalhar com o que se ama ou trabalhar por dinheiro”, que sempre foi um verdadeiro dilema para mim, e acabei gostando mais do que imaginei. Por diversas vezes tive raiva do orgulho de Gordon, mas em outros momentos ri de suas implicâncias e refleti em suas conclusões sobre a vida e o dinheiro.

Orwell é, nesse momento, um dos meus autores preferidos principalmente por sua crítica agridoce, que afaga e bate ao mesmo tempo. Amei A flor da Inglaterra e convido a todos que tiverem a oportunidade de lê-lo a deliciar-se nos dias sujos de um trabalhador londrino.

Publicidade