Fusão do Leia Mulheres de Fortaleza com o Leituras Feministas

Olá, leitores!

Há quanto tempo, não?!

Pois bem, retorno ao blog com uma novidade para quem é de Fortaleza e regiões vizinhas: os clubes de leitura Leia Mulheres (LM) e Leituras Feministas (LF) agora serão intercalados.

Antigamente os clubes ocorriam no segundo (LF) e último (LM) sábado de cada mês, agora os encontros ocorrerão apenas no último sábado, sendo um mês para o LM e um mês para o LF, ficando assim:

  • Agosto – Leia Mulheres (As meninas, de Lygia Fagundes Telles)
  • Setembro – Leituras Feministas (Breve história do feminismo, de Carla Cristina Garcia)
  • Outubro – Leia Mulheres (A definir)
  • Novembro – Leituras Feministas (Feminismo para os 99%: um manifesto, de Nancy Fraster)
  • Dezembro – Leia Mulheres (A definir)

De certo modo, ficou melhor porque quem participa dos encontros do Leia Mulheres agora poderá conversar também sobre livros teóricos feministas além dos romances escritos por mulheres e o grupo em si deve aumentar também, já que haverá apenas um  dia por mês de encontro. A parte chata é que as indicações mensais de leituras foram reduzidas, mas nada que seja de outro mundo, rs.

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Mulheres e poder | Mary Beard | Planeta do Brasil

BEARD, Mary. Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.

Mulheres e Poder - Um Manifesto

Mary Beard é uma historiadora e feminista  de prestígio na atualidade que publicou em Mulheres e poder duas de suas palestras sobre as raízes da misoginia em relação ao silenciamento feminino e na sua atuação como figura de puder.

O primeiro texto, denominado A voz pública das mulheres, traça a construção histórica da mudez feminina, como o seu local de fala foi apagado durante séculos pelo patriarcado, e hoje, mesmo conhecendo termos como mansplaining, ainda é duro conquistar o nosso espaço e o reconhecimento nos grupos em que nos inserimos, pois historicamente o discurso publico sempre foi atrelado a figura masculina.

“[…] as mulheres, mesmo quando não são silenciadas, ainda pagam um preço muito algo para ser ouvidas […]” P.20.

O segundo, Mulheres no poder, discorre sobre a figura feminina em papeis de liderança e o quanto precisamos nos desdobrar ainda mais que os homens para conseguir uma parcela de reconhecimento. Principalmente no ambiente de trabalho, ser mulher é uma luta constante para demonstrar suas competências e não ser reduzida a estereótipos de beleza, como discutimos no capítulo 2 do livro O mito da beleza.

“Em outras palavras, não temos modelo para a aparência de uma mulher poderosa, a não ser que ela se parece bastante com um homem.” P. 63.

Ambos os temas são mais comuns do que podemos imaginar, diariamente lido com o público e percebo como é difícil, principalmente homens mais velhos, aceitar a fala de uma mulher. Diversas vezes já disseram pra eu “chamar meu chefe”, e quando MINHA chefe (não um homem como ele imaginava) chegava e dizia que sim, a pessoa tinha que fazer como eu estava dizendo, era uma indignação só. Ou quando a pessoa chega para o rapaz que senta ao meu lado e pergunta se pode scanear um papel, mas a scanner esta na MINHA mesa e não da dele. Enfim, com certeza você também tem uma história desse tipo para contar, infelizmente.

É interessante como Mary traz temas atuais, seja de casos que passaram na televisão ou de figuras políticas, que conversam com os exemplos trazidos dos Clássicos da Literatura, e ao mesmo tempo com cenas tão corriqueiras no cotidiano. Essa viagem histórica e cultural nos permite entender a construção social que molda a figura feminina em locais de liderança e os fantasmas que ainda precisamos combater diariamente.

 

O mito da beleza | Capítulo 1

Olá, leitores!

Nesse primeiro capítulo, a autora traça uma linha de raciocínio para explicar o que é o Mito da Beleza, como ele surgiu e qual o seu papel na sociedade atual. Podemos perceber que a autora opta por falar sobre uma classe média branca que se enquadra nessas características de luta para sair da efemeridade da vida no lar e ganhar seu espaço no mercado de trabalho.

Desde o renascimento do feminismo, as mulheres ganharam espaço no mercado de trabalho e quebraram tradições quanto ao seu papel social, mas estariam as mulheres realmente livres?

Historicamente, a família era um sistema de produção e a mulher contribuía com sua força de trabalho colhendo verduras ou ordenhando a vaca para vender leite no mercado. Com a Revolução Industrial, as mulheres passaram a ser “domesticadas” devido a sua ociosidade. Mulheres alfabetizadas passaram a gastar o seu tempo com revistas femininas, com beleza e com os cuidados de casa.

As revistas de 1830 e 1840 começaram a estabelecer o “padrão desejado de beleza” e a “preocupação com a beleza” passou a ser algo natural para o universo feminino. A partir daí o estereótipo almejado pelas mulheres tornou-se algo utópico, sendo o ideal de dona de casa perfeita ou a mulher contemporânea que além de ter várias responsabilidades ainda precisa se desdobrar para ter o corpo de uma modelo de 20 anos. Isso provoca uma insegurança enorme nas mulheres que não conseguem atingir tal padrão de beleza, aumentando o auto ódio e a incessante jornada de tentar burlar o curso natural da vida, a velhice.

Uma mulher que equilibra seu tempo entre o trabalho, os estudos e a família, sim, aquela típica mãe de comercial de margarina, pode esconder uma sub-vida de opressão e de ódio ao próprio corpo.

O envelhecimento natural parece um vilão na vida das mulheres. Enquanto os homens mais velhos ganham o título de charmoso e de maduro, mas mulheres que não escondem seus sinais da idade é tida como desleixada. Essa imagem culturalmente enraizada advém de um medo coletivo de mulheres sábias e não é à toa que as bruxas, com sua figura de mulher velha, era vista como má e precisava ser queimada na fogueira.

A 2° onda do feminismo libertou as mulheres da domesticação no lar, mas a sociedade arranjou um jeito de continuar oprimindo as mulheres, agora as tornaram refém de uma neura em relação ao corpo que desgasta o psicológico e o emocional dessas mulheres que estão ocupando o seu espaço no trabalho, nas universidades e nas relações familiares. Quando as mulheres enfim conseguem caminhar com seus próprios passos, a sociedade exige algo mais… além de fazer tudo isso, você ainda precisa parecer uma modelo.

E não é de se admirar que quando alguém que atacar a luta das mulheres ou desmerecer algum trabalho seu, logo atacam a aparência física. “As feministas são masculinas” ou “A fulana pode até ser boa no que faz, mas precisa ser mais feminina”. Isso porque o mito da beleza atua como ferramenta de controle social, uma vez que as mulheres romperam com suas antigas amarras.

O feminismo é para todo mundo | Bell Hooks | Rosa dos tempos

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

o feminismoA ideia de Bell ao escrever esse livro foi de produzir um material acessível para apresentar o feminismo para as pessoas. Muito se fala de feminismo, mas na realidade pouco se conhece de fato as vertentes e ideias defendidas.

A autora começa com um apanhado histórico e evolutivo do feminismo e sua atuação na sociedade no passar dos anos. Relata como o feminismo esteve atrelado aos desejos de uma classe dominante durante anos, fechando os olhos para diferenças sociais.

A evolução e capilaridade do feminismo permitiu a inserção de pautas como sexualidade e a criação de filhos. Achei muito interessante a colocação que Bell faz sobre os abusos sofridos por crianças em casa, pois é comum ouvir falar apenas dos abusos sexuais cometidos por homens, mas raramente levanta-se a questão de abusos psicológicos e emocionais causados por mulheres às crianças. A visão que muitas pessoas têm sobre feminismo é de um movimento contra os homens, mas na verdade é sobre a superação do sexismo cultural que impede um convívio social harmônico.

“Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”

De fato Bell conseguiu alcançar seu desejo de produzir um material didático amplo e de linguagem acessível. É claro que um livro sempre terá suas limitações, uma vez que seu público se restringe a leitores, pessoas que possuem acesso aos livros (o que pode ser considerado um privilégio, de certo modo). O engajamento dos meios de comunicação em massa para remover os estigmas do feminismo é necessário para alcançar cada vez mais pessoas.

A autora aborda diferentes assuntos dentro do feminismo, como aborto, trabalho, raça e gênero, violência, casamento e companheirismo, sexualidade, amor, espiritualidade e política. É uma obra essencial para quem se interessa pelo assunto, pois traz explicações para termos e colocações sobre vários aspectos da sociedade.