HQ | Tina – Respeito

TORQUATO, Fefê. Tina: respeito. São Paulo: Panini Brasil, 2019.

Li essa HQ para o Desafio Leia Mulheres 2020 e simplesmente amei a minha escolha.

Essa HQ faz parte da coleção MSP, que traz a releitura dos personagens da clássica Turma da Mônica. O Tina foi lançado em 2019, ano em que saiu a adaptação cinematográfica do primeiro MSP, o Mônica – Laços, e causou bastante repercussão logo nos primeiros dias.

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Tal repercussão se deu pelo fato de algumas pessoas criticarem o posicionamento da Tina e bibibibóbóbó, mas o que esses críticos de plantão não se deram conta é que essa HQ fez uma releitura da Tina clássica do movimento hippie, lutava pelos direitos das mulheres e demonstrava o cotidiano da jovem adulta na faixa que corresponde aos anos finais da faculdade e ingresso no mercado de trabalho. Ao longo dos anos 80 e 90 a Tina ganhou uma característica mais sexualizada e cheia de estereótipos da moça bonita.

Enfim, já explicada a inspiração, preciso dizer que a arte em aquarela da Fefê é maravilhosa, daquelas que te faz ficar contemplando um quadrinho por vários minutos porque aquela beleza é cheia de nuances que enchem os olhos do leitor.

A história não aborda apenas o assédio no ambiente de trabalho, mas também o cotidiano das mulheres e todos os percalços que encontramos pelo simples fato de sermos mulheres, como andar sozinha, a tensão do ônibus vazio e coisas desse tipo. Logo no começo da HQ tem uma cena que representa muito bem isso, a Tina tá lendo as conversas no grupo da família e a mãe fica direto perguntando se ela já chegou e tal, o pai responde apenas que ela sabe atravessar a rua… bom, claramente os homens não conhecem todos os medos que uma simples volta pra casa pode trazer, não é mesmo?!

O desenrolar da narrativa nos mostra que a nossa principal rede de apoio são as outras mulheres que fazem parte do nosso cotidiano, são elas que nos alertam, nos ouve e pode segurar em nossa mão nos momentos mais difíceis. Isso me lembrou bastante o caso de assédio sexual no coletivo abordado na segunda temporada de Sex Education. Precisamos nos unir cada vez mais para garantir esse suporte mutuo.

Sem mais delongas, quero deixar aqui o convite para a leitura dessa Graphic Novel simplesmente I-N-C-R-Í-V-E-L! Se você tiver a oportunidade de lê-la, não deixe passar.

O falecido Mattia Pascal | Luigi Pirandello | Abril

PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal. São Paulo: Abril, 2010.

O Falecido Mattia PascalMattia Pascal levava uma vida bem mediana com o seu olho torto e a sogra super chata que ele precisava aturar porque havia engravidado a esposa (e a esposa de um conhecido da família) mesmo sem ter emprego fixo. Cansado de todas as humilhações, saiu um dia para apostar numa casa de azar e ele deu MUITA sorte, depois de uma semana, ele saiu de lá com dinheiro suficiente para levar uma vida confortável para ele para a esposa. O grande x da questão é que quando ele resolveu, de fato, retornar para casa, viu uma manchete no jornal que encontraram um corpo afogado no rio e todos o reconheceram como se fosse o pobre Mattia, então essa foi a deixa que ele usou para assumir uma nova identidade e toca uma nova vida longe dos perrengues da sogra.

Esse livro me lembrou bastante o Memórias póstumas de Brás Cubas, principalmente pelo realismo que chega a ser tragicômico! Outro fator em comum entre ambas as obras é a quebra da quarta parede, em que o narrador, mesmo sendo personagem, tem ciência de que está escrevendo um livro e conversa com seus possíveis leitores.

Mesmo tendo sido escrito no comecinho dos anos de 1900, o humor de Pirandello é atual e nos faz refletir em diversas situações que se aplicam perfeitamente aos dias de hoje. Ciente de ter escrito uma ficção, não tardou e a obra do italiano deu o que falar quando alguns casos parecidos aconteceram na vida real, o limiar indeterminado entre vida e arte.

“Mas o verdadeiro motivo de todos os nossos males, dessa nossa tristeza, você sabe qual é? A democracia, meu caro, a democracia, ou seja, o governo da maioria. Porque quando o poder está nas mãos de um só, ele sabe que é único e que deve satisfazer a si mesmo, então temos a tirania mais difícil e odiosa: a tirania fantasiada de liberdade. Com certeza! Oh, por que você acha que eu sofro? Sofro exatamente por causa dessa tirania fantasiada de liberdade…” P. 150

Um livro indispensável para quem gosta de ler os Clássicos ou para quem quer começar a lê-lo, pois a sua narrativa flui de maneira ímpar, como qualquer romance escrito com linguagem atual, ele é maravilhoso, engraçado e crítico.

O quarto de Jacob | Virgínia Woolf |Novo Século

Resultado de imagem para o quarto de jacobO quarto de Jacob é o terceiro livro escrito pela autora inglesa Virgínia Woolf, mas o primeiro que ela ela escreveu sentindo-se livre para criar a sua própria maneira de narrar, pois até então precisava seguir os ditames da editora do irmão sobre os padrões a seguir.

Esse livro traz a história de Jacob, personagem que conhecemos por meio do olhar das pessoas que o rodeiam. O enredo é desconstruído e fragmentado em diversos momentos que o jovem aparece na vida dos conhecidos. Por causa dessa forma de narrar, o livro é comumente associado a escola artística impressionista, uma vez que não há delimitação das formas, mas uma turva construção.

A partir dessas diversas perspectivas, percebemos Jacob como um rapaz de boa família e rico, educado, tímido e muito dedicado ao estudo do Grego, ele chega a viajar para a Grécia e Roma para conhecer os clássicos da cultura europeia. Esses olhares construíram um personagem sem ele nem ao menos ser o principal narrador ou haver um narrador onisciente para descrevê-lo.

A estrutura da narrativa é o que mais chama a atenção durante a leitura, não a história em si, uma vez que não há um fluxo contínuo. Talvez o experimentalismo de Virgínia nessa obra cause estranheza ao leitor, desde as composições frasais à estruturais.

É claro que aquele olhar perspicaz sobre a sociedade e o ser humano está presente aqui também. Interessante destacar dois momentos, a exemplo do referido: primeiramente quando uma senhora está aterrorizada por encontrar-se numa cabine do transporte coletivo com um homem, o seu terror é palpável e a todo momento ela planeja como poderá se defender caso ele tente algo “Decidiu que atiraria o vidro de perfume com a mão direita, e com a esquerda puxaria o fio do alarme” P. 45, sensação bastante comum até hoje, em que as mulheres se sentem ameaçadas na presença de homens desconhecidos, o lado feminista de Virgínia diz olá (rs).

Em outro momento, ela ressalta a incrível habilidade humana de se distrair “Sem dúvida, nossa visa seria muito pior sem o nosso espantoso talento para a ilusão” P. 188, não sei qual a intenção da autora no texto original, mas entendi o ato de ilusão como a capacidade submergir-se em criações culturais para afastar-se da vida real, não necessariamente de criar realidades inexistentes (como em casos amorosos, por exemplo), e isso é bem pertinente! Quantas vezes o leitor não mergulhou em histórias e dramas para fugir de uma realidade insossa ou discrepante da ideal ?! A arte nos salva!

Não sou a leitora mais assídua de Virgínia Woolf, devo ter lido uns 4 ou 5 livros livros dela, mas é possível perceber como alguns elementos se repetem em suas obras, como em A Viagem, que Mrs. Dalloway (protagonista de um outro romance seu) aparece de passagem, ou em Flush, cachorrinho cocker speniel, a mesma raça que aparece em O quarto de Jacob. Enfim… Há traços que perduram por suas obras. 

Em O quarto de Jacob também há um flash do que mais tarde colocaria fim à vida de Virgínia (como já ocorrera em A Viagem anteriormente quando uma personagem descreve a agonia de submergir em águas pesadas), pois uma das personagens pensa em matar-se no Rio Tâmisa: ” – Bem, posso me afogar no Tâmisa – chorava Fanny Elmer, passando depressa pelo Asilo de Órfãos” P. 191. A autora cometeu suicídio aos 59 anos, momento em que encheu os bolsos de pedras e entrou no Rio Ouse, seu corpo fora encontrado apenas semanas depois.

Diante de uma explosão de técnica, que caracterizou de vez Virgínia como uma escritora modernista (com traços impressionais, nesse romance em especial), podemos perceber muito da autora ao longo das páginas.

HQ | Jane

JaneEssa HQ foi criada pela Aline Brosh McKenna, mais conhecida pela adaptação cinematográfica de O diabo veste prada, e saiu pela Pipoca e Nanquim aqui no Brasil.

Assim que li a premissa nesse quadrinho, saí correndo para a loja de HQs da minha cidade (olá, Reboot) para adquirir meu exemplar. Uma jovem órfã sai da casa da tia com o intuito de estudar Arte em NY e para se manter por lá, aceita o emprego de babá de uma criança que se sente muito solitária porque a mãe faleceu e o pai trabalha muito.

Ok, assim como a sinopse nos permite supor, a história é sim clichê daqueles. O desenvolvimento dos personagens ficou bem superficial, talvez porque o leitor não tem muito bem uma noção de tempo em que a história se passa, o que fica parecendo que tudo aconteceu em pouquíssimos dias (o que torna algumas coisas ridículas, como o romance dos protagonistas).

Tirando um pouco do cerne da questão essa celeridade estranha, vamos levar em consideração o enredo em si, o começo é um clichê medonho, mas o desenrolar me surpreendeu, não sei se por eu nunca ter lido Jane Eyre (sim, a HQ é inspirada em Jane Eyre, da Charlotte Brontë). Me incomodou bastante a postura do Rocheste, ele mal conhece a Jane e já sente ciúme dela, algo possessivo, e depois chega com outra mulher  e deixa bem claro que ela é apenas a babá da filha, como se nada tivesse acontecido entre eles… Faltou muito (mas MUITO mesmo) desenvolvimento para a história melhorar e não ter saltos temporais que tornam os acontecimentos estranhos.

Enfim, Jane é uma moça muito dedicada, uma inspiração. A única coisa que me desagradou foi a falta de noção de tempo, pois o dramalhão todo eu já esperava. Acho que eu teria ficado menos chateada se não tivesse pago cerca de 50 reais para ler algo tão mediano.

Heroínas negras brasileiras| Jarid Arraes | Pólen

ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Antes de tudo quer pedir que, caso você trabalhe em escola, tente levar esse livro para seus alunos, ele é mais do que necessário!

Jarid fez um trabalho de mestra, reuniu histórias de mulheres negras que participaram da construção do nosso país, isso é um marco e uma leitura essencial para todos. Isso porque já é difícil se ter heroínas, negras então são quase raras, isso ficou bem evidente pra mim quando li a história de Aqualtune, princesa africana que foi vendida como escrava de procriação para o Brasil, lutou mesmo grávida para proteger Palmares e (pasmem!) foi avó de Zumbi dos Palmares (só lemos sobre ele na escola, sua mãe também foi guerreira na luta contra a escravidão).

O livro é composto de ilustrações em xilogravura, cordéis que contam a história dessas figuras inspiradoras e um breve resumo da vida delas em texto corrido, para quem se interessar em pesquisar mais depois.

E depois de conhecer 15 mulheres maravilhosas, fiquei a imaginar a quantidade de nomes que se perderam por puro racismo e misoginia, esse trabalho deve ser constante e espero ver mais obras assim no mercado.

O desvio | Gerbrand Bakker | Rádio Londres

BAKKER, Gerbrand. O desvio. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019.

O desvio

Ao ler o nome do autor, não consegui identificar se seria homem ou mulher, provavelmente por causa da origem holandesa, ainda tão estranha pra mim. Comecei a leitura assim, às cegas, mas logo percebi que se tratava de um autor homem, isso porque é latente o fetichismo em cima de uma mulher que mora sozinha.

Digo isso por causa de algumas cenas, como por exemplo: homens desconhecidos entram na nova casa da protagonista e ela fica bem a vontade com isso, se fosse a descrição de uma mulher seria bem mais real, no mínimo ela teria ficado com medo de morrer e ligado para a polícia ou corrido para pegar uma faca na cozinha. Além de usar o corpo nu da mulher como marcador de eventualidades, o arrepio ocorre no mamilo, não no pescoço, no braço ou em qualquer outra parte do corpo; constantemente ela fica nua ao ar livre; quando com frio, abraça os seios.

A história se passa em dois meses mais ou menos, quando Emily (ou Agnes, como preferir), foge de sua vida de esposa e acadêmica após descobrir uma doença e de estourar um escândalo na Universidade em que ela trabalha (ela havia ficado com um estudante ou algo parecido).

De um lado acompanhamos Emily e sua solitude na nova casa grande bem interiorana, de outro lado, o marido que tenta descobrir o paradeiro dela para pedir que volte. O afastamento de Emily muito conversa com a biografia de E. Dickinson, seu objeto de estudo na academia. O marido diz que ela estava com problemas e por isso o traiu e quis mudar de vida, será que realmente é necessário haver um problema para querer largar tudo?

No primeiro mês de nova estadia, percebe-se um momento de transição entre a vida urbana e a rural, a sinestesia dessa nova vida é melancolicamente bonita, quase wiccana, como as observações e descrições dos animais e do ambiente (até mesmo do cheiro da antiga dona da casa).

“Ajoelhou-se e olhou para o céu. Nunca tinha visto tantas estrelas antes. Também nunca antes olhara para elas nua e de joelhos no fim de novembro.” P. 73

A história é um aglomerado de segredos e de fatos aleatórios, não sabemos qual a doença que ela tem, nem o que de fato aconteceu na Universidade, não entendi o propósito de se deitar nua numa pedra e de tanger um texugo (que aliás, qual o intuito desse texugo na história?).

Ao final das contas, é interessante perceber os detalhes em comum na vida das três mulheres e a solitude como protagonista, mas a narrativa excessivamente masculina do autor me incomodou, bem como os diálogos fracos. Ah, achei que rolou um sentimento entre o marido e o policial, você também ou é coisa da minha cabeça?

Cidadã de segunda classe | Buchi Emecheta | Dublinense

EMECHETA, Buchi. Cidadã de segunda classe. Porto Alegre: Dublinense, 2018.

Cidadã de segunda classe

Esse livro se passa na década de 60, na Nigéria e na Inglaterra, porém é mais atual do que podemos supor e presente em mais lugares do que imaginamos. É assustadoramente duro e real.

Em Cidadã de segunda classe, Buchi conta a história de Adah, a jovem que sempre foi posta de lado na sua família porque não possuía o mérito de ser um menino. Depois de fazer tudo para ser aceita pelos mais próximos, consegue, a troncos e barrancos, a oportunidade de estudar, algo muito difícil para as meninas nigerianas.

Estudar era algo que deixava Adah satisfeita consigo. Sua instrução tornou-se, então, o seu diferencial e por conta disso arranjou um casamento que aparentava ser sua melhor opção, mesmo a contra gosto do irmão. Dedicada e esforçada, ela passa a sustentar o marido, que estudava para conseguir a certificação de contador.

O sonho de Adah, como o da maioria dos nigerianos, era se mudar para a Inglaterra. Depois de alguns anos ela consegue realizar esse sonho, mas a realidade mostra-se diferente do que ela imaginava, pois mesmo com o seu grau de instrução e com um bom emprego na Biblioteca, ela não passa de uma “cidadã de segunda classe” que precisa morar em estabelecimentos insalubres porque são os únicos locais que aceitam pessoas negras.

Ao longo da narrativa, a protagonista passa a entender a dureza de ser  uma “cidadã de segunda classe”, pois que o termo foge de tudo o que ela almejou para a sua vida. Por ser negra e mãe, esperava-se um padrão de vida abaixo do que Adah imaginava que teria na Inglaterra.

O racismo é latente em cada momento, bem como o machismo. Adah é um exemplo de mulher forte, que luta diariamente pelo seu espaço, mas que não consegue quebrar os grilhões sociais impostos por um péssimo casamento. Ser negra pesou muito mais num país em que ser branco era sinal de dignidade. “O conceito de ‘brancura’ acobertava um sem-número de pecados” p. 68

O desenvolvimento pessoal dela se faz em meio ao sofrimento da maternidade sem apoio e do pouco dinheiro que precisa ser dividido também para pagar os estudos do marido que em nada contribui para o bem estar familiar.

Assim como em As alegrias da maternidade, podemos perceber a influência do cristianismo trazido pelos britânicos para a população nigeriana. O machismo que já era cultural do local ganha mais subterfúgios para manter-se vivo.

“Aqueles malditos missionários! Haviam ensinado a Adah todas as coisas boas da vida, haviam lhe ensinado a Bíblia, segundo a qual a mulher deve estar disposta a ceder ao seu homem em todas as coisas, e que para o marido ela deve ser mais preciosa que rubis.” P. 41

Buchi aproveita o ensejo da religiosidade exacerbada para criticar os privilégios do povo branco. “Algumas pessoas eram criadas com todas as coisas boas prontinhas à espera delas, outras apenas como enganos. Enganos de Deus.” p.167.

Ao observar a vida dos brancos, principalmente depois de sua estadia na maternidade, ela percebe as injustiças acarretadas só por causa da cor de sua pele. Desenvolve um olhar mais crítico sobre a sua condição e desperta a jovem de personalidade forte que estava latente.

Fiquei super ansiosa para ler a continuação desse livro, que a Dublinense publicou nesse primeiro semestre de 2019, o No fundo do poço. Cidadã de segunda classe é um retrato vivo da condição de muitas mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos, machismo e racismo.