Bom dia, Verônica | Raphael Montes e Ilana Casoy | Darkside

MONTES, Raphael; CASOY Ilana. Bom dia, Verônica. 2°ed. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016. 256p.

Bom dia, Verônica é um Thriller brasileiro publicado em 2016 sob o pseudônimo de Andrea Killmore e ganhou sua segunda edição com a revelação dos nomes dos autores da obra, bem como com o anúncio da compra dos direitos para adaptação pela Netflix em 2020.

Esse livro possui duas linhas narrativas, a primeira sendo em primeira pessoa pela Verônica e a segunda, em terceira pessoa onde acompanhamos a vida de Janete. É interessante a escolha dessa diferença de narradores, principalmente porque enquanto Verônica é uma mulher policial, desinibida e astuta, Janete é aquela mulher submissa que apanha do marido, ou seja, ela não tem voz nem mesmo para contar a própria história.

Verônica é uma escrivã da Polícia Civil realocada para a função de secretária depois de alguns escândalos familiares e de sua tentativa de suicídio. Quando Marta Campos se suicida na delegacia, Verônica logo sente certa empatia por ela e resolve investigar o golpe que levou a moça a tal ato de desespero.

Em sua jornada, Verônica também se depara com o caso de Janete, que informa sobre os assassinatos cometidos pelo marido, o que vira mais um caso para sua empreitada de investigações ilegais.

Sim, Verônica, atual secretária da PC, investiga dois casos sérios de maneira ilegalmente, pois o seu superior não faz a menor ideia do que ela está fazendo.

Esse livro tem uma série de problemas que eu nem sei como abranger tudo isso, vou aqui separar por categorias e depois explicar cada uma delas melhor em um post que eu me permita dar spoilers.

Bom dia, Verônica foi o pior livro que eu li nesse ano de 2020. Infelizmente, uma história que tinha um plot bacana se tornou um show de horror (e não foi por causa das cenas de tortura), pois é super racista, misógino e preconceituoso.

E antes que alguém fale “ah, mas os autores podem só estar querendo fazer uma crítica, isso e aquilo outro”, não, eles não estão. Qualquer leitor é capaz de diferenciar um relato crítico de um relato racista, por exemplo.

Em um cenário delicado que vivemos no Brasil, principalmente por termos na presidência uma pessoa que quer acabar com a cultura indígena, bem como desapropriar as suas terras, faz chacota ao visitar uma tribo quilombola e abertamente é machista, é muito complicado jogar o livro Bom dia, Verônica para olhares que não conseguem lê-lo de maneira crítica. Não estou aqui julgando quem amou esse livro, até porque eu vi que várias pessoas deram 5 estrelas e o favoritaram no Skoob e no GoodReads, mas vamos por partes.

– A partir daqui o texto contém spoiler –

Nessa história, o serial killer é um índio que ouve músicas da sua tribo enquanto está indo pegar as suas vítimas, bem como a sua avó índia pinta o corpo dele com desenhos indígenas usando jenipapo. Quando Verônica descobre que ele tem ascendência indígena, a única coisa que ela pesquisa são os rituais que envolvem morte. Esse tal serial killer agride a esposa com murros ritmados como se estivesse tocando um tambor… Bom, será que os autores estão sendo tendenciosos com relação a figura indígena??

Ainda falando em racismo, em um dado momento, Verônica vai abastecer o carro dela e o frentista é negro, então ela logo começa a sua análise “altamente sensata” (sarcasmo) sobre ele:
“[…] o típico cafuçu que não serve para casar, mas que é ótimo para trocar o óleo.
Heloísa, uma amiga das antigas, […] era especialista nesses homens: em geral, jovens da periferia, prestadores de serviço, de corpo gostoso, sem modos e desletrados, mas com pegada forte, abafando sem só na costela, os reis da foda mágica sem compromisso e sem ônus.” p.215

Vou deixar aqui esses dois exemplos para que vocês possam refletir sobre.

Com relação à misoginia, é impossível contar nos dedos tudo o que encontramos aqui, mas vamos lá…
Verônica chama um ou outro de machista, mas ela é uma das personagens mais machistas desse livro! A começar por sua fixação pra andar maquiada, ela usa maquiagem até para não parecer maquiada, diz que teve a melhor transa da vida dela depois que pintou os cabelos de loiro e emagreceu 5 quilos, pois agora ela era uma outra mulher.

A filha da Verônica é ser mais desprezado dessa história, a mãe não troca uma palavra com ela, mas acompanha o filho para o campeonato de natação dele. O filho atleta recebe alimentação rica, enquanto que a filha gordinha não é incentivada a fazer exercícios e a mãe ainda sugere uma “dieta NAZISTA” para a criança que tem apenas 9 anos de idade. Sim, os autores usaram o termo “dieta nazista”, agora me digam vocês, o que é uma dieta nazista?? 1 pão, 1 copo d’água e um dia de trabalho forçado?

Ainda sobre a misoginia, Verônica se propõe a investigar dois casos, certo?! Por estar trabalhando por debaixo dos panos, é natural que ela encontre dificuldades em seu caminho, então, o que é o mais sensato a fazer?! Bom, para os autores de Bom dia, Verônica é trocar informações por paquera e sexo, tentando colocar aí uma incapacidade que as pessoas insistem em colocar na figura feminina, o famoso “ela deu pra quem pra conseguir tal coisa??”.

Na figura de Janete conseguimos perceber que os autores até colocaram sua situação com um olhar crítico, ela representa uma gama de mulheres que sofrem nas mãos de seus companheiro. Diante de uma personagem que FINALMENTE faz uma crítica social, qual a reação da Verônica?! “Suspirei, exausta daquela ladainha de síndrome de mulher espancada.” p. 190.

Quando Verônica descobre que está sendo traída, ela coloca a culpa na amante, não vai tirar satisfação com o marido. Porque, claro, é muito mais fácil culpar a mulher pela destruição da sua família. Esse livro é tão misógino que se eu fosse pontuar TODAS as cenas desse tipo, seria mais fácil eu sentar e ler do começo ao fim para vocês.

Além disso, a história é bem preconceituosa quando ao serviço público brasileiro, há momentos em que Verônica chama de “filosofia do serviço público” ideias como “por que fazer hoje se eu posso fazer amanhã?”. A própria Verônica em si é uma policial totalmente sem ética em seu trabalho, troca favores por sexo, faz investigação não autorizada, chantageia, instala câmeras sem mandato e chega a entregar um frasco de veneno para Janete matar Brandão.

Claro que em todos os lugares há funcionários de todos os tipo, mas a protagonista desse livro deixa claro o que há de pior no serviço público brasileiro como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas não podemos normatizar o errado.

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