Ponto Cardeal | Léonor de Récondo |Dublinense

RÉCONDO, Léonor de. Ponto Cardeal. Porto Alegre: Dublinense, 2020.

A francesa Léonor trouxe Matilda e Lauren em pouco mais de 150 páginas de maneira sucinta, mas muito envolvente. Acho que esse é o primeiro livro com a temática trans que leio e gostei bastante dessa experiência.

Ponto Cardeal foi um dos livros mais lidos pelos jovens franceses nos últimos anos, a sua temática envolta ao drama familiar conquistou o coração dos leitores. Aqui Laurent, o pai dedicado e trabalhador, aproveita as noites no Zanzi Bar para dar vida à Matilda, uma loira exuberante que dança e se entrega como se não houvesse amanhã e volta a ser Laurent após entrar no carro e pegar a maleta prata para guardar seus acessórios.

Em meio a essa luta interior e a um mal entendido, Laurent resolve contar para a família que na verdade ele é mulher mesmo tendo negado durante todos esses anos.

– Mas tem outra coisa que eu quero que vocês saibam. Uma coisa da qual eu nunca tive nenhuma dúvida. Se por um lado eu jamais me senti homem, por outro eu sempre me senti pai.” P. 80

A partir daqui, ele vai ter que lidar com a rejeição do filho, a insegurança da filha e o medo da esposa que jura de pé junto que esse é um problema para psiquiatra.

-Mas ninguém aqui pediu a tua opinião, a gente está se lixando!
E acrescenta, olhando-o fixamente:
-Otário.
Todos ficaram paralisados, menos Laurent, que também encara o filho e responde pausadamente:
-Otária, por favor, otária.
” p. 109

Mesmo que a autora tenha se proposto a demonstrar os aspectos sociais e familiares dessa transição, ainda que tenha passado pelos dilemas familiares e laborais, foi de maneira superficial. Não há grandes embates ou reflexões sobre a temática durante a leitura, mas nos apresenta uma visão ampla de maneira divertida e envolvente.

“- O que te incomoda, de verdade? Você poderia sinceramente afirmar que eu sou menos eficaz do que antes?
O chefe se mexe na sua cadeira, enxuga uma gota de suor na testa.
– Você sabe, se dependesse só de mim… Todo mundo é livre para fazer o que quer, homens e mulheres. Mas eu sou obrigado a falar do ponto de vista coletivo da empresa, entende?
– Não!
” P. 152

Gostei bastante dessa experiência de leitura, me diverti e torci pelo espaço de Lauren desde o começo. Fiquei feliz com o desenrolar da trama, mesmo que em alguns aspectos não tenha se aprofundado.

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