Querida konbini | Sayaka Murata | Estação Liberdade

MURATA, Sayaka. Querida Konbini. Tradução de Rita Kohl. 1°ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.

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Detalhe para o pão recheado que fiz, rs.

Vez ou outra reflito sofre os problemas de se colocar a felicidade em coisas que ainda estão por vir, digo isso no sentido de que as vezes a gente passa por momentos tão degradantes porque esperamos que com isso talvez a felicidade apareça com o passar do tempo.

A grande questão é o quanto isso nos sobrecarrega de ansiedade e infelicidade. Precisamos mesmo nos esfolar de trabalhar hoje para curtir a vida apenas com a chegada da aposentadoria? Qual é, então, o significado de viver? Nosso estilo de vida nos permite sermos felizes?

Não falo no sentido do comodismo, do tipo “estou feliz com minha vida e não buscarei aprimoramento” (e aqui coloco aprimoramento nos mais diversos setores, seja pessoal, espiritual, intelectual, profissional etc), mas sobre conseguir aproveitar o hoje enquanto galgamos coisas melhores (não apenas no sentido financeiro, pode ser numa realização pessoal ou profissional).

Quando li a sinopse de Querida Konbini, logo pensei nisso tudo, sobre como está tudo bem você ser feliz hoje e não projetar a sua felicidade em algo futuro que poderá nunca chegar. Keiko Furukura é uma mulher de 36 anos que trabalha em uma konbini (uma espécie de loja de conveniência muito comum no Japão), local que serve de emprego  temporário para estudantes ou para mulheres que precisam complementar a renda em casa, pois a remuneração não é lá essas coisas (olha só esse toque machista de homem provedor da família, em?!).

Keiko entrou em simbiose com a konbini onde trabalha, está  acostumada aos seus cheiros, sons e cores, vive em função desse emprego mesmo que seja criticada pela família e pelos familiares por nunca ter conseguido algo melhor. Esse apego ao local de trabalho se deve, principalmente, por Keiko, finalmente ter conseguido se sentir parte de algo, pois nunca se sentiu abraçada pelas regras da sociedade por causa do seu jeito de ver a vida ser considerado anormal e estranho (ela tem uns pensamentos bem fora da linha de normalidade, como não achar nada demais se livrar de um bebê porque o choro incomoda e coisas desse tipo).

As críticas que as pessoas fazem a Keiko a incomodam bastante e ela se sente constantemente obrigada a dar satisfações só para não se sentir ainda mais excluída. Me pergunto que mal faz ela continuar nesse emprego que a deixa feliz e com sentimento de completude… E é esse o ponto, ela poderia estar ralando para se qualificar com o intuito de arranjar outro emprego para ganhar melhor e ser mais feliz, mas será que outro emprego a deixaria mesmo feliz??

Passo a pensar no limiar entre felicidade e zona de conforto e como podemos fazer para a escalada não ser só sofrimento… Como, ao final das contas, equilibrar felicidade presente e aperfeiçoamento (lembre-se que não me refiro só a financeiro/ profissional)?!

A narrativa de Sayaka Murata segue suavemente, combinando com a rotina de Keiko. Querida Konbini é um livro curtinho que traz algumas reflexões sobre essa questão de felicidade, encaixe social e trabalho.

“Nos serviços braçais, se você perde a saúde, deixa de ser útil. Por mais dedicada e séria que eu seja, quando meu corpo envelhecer, talvez eu não tenha mais utilidade para a loja.” p. 82

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