As mães | Brit Bennett |Intrínseca

BENNETT, Britt. As mães. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

As mãesComprei esse livro só porque estava de promoção na Amazon, custava algo em torno de oito reais, então aproveitei mas já tinha colocado na cabeça que se eu não o lesse logo, o abandonaria eternamente na estante por não ter me chamado tanta atenção assim.

Diante de minha baixa expectativa, Brit Bennett me surpreendeu bastante com as vidas das mulheres que ela tece em As mães. Nádia é uma jovem que vive à sombra do suicídio da mãe e se envolve com o filho do pastor da igreja local, a Upper Room, o que resulta na ida da garota à clinica de aborto e a partir daí segue-se o desenrolar dos segredos dos personagens.

Luke, o filho do pastor, mostra-se um completo irresponsável ao abandonar Nádia na clínica e ainda pensar ter razão “– Olha só, essa história toda era para a gente se divertir, não para virar esse dramalhão do cacete – disse ele. – Eu arranjei o dinheiro. O que mais você quer que eu faça” p.35, o que pode ser um reflexo de sua criação meio desgarrada e alimentada pela hipocrisia familiar. Desse primeiro episódio é possível refletir sobre gravides na adolescência e o eterno embate entre o moralismo religioso e o aborto.

Para além dessa questão, a autora também aborda a vida dos negros nos Estados Unidos, que moram em bairros periféricos, que entram para o exército para não morrer pela polícia na rua etc. A própria Nádia, que por volta dos anos de 2009, marcado pela eleição de Barack Obama, é a primeira da família a entrar na Faculdade e se mudar para uma cidade maior. A realidade é perene nas questões raciais, sociais e femininas.

Quando Nádia está na Faculdade, seu mundo se transforma, ela começa a refletir sobre racismo velado e arranja um namorado, Shadi, que é ótimo nos debates, um perfil completamente diferente de Luke, que continua em sua cidade mas consegue se afundar ainda mais ao se envolver com outros homens escrotos do tipo: “– Se ela quer se livrar do seu filho, você não pode dizer nada. Mas e se ela quiser ficar com a criança? Adivinha a quem ela ia pedir dinheiro? Quem ia parar na cadeia se não tivesse grana para pagar? Os homens não têm mais direitos nessa porra, não. […] – É tudo errado, a gente sabe. Eu amo minha mulher mais do que tudo, mas se matar meu filho, eu mato ela também.” p. 117.

Esse abismo entre Nádia e Luke cresce e suas vidas tomam rumos diferentes até que a jovem precisa voltar para ajudar o pai e é necessário enfrentar todos os seus antigos fantasmas já deixados para trás. Agora com seu requinte de pessoa viajada e com amizades cosmopolitas, ela observa a comunidade com outros olhos.

Outras questões femininas são tratadas ao longo do livro, como abuso sexual, ‘papel da esposa’ socialmente imposto e o ‘papel da mulher’ da/na igreja por exemplo. É incrível como em 250 páginas a autora conseguiu levantar assuntos tão pertinentes sem perder seu tom narrativo suave.

Esse seria um livro traz uma gama de assuntos pertinentes que ainda carecem de discussão na nossa sociedade ao mesmo tempo que alivia um pouco a trama com os personagens e ‘zumzumzum’ caricatos de uma congregação religiosa.

Gostei muito dessa leitura e de todas as reflexões que ela trouxe. Não chegou a ser uma história de mudar a vida, mas considero um livro importante.

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2 comentários em “As mães | Brit Bennett |Intrínseca

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