Leia mulheres | março e abril de 2019

Olá, leitores!

Estou atrasada com a leitura dos livros do Leia Mulheres de Fortaleza, mas bola pra frente o carnaval está aí para colocarmos as leituras em dia, não?!

Vamos conhecer os livros de março e abril para o projeto…

Março

O livro de março é o FOME, uma autobiografia que relaciona as mudanças no hábito alimentar de uma menina após ela sofrer abuso sexual aos 12 anos.

O encontro será no dia 30 de março na Livraria Cultura de Fortaleza.

FOME Nesta autobiografia escrita com sinceridade impressionante, a autora best-seller Roxane Gay fala sobre como, após sofrer um abuso sexual aos doze anos, passou a utilizar seu próprio corpo como um esconderijo contra os seus piores medos. Ao comer compulsivamente para afastar os olhares alheios, por anos Roxane guardou sua história apenas para si.

Até conceber este livro. Esta não é uma narrativa bem-sucedida de perda de peso. E este também não é um livro que Roxane gostaria de escrever. Entretanto, é uma história que precisa ser contada, e ela o faz com seu estilo contundente e impetuoso, ainda que dotado de um humor mordaz, características que a tornaram uma das vozes mais marcantes de sua geração. “Fome” é um relato ousado, doloroso e arrebatador.

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Abril

Em abril teremos Literatura Africana (oba!!) com As alegrias da maternidade. Confesso que pelo título pensei que o livro se tratasse de uma não-ficção, mas fiquei animada com a leitura depois de conferir a sinopse.

O encontro será no dia 27 de abril na Livraria Cultura de Fortaleza.

AS_ALEGRIAS_DA_MATERNIDADE_.jpg Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.

 

 

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Até a próxima! ❤

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VOX | Christina Dalcher | Arqueiro

DALCHER, Christina. Vox. São Paulo: Arqueiro, 2018.

VOXQuando li a premissa desse livro fiquei com muita vontade de lê-lo. Parecia um pouco com O conto da aia, mas com certo distanciamento para evitar tantas comparações. Iniciei a leitura empolgada, mas Vox não me encantou.

A história se passa em um futuro não muito distante em que a direita extremista está no governo americano com o seu excesso de religião e necessidade de reafirmar a “pureza” dos seus aliados. Isso me lembra bastante o governo atual do Brasil, que prima pelos “cidadãos de bem” e querem pautar suas atitudes em fundamentos religiosos. Ao final, o que se passa em Vox se distanciou do gênero distopia e me pareceu um provável segundo governo do Bolsonaro no Brasil.

A proposta do livro é excelente, mulheres com sua fala reduzida a 100 palavras do dia e agora fora do mercado de trabalho, limitando-se às tarefas domésticas com o máximo de puritanismo possível. O plot da história se dá quando o irmão do presidente sofre um acidente e o governo precisa que a Dra. Jean produza o soro resultante de sua pesquisa da época da academia. Ao longo dos dias, Jean descobre o que o governo realmente quer fazer com o produto de suas pesquisas.

Como disse, a premissa do livro é excelente, envolve condição feminina, governo extremista e pesquisa acadêmica. Porém, a escrita da autora não me pegou de forma alguma, a história é entrecortada demais, tenta inserir vários elementos que não saem da superficialidade e alguns acontecimentos parecem ter surgido do nada, como quando Jean começa a vomitar na sala de Lorenzo sem nenhum vestígio anterior do que estava por vir ou quando Patrick começa a falar de Lorenzo como se fosse a coisa mais normal do mundo… Detalhes que não se encaixam e parecem surgir só pra dar um climão, mas acabou estragando a trama do enredo em si.

A discussão social e política sobre essa sociedade até tenta se construir, no que seria os dias de hoje, com a tentativa das acadêmicas de lutar por seus direitos e a atuação de Jackie na TV para expor o lado das feministas, mas não passa de relapsos de memória da protagonista, não há nada aprofundado nesse quesito.

“Minha culpa começou há duas décadas, na primeira vez em que não votei, nas vezes incontáveis em que disse a Jackie que estava ocupada demais para ir a mais das suas passeatas, fazer cartazes ou ligar para meus congressistas. ” P. 215

A leitura de Vox flui muito bem, pois os capítulos são muito curtinhos e a escrita da autora é rápida. A história já apresenta todos seus elementos, sem necessidade de grande aprofundamento e isso me incomodou bastante, pois me senti lendo um romance distópico fraco. Indico o livro para quem gosta de distopias adolescentes, pois achará o Vox sensacional, mas não é uma boa escolha para quem gosta de histórias mais densas e com camadas a explorar.

Um conto de natal | China Miéville | Boitempo

MIÉVILLE, China. Um conto de natal. São Paulo: Boitempo editorial, 2018.

MIÉVILLE, China. Um conto de natalChina Miéville é um dos grandes nomes da atualidade no gênero New Weird, principalmente com seus livros A cidade e a cidade e Estação Perdido. Em 2018 publicou esse pequeno conto de natal, que foi publicado originalmente pela Pan Books, chegou ao Brasil pela Folha de São Paulo e agora ganhou uma edição pela Editora Boitempo.

Apesar da história curtinha, o autor apresenta ao leitor um cenário futuro onde as empresas privatizaram tudo relacionado ao natal e as frentes revolucionárias de esquerda tentam a todo custo lutar pelo direito de comemorar essa data festiva como antes.

O mais interessante é perceber a naturalidade como os conceitos sofreram grandes alterações, pois a data mais capitalista do nosso calendário virou alvo de reivindicação do lado mais “social” e menos “lucros”. Ao final das contas será mesmo que isso já não ocorre singelamente atualmente?! Independente da faixa salarial, o clima natalino não pega a todos? E se, de fato, o capitalismo chegar a comprar os direitos dos itens de natal? Impossível??

“Vemos com desdém as tentativas patéticas da velha Esquerda de reviver esta cerimônia Cristã. A ideia de que o governo ‘roubou’ ‘nosso’ Natal é tão somente um aspecto do domínio dessa Cultura do Medo que rejeitamos. Chegou a hora de uma reavaliação além da esquerda e da direita, e de forças dinâmicas revigorarem a sociedade. No mês passado, nós do IIMV organizamos uma conferência no ICA sobre por que greves são chatas e por que a caça à raposa é o novo pretinho básico…”

Miéville, China. Um conto de Natal . Boitempo Editorial. Edição do Kindle.

Isso me lembra a questão do sono e de como somos inúteis ao capitalismo quando estamos dormindo e como cada vez mais aparecem subterfúgios para que as pessoas durmam menos, ocupem mais o seu tempo, passem mais tempo ao celular antes de dormir… Estão, aos poucos, comprando até mesmo o nosso sono, acredite.

Além dessa questão capitalista, é possível refletir também sobre a construção das bolhas sociais em que grupos as vezes lutam por causas parecidas, mas não conversam entre si, pois há muito perderam essa capacidade de dialogar com aqueles que pensam um pouco fora do seu padrão.

Esse conto reúne várias críticas à sociedade atual com uma narrativa tão leve que em pouco tempo o leitor já se encontra submerso nessa realidade sem precisar de muita explicação. Os detalhes simplórios são o que cativam e traz a história para mais perto de nós, como as Aspidistras tão comuns na Inglaterra e os presentes clichês de natal.