Qual a tua obra? | Mario Sergio Cortella

CORTELLA, Mario Sergio. Qual a tua obra? Inquietações propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética .25° ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2017.

Impossível não conhecer Cortella ou não ter ouvido ainda alguma de suas observações sobre a vida contemporânea, seja numa entrevista ou em um vídeo que algum professor usou em sala. Ele é muito considerado atualmente pelas reflexões sociais que faz, um filósofo da atualidade.

Pelo subtítulo de Qual a tua obra? parece que esse livro é voltado apenas para pessoas que exercem cargos de liderança, mas não é bem assim. Os assuntos abordados por Cortella se encaixam perfeitamente na vida de qualquer trabalhador, seja sobre o descobrimento da sua obra ou os dilemas éticos.

E é nesses dois extremos do livro que vou me deter. Achei muito interessante essa ideia de você descobrir a sua obra. Eu, como trabalhadora comum que não exerce nenhum cargo de liderança, sempre tive episódios de insignificância operária, momentos em que não via sentido algum no que estava fazendo, apenas operava para receber o meu ordenado ao final do mês. Depois que li esse livro percebi que eu melhorava e me dedicava mais ao trabalho quando eu conseguia vislumbrar essa “obra”.

“A espiritualidade no mundo do trabalho é necessária. O que é espiritualidade? É a sua capacidade de olhar as coisas não com um fim em se mesmas, que existem razões mais importantes do que o imediato. Que aquilo que você faz, por exemplo, tem um sentido, um significado.” P. 13

Conseguir enxergar qual é a sua obra é muito importante para a sua dedicação, pois a partir daí você vai buscar a formação continuada, investir em empresas que invistam em você e retornar a significância que o trabalho trouxe para a sua vida.

Os dilemas éticos não acontecem apenas ao nível estratégico de uma empresa, em que o empresário precisa decidir se entrará ou não em determinado esquema para aumentar os seus lucros. Esses dilemas estão presentes também na vida dos colaboradores em todos os níveis, vejam só a atitude um um funcionário de desviar materiais de escritório, como canetas e clipes, bem como de beneficiar a uns no atendimento são exemplos de dilemas éticos rotineiros os quais quase nunca são tomados para reflexão, mas deveriam.

“A ética é um conjunto de princípios e valores que você usa para responder as três grandes perguntas da vida humana: Quero? Devo? Posso? P. 104

Todas as pessoas que trabalham poderiam ler esse livro e concluí-lo sentindo-se um colaborador melhor, determinado a dar o melhor de si para auxiliar em sua obra. É uma leitura muito rápida, cheia de exemplos reais e de ensinamentos.

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A flor da Inglaterra | George Orwell | Companhia das Letras

ORWELL, George. A flor da Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Geroge Orwell é conhecido por sua distopia 1984 e pela fábula A revolução dos bichos. Muito se valoriza pelas críticas sociais oferecidas pelo autor nessas duas obras, mas o que poucas pessoas sabem é que existem críticas mais próximas da nossa realidade em outras obras do autor e esse é o caso de A flor da Inglaterra.

Nesse livro conhecemos a história de Gordon Comstock, um homem de 29 anos de idades sem grandes feitos em sua vida. Advindo de uma família comum e sem nenhum mérito em particular, Gordon é o último descendente homem de seu sobrenome. A irmã, Julia, que sempre se anulou em detrimento dele, nada mais é do que uma trabalhadora que passa o ano dando a vida ao trabalho para ter um pequeno prazer ao final do ano: comprar presentes de natal.

Gordon teve oportunidades na vida, como continuar os estudos após o fundamental e até mesmo arranjar um emprego bom que lhe pagasse bem e houvesse, ainda, a chance de galgar promoções, mas sua alma de poeta se incomodava com os privilégios que o dinheiro lhe proporcionava, queria viver com apenas o necessário e produzir os seus poemas.

Os planos de Gordon saíram pela culatra quando a falta de dinheiro começou a impedi-lo de pensar em outra coisa que não fosse a diferença de classes e na relação Dinheiro x Cultura.

“Ninguém sofre grandes privações com um salário de duas libras por semana, e se sofre, elas não são importantes. É na mente e na alma que a falta de dinheiro prejudica as pessoas. ” P. 75

“Dinheiro para o tipo certo de educação, dinheiro para os amigos influentes, dinheiro para o ócio e a paz de espírito, dinheiro para as viagens à Itália. É o dinheiro que escreve livros, é o dinheiro que os vende.” P. 17

Para além da perene crítica ao dinheiro, Orwell também aborda em diversos momentos a produção cultural neste sentido: como produzir coisas boas? A boa literatura é realmente comercializada ou o que gira o comércio das livrarias é mais do mesmo?

E se aparecer um escritor que mereça ser lido? Será que seremos capazes de reconhecê-lo, tão sufocados estamos com tanto lixo? P. 21

Com uma narrativa bem leve e caricata, A flor da Inglaterra foi uma surpresa boa para mim. Confesso que o peguei na biblioteca pela proposta do “trabalhar com o que se ama ou trabalhar por dinheiro”, que sempre foi um verdadeiro dilema para mim, e acabei gostando mais do que imaginei. Por diversas vezes tive raiva do orgulho de Gordon, mas em outros momentos ri de suas implicâncias e refleti em suas conclusões sobre a vida e o dinheiro.

Orwell é, nesse momento, um dos meus autores preferidos principalmente por sua crítica agridoce, que afaga e bate ao mesmo tempo. Amei A flor da Inglaterra e convido a todos que tiverem a oportunidade de lê-lo a deliciar-se nos dias sujos de um trabalhador londrino.

Mrs. Dalloway | Virginia Woolf | Nova Fronteira

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2015.

Para conseguir concluir essa leitura, comecei e recomecei pelo menos umas cinco vezes antes de engatar de vez. Não é uma leitura tão fluida quanto eu gostaria, mas é um bom livro.

A história de Mrs. Dalloway em si  não traz grandes aventuras ou reviravoltas de tirar o fôlego. Virgínia nos prende pela frugalidade do cotidiano, ela nos convida a olhar novamente para aquilo que já está despercebido e camuflado pela rotina.

Aqui temos Clarissa Dalloway, uma senhora que resolveu dar uma festa para receber conhecidos. Ela faz questão de sair para comprar as flores que decorarão sua recepção e a partir daí ela se perde em inúmeros devaneios durante o seu dia de expectativa e preparo. Como disse anteriormente, a história em si não tem nada de excepcional.

Então, o que torna Mrs. Dalloway tão aclamado e ainda tão vivo no rol dos Clássicos? A priori, o ponto que mais enaltece a obra de V. Woolf é a narrativa, o fluxo de consciência que em dados momentos está claro o narrador externo aos acontecimentos e em diversos outros, perdido nos pensamentos dos personagens.

A criação dos personagens é outra característica marcante nesse livro. Dois protagonistas que são tão diferentes e ao mesmo tempo tão próximos que mais parecem os dois lados de uma única moeda. Há Clarissa, a senhora rica que prepara recepções para os amigos, a mulher casada que optou por uma vida insossa ao lado de um homem que nem ao menos ela ama de verdade, um passado também simplório à exceção de uma única vez que se permitiu beijar uma mulher. Os tons cinza da vida de Clarissa embalam a calmaria desse livro. Septimus, por sua vez, é ex combatente de guerra e já viveu momentos intensos , sentindo-se agora preso à uma vida em que ele vive à expectativa de um acontecimento enquanto ouve a esposa falar das pessoas a sua volta, quanta futilidade.

Os dois protagonistas não interagem durante a história, eles seguem suas vidas como qualquer um. E aí está o charme de Mrs. Dalloway, o cotidiano trabalhado sob diferentes perspectivas. A vida é isso, um dia após o outro acompanhado de certa ânsia, de lembranças, de desejos…

Ao final, gostei de ter lido Mrs. Dalloway pela sensibilidade narrativa da autora e de suas reflexões sobre coisas que ainda existem na atualidade. As construções sociais e críticas aqui empregadas são ricas e demonstram as peculiaridades que o homem nunca conseguiu se desvencilhar.