Sobre o conto | O poço e o pêndulo, de Edgar Allan Poe

POE, Edgar Allan; O poço e o pêndulo. In: POE, Edgar Allan; Edgar Allan Poe: Medo clássico: coletânea inédita de contos do autor. Rio de Janeiro: DrakSide Books, 2017.


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É sempre perturbador mergulhar nas histórias de Edgar Allan Poe, aquela aflição perene não me larga em nenhum momento. Não foi diferente em O poço e o pêndulo, primeiro conto dessa edição maravilhosa da Dark Side Books que conta com ilustrações Ramon Rodrigues e tradução de Marcia Heloisa, não posso deixar de parabenizar a Dark Side pelo cuidado editorial aqui empregado, o livro é maravilhosamente lindo e bem editado.

O poço e o pêndulo começa com o protagonista (e narrador) recebendo sua sentença de morte e, de tão debilitado, desmaiando e caindo em profunda escuridão. Tendo acesso a apenas algumas reminiscencias de consciência enquanto é carregado, ele luta para descobrir a que tipo de morte foi destinado. A história se passa durante o século XIX, na inquisição espanhola, é possível aferir essa informação a partir do aparecimento do general francês Lesalle, que entrou em Toledo para combater a Inquisição por volta de 1808.

Ao acordar em uma cripta completamente escura, a angústia de saber que sua morte se aproxima e ao mesmo tempo a incapacidade de reconhecer o local onde se encontra leva o protagonista a embates interiores. Aqui o autor nos mostra sobre a necessidade humana de se situar sobre suas condições, de querer saber onde está e o que tem a seu alcance, sobre a relação do homem com suas experiências sensoriais.

Aos poucos ele vai descobrindo suas condições, mas de maneira vã, pois ele está sendo observado e constantemente o cenário da cripta se adapta. A descoberta do poço sugere um suicídio, entregar-se à morte de uma vez ou esperar por sua chegada pelas mãos de terceiros?

“Havia, para as vítimas de sua tirania, a alternativa de optar por uma morte com as piores agonias físicas ou uma morte com seus piores horrores morais, Eu estava destinado à segunda. Devido ao longo sofrimento, meus nervos encontravam-se à flor da pele, a ponto de tremer com o som de minha própria voz, tornando-me , sob todos os aspectos, uma vítima perfeita para o tipo de tortura que me aguardava. ” P. 42

A exaustão física, emotiva e psicológica do protagonista é um dos fatores que mais o atormenta, a natureza humana tenta sobreviver, enquanto as condições do ambiente dizem o contrário. O sofrimento presente no processo de espera da morte é torturante e a observação lúcida dessa maldade é ainda mais angustiante para ele.

A narrativa de Poe expõe o ser humano aos seus medos em cada detalhe, demonstra de maneira fria a nossa fraqueza física e psicológica. É impossível ler esse conto e não se envolver com os sofrimentos ali descritos, seja sensorialmente com os sons, cheiros, escuridão e formas abstratas ou com a iminência inesperada da morte.

Esse conto é magistral e incrível. Poe é um mestre naquilo que ele se propõe a escrever, suas obras serviram de inspiração para gerações futuras no gênero de horror, terror e suspense. Não vou dizer aqui que todos precisam ler esse conto, pois não acredito em leituras obrigatórias, mas deixo aqui o convite para se deliciar nessa obra de arte em forma de conto.

 

 

2 comentários em “Sobre o conto | O poço e o pêndulo, de Edgar Allan Poe

  1. Texto ótimo sobre um conto ótimo de um mestre. Como não gostar de uma análise clara e sincera? Ainda tem o bônus do canal no Youtube. Muito bom esse “pacote”, não sei como não conheci antes. Mas, antes tarde do que nunca.

    Curtido por 1 pessoa

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