A elite do atraso, do Jessé Souza

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

A elite do atraso, do Dr. Jessé Souza, foi escrito em 2017 para mostrar o cenário político brasileiro que sofreu um golpe em 2016 travestido de Impeachment. No ano seguinte de sua publicação, foi usado como inspiração para o desfile carnavalesco da escola de samba Tuiuti, que ficou em segundo lugar em 2018.

Iniciando com um apanhado histórico da construção social brasileira, Jessé Souza nos apresenta como a escravidão contribuiu para a criação de classes burguesas que se acham merecedoras de crédito, mas que na realidade vivem de se aproveitar das casses mais baixas.

Aqui o autor apresenta sua proposta em que a sociedade é dividida não por valores de renda, mas pela construção sociocultural, havendo, assim, a classe alta (que faz lobby político visando o crescimento de seu patrimônio), a classe média (que se acha pura e merecedora de tudo o que há de bom, crê que um dia fará parte na classe alta), a classe trabalhadora (a que sofre com as reformas feitas recentemente na legislação trabalhista, bem como para conseguir pagar os impostos ganhando tão pouco) e os excluídos (pessoas que de alguma forma são marginalizados da sociedade, em geral a classe média e alta tem dificuldade de enxerga-los como serem humanos). A partir daí ele destrincha as relações que acontecem entre cada uma dessas classes.

“Os excluídos, majoritariamente negro e mestiço, é estigmatizado como perigoso e inferior e perseguido não mais pelo capitão do mato, mas, sim, pelas viaturas de polícia com licença para matar pobre e preto. Obviamente, não é a polícia a fonte da violência, mas a classe média e ala que apoiam esse tipo de política pública informal para higienizar as cidades e calar o medo do oprimido e do excluído que construiu com as próprias mãos.” P. 83

Na escrita de Jessé não há meio termo, ele expõe o que se passa na atualidade brasileira de maneira crua e direta, sem metáforas e sem delicadezas. Se você faz parte da classe trabalhadora, muito provavelmente seus filhos precisarão trabalhar enquanto fazem a faculdade para conseguir se manter, diferente dos filhos da classe média que possuem renda suficiente para comprar tempo livre para os filhos. E dessa desigualdade surgem jovens de classe média que acham que todos possuem a mesma chance que ele de vencer na vida, como seria justo aplicar a meritocracia numa sociedade tão desigual?

“A suposta superioridade moral da classe média dá a sua clientela tudo aquilo que ela mais deseja: o sentimento de representarem o melhor da sociedade. Não é só a classe que merece o que tem por esforço próprio, conforto que a falsa ideia da meritocracia propicia; mas, também, a classe que tem algo que ninguém tem, nem os ricos, que é a certeza de sua perfeição moral” P. 133

Se você faz parte da classe trabalhadora, amará esse livro, pois mostra claramente tudo aquilo que observamos na mídia, nas redes sociais e nas relações pessoais, ideias de superioridade que muitas vezes irritam e entristece. Seja no discurso do candidato político que prega a morte aos moradores do morro ou nas atitudes da classe média de fechar os olhos ao próximo e achar que alguém é pobre porque é preguiçoso.

“[…] os privilegiados não querem apenas exercer o privilégio, mas querem também que esse mesmo privilégio seja percebido como merecido e como um direito. “ P. 147

Uma parcela da população brasileira, que considera a manobra política de 2016 um Golpe, se envergonha da atuação da classe média para alimentar todo esse teatro que só quer a prisão de políticos corruptos se eles forem de partidos X, Y ou Z, pois se for de partidos W, M ou D fecham os olhos como se não estivesse acontecendo nada. É a seletividade no discurso de “não à corrupção” que corrompe a sua fala. Essas pessoas gostarão bastante de se deleitar em A elite do atraso.

É notório que esse livro foi editado às pressas, pois em diversos momentos há a repetição de ideias e até mesmo de frases inteiras, o que me deixou um pouco chateada durante a leitura, pois foram gastos espaços que poderiam ter sido dedicados a mais discursão. Entendo que devido ao tema era necessária uma publicação rápida, mas faltou cuidado editorial aqui, em Leya.

A crítica social exposta em A elite do atraso é real, mesmo que os comentários sejam tendenciosos para o pensamento esquerdista, ela demonstra a vergonha que vivemos hoje com toda a discriminação incutida nos detalhes do cotidiano. Vale a leitura para abrir os olhos e refletir sobre a sociedade brasileira atual.

 

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