Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bEsse é o terceiro livro da Chimamanda que tenho a oportunidade de me deleitar, os dois primeiros foram Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas, ambos ensaios sobre a questão de gênero.

Hibisco Roxo foi o primeiro romance da autora nigeriana que tive contato e mesmo já tendo iniciado a leitura com expectativas altas devido aos inúmeros elogios que li na internet, ainda assim essa obra me surpreendeu.

Os sentimentos ao longo da leitura são inúmeros, orgulho, vergonha, aprendizado, amor, inquietação, raiva, dentre outros. Ao final, o conflito sobre a condição humana é perene. O que é uma boa ação? Uma agressão física pode ser justificada? Fazer boas ações te redime ao cometer um ato mau? Se eu estava fazendo algo para o bem de uma pessoa e ela se feriu fisicamente, posso me sentir culpado ou fiz em sã consciência? Até onde o medo de represálias pode impedir manifestações contra uma administração que corta recursos a ponto de faltar o básico à população? Servir a Deus tem limites?

A narrado de Hibisco roxo é Kambili, uma jovem que tenta ao máximo agradar ao pai, Eugene, ele, por sua vez, é um religioso fanático, que fecha os olhos a tudo e a todos que não pertença a sua religião. Engraçado (ou não) que Eugene valoriza tanto o Cristianismo a ponto de agredir fisicamente os familiares e de renegar a tudo e a todos que venham de qualquer outra religião, até mesmo o seu próprio pai e as tradições do povo Nigeriano.

A questão da imposição cultural advinda da excessiva catequização é o dorso de Hibisco roxo, e como a valoração dessa cultura de fora afeta as relações entre familiares e muda a perspectiva de um ser humano. Religiosamente uma pessoa pode chegar a ser má na tentativa de fazer o que ela julga correto, seja julgando as atitudes do próximo ou sufocando sua cultura local.

“- Sabe, padre, é que nem fazer okpa – disse Obiora – A gente mistura a farinha de feijão-fradinho com o dendê e depois cozinha no vapor por horas. Você acha que dá para ficar só com a farinha de feijão fradinho? Ou só com o dendê?

– Do que você está falando? – perguntou padre Amadi.

– De religião e tirania – disse Obiora” P. 184

Ao chegar à casa de tia Ifeoma, Kambili tem uma surpresa ao se deparar com pessoas tão diferentes. Enquanto que em sua casa tudo gira em torno de Eugene e como seria a melhor forma de agradá-lo, na residência da tia a jovem encontra seus primos, com idade bem semelhantes a sua, discutindo sobre política, emitindo opiniões próprias, lendo jornal e livros e ouvindo música com temática social. Um verdadeiro choque e é ali que a protagonista se permite ser ela mesma, sorrir, se apaixonar e viver. Seu irmão, Jaja, da mesma maneira, passa a ver o mundo que há fora da capsula criada pelo pai.

A riqueza proporcionada pelas diferentes relações sociais e pelo conhecimento das condições divergentes das suas levam os dois irmãos a questionar o modo como sempre levaram a vida regrada demais sem emitir ideias ou realizar gostos.

“[…] A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave de liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.” P. 22

Além de toda essa questão religiosa, cultural e política, é evidente também a misoginia, como quando os vizinhos começam a falar que Eugene deveria procurar outra esposa porque a sua não gera mais filhos ou quando a Beatrice não consegue nem comprar cortinas novas se o marido não der o veredito final… São atitudes que podem parecer pequenas coisas, mas que ao final são o fertilizante da desigualdade de gênero.

“Eu quis dizer que sentia muito por Papa ter quebrado as estatuetas dela, mas as palavras que saíram foram:

-Sinto muito que suas estatuetas tenham quebrado, Mama” P. 16-17

A visão aberta de tia Ifeoma as vezes assusta aos que estão acostumados a viver em suas bolhas, principalmente Beatrice que não consegue enxergar a vida sem o marido pois ele é o provedor financeiro da casa, como se isso fosse o essencial para viver e superasse toda e qualquer humilhação, violência e emudecimento que o relacionamento trouxer.

“- Nwunye m, às vezes a vida começa quando o casamento acaba” P. 83

Em um dado momento de Hibisco roxo lembrou de Outros jeitos de usar a boca, mais especificamente da frase em que Rupi Kaur diz para não associar gritos a amor, pois seus filhos podem entender raiva como uma forma de carinho.

Eu poderia falar mais e mais sobre esse livro da Chimamanda, mas como não quero dar spoilers, fico por aqui e aproveito o ensejo para indicar Hibisco roxo para todos que gostam de um romance mais profundo, que tenham uma escrita deliciosa e tragam reflexões enriquecedoras para a vida.

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