Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

mulheres-raca-e-classeConcluí a leitura de Mulheres, raça e classe e minha sensação ao final desse livro é apenas uma: Obrigada, Angela Davis, pela exposição provocativa e educativa que me desvelou vários aspectos que agora me parecem propositalmente omissos ao longo da história.

Escrito inicialmente em 1981 e publicado apenas em 2016 no Brasil pela Editora Boitempo, Mulheres, raça e classe traz um panorama sobre as condições das mulheres, dos negros e dos trabalhadores nos Estados Unidos. Mesmo tendo se passado mais de 30 anos desde o seu lançamento, essa obra ainda conversa muito com a atualidade, principalmente pela maneira como a autora nos proporciona enxergar, entender e pensar a sociedade ao longo dos anos.

Composto por 13 textos e uma introdução escrita pela Djamila Ribeiro, essa obra permite ao leitor uma viagem rica de conteúdo, de cenas fortes, de provocação, de sinceridade e de motivação. Sim, motivação para lutar por tudo o que aqui é tratado.

As condições sociais descritas em épocas passadas são diferentes das de hoje? Sim, mas ainda não sei expressar isso em quantidade… Será que realmente evoluímos muito socialmente ou as militâncias ainda possuem um longo e árduo trabalho pela frente?

Enquanto eu lia esse livro, fiz várias marcações e comentários ao longo das duzentas e poucas páginas. Dentre as inúmeras exposições sobre as diversas camadas sociais, o que me pareceu mais assustadoramente terrível foi ver relatos de feministas e militantes pelos direitos das mulheres negar às irmãs negras a mesma luta, conseguir um novo direito à mulher branca que não seja conferido à todas as mulheres não é luta de gênero, é reafirmação do racismo, isso fica bem claro nos trechos em que a autora fala sobre a reclusão imposta pelos apoiadores do movimento das sufragistas. Isso parece muito óbvio para nós hoje, mas fico imaginando no árduo trabalho que foi necessário para disseminar essa ideia de igualdade.

Para conversar um pouco entre obras, o capítulo 11 (Estupro, racismo e o mito do estuprador negro) me lembrou bastante “O Sol é para todos, da Harper Lee, que traz a história do julgamento de uma acusação de estupro em uma sociedade marcada pelo racismo, já falei sobre ele AQUI. Esse mesmo capítulo também fez link com o vídeo da Nathaly Neri no TED TALK em que ela fala sobre A mulata que nunca chegou e a sexualização exacerbada do corpo da mulher negra.

Em alguns momentos, mais para o final do livro, uma outra autora que conversa com os conteúdos aqui exposto é Chimamanda Ngozi Adichie em “Para educar crianças feministas” (falei sobre AQUI), principalmente ao tratar sobre as atividades domésticas serem vistas durante muitos anos como algo para mulheres e como eram mais restritas ainda às mulheres negras, bem como a proposta de obsolescência desse tipo de “exclusividade”. Vamos combinar que tarefas domésticas nós fazemos com as mãos e não com a genitália, né?!

Angela Davis nasceu na década de 40 e teve sua imagem divulgada pelo FBI como uma das mulheres mais perigosas, foi integrante do movimento Panteras Negras e hoje é professora e ativista. Angela sempre se preocupou com a propagação das ideias, em não restringi-las aos ambientes acadêmicos ou rodas de interesse.

Se o que você procura é um livro que te faça pensar no social e que te permita entender melhor a construção social ao longo dos anos, esse livro é “Mulheres, raça e classe” (bom, eu queria que o mundo o lesse, mas como leitura obrigatória não rola, então fica só a indicação mesmo, rs).

 

(Aprendi muito com esse livro, mas mesmo assim sinto que preciso relê-lo e estudá-lo mais, pois sua grandiosidade parece infinita).

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