Sou fruto do que a cultura pop me proporciona

Enquanto eu estava no corredor da tentação da Riachuelo (entenda corredor da tentação como aquele mini labirinto cheio de produtos em que você caminha lentamente até chega ao caixa), fiquei ensandecida com a quantidade de itens legais e “baratinhos” que tinha ali. Fones de ouvido da mulher maravilha, porta óculos do Harry Potter, lancheira do Star Wars, dentre diversos outros produtos inspirados nos personagens dos filmes atuais e retrô que estão na moda.

Itens tão baratinhos que fui pegando aos poucos e quando me dei conta estava com cinco produtos em que a soma já chegava próximo a R$ 100,00, refleti, então, o que eu realmente queria, para diminuir aquela quantidade. Primeiro pensei na utilidade dos produtos, o que eu realmente iria utilizar no meu cotidiano, descartei os mini pegadores do Star Wars que só serviriam para ocupar espaço na minha gaveta porque com certeza eu morreria de pena de usá-los. Logo em seguida parei para pensar nos personagens que realmente tinham relação com a minha personalidade, os que eu realmente me inspiravam.

Essa rápida seleção me deixou em choque ao perceber que nenhum desses itens eu realmente precisava. Tenho bolsinhas, fones de ouvido, lancheira, garrafinha na medida do que preciso em casa, então para que eu levaria mais um? Se por causa de uma figura que eu gosto, qual a lógica de levar para casa? Eu não preciso de um objeto com uma figura para me lembrar que eu gosto de uma saga, eu apenas gosto e me identifico com ela por N motivos.

Meu consumismo me levaria a comprar quase cem reais em produtos que eu não estou precisando só por causa de personagens da cultura pop que eu gostei de assistir. Sério, cem reais em livros me levaria a universos incríveis e me proporcionaria muito mais diversão do que a garrafinha da Corvinal e a bag do Darth Vader.

Nesse mesmo dia comprei marcadores de página em tecido da Frida Kahlo e do símbolo do feminismo, fiz as mesmas indagações e cheguei a conclusão de que os marcadores eram realmente úteis, pois eu usaria com frequência. Sobre as imagens que estão em “alta”? Ambas me trazem mensagens de determinação, luta e coragem, não são apenas figuras vazias.

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

historia_da_sua_vida_e_outros__1476909220619967sk1476909220bAo assistir A Chegada, fiquei apaixonada pela história e pela forma de tratar a linguística numa temática tão diferente da usual, que tenta dirimir os preconceitos das variações regionais da língua e tal. Mais excitante do que mergulhar nesse filme foi poder acompanhar a construção dessa história por meio do conto História da sua vida, do Ted Chiang.

Indiscutível que várias pessoas procuraram História da sua vida após ver A chegada e se depararam com não apenas um, mas oito maravilhosos contos que viajam entre os mais variados temas.

Mesmo com formação em Engenharia, Ted não se limita aos assuntos da sua área e mergulha no campo linguístico, como em História da sua vida, na matemática, em Divisão por zero e até mesmo no misticismo de uma parábola bíblica, em A torre da Babilônia.

Dois contos envolvem a religiosidade, primeiro em A torre da Babilônia, em que o autor reconta a história já conhecida da Bíblia de uma maneira que mistura o cientificismo e o lúdico. Já em O inferno é a ausência de Deus, Ted traz as divindades cristãs para mais próximo da realidade, os torna seres mais interativos e apupáveis a raça humana, aqui os ‘mistérios’ de Deus já não são tão misteriosos assim, pois as pessoas conseguem até mesmo distinguir se as almas vão para o céu ou para o inferno após a morte.

Há contos também que permanecem nos ‘clichês’ da ficção científica, mas mesmo assim são excelentes histórias, como em Entenda que uma pessoa passa por testes, desenvolve superinteligência e sua interação social é completamente afetada por isso. A evolução da ciência humana traz meta-humanos como uma evolução do homem e Setenta e duas letras apresenta uma sociedade em que foi desenvolvida uma técnica de dar vida a seres inanimados por meio de nomes, uma proposta bem perturbadora no meu ponto de vista.

Em Divisão por zero, a narrativa é construída por dois diferentes pontos de vistas que se baseia na matemática, indo além da exatidão das fórmulas e discutindo a condição psicológica do ser humano. Esse conto me remeteu aos grandes intelectuais que têm/ tiveram dificuldade de socializar com outras pessoas e até mesmo pararam de ver sentido nisso tudo.

História da sua vida é enriquecedor de ler e acompanhar a sua construção, principalmente pelo jogo de tempos verbais utilizados pelo autor e o uso da linguística para o diálogo com os seres extraterrestres. O filme é espetacular e captou bastante os aspectos propostos por Ted, mas deixo o aviso que há mais peculiaridades no conto, pois podemos observar a evolução do entendimento da protagonista na nova “língua” em que ela está aprendendo e as manifestações que esse aprendizado teve em sua vida.

O último conto do livro Gostando do que vê: um documentário me pareceu o cenário perfeito para um episódio do Black Mirror, pois ele reúne diferentes opiniões sobre o uso de um software que determina padrões de beleza, o que gera várias discussões sobre estética e sociedade.

Eu não tenho muito o costume de ler Ficção Científica e História da sua vida me fez querer ler mais livros do gênero por ter me lembrado do amplo leque de assuntos abordados nessas histórias, que vão bem além do “imagina nós daqui a mil anos com um monte de tecnologia assim e pá” e trabalham com construção humana e social de uma maneira descontraída e lúdica.

Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

hibisco_roxo_1384015895bEsse é o terceiro livro da Chimamanda que tenho a oportunidade de me deleitar, os dois primeiros foram Sejamos todos feministas e Para educar crianças feministas, ambos ensaios sobre a questão de gênero.

Hibisco Roxo foi o primeiro romance da autora nigeriana que tive contato e mesmo já tendo iniciado a leitura com expectativas altas devido aos inúmeros elogios que li na internet, ainda assim essa obra me surpreendeu.

Os sentimentos ao longo da leitura são inúmeros, orgulho, vergonha, aprendizado, amor, inquietação, raiva, dentre outros. Ao final, o conflito sobre a condição humana é perene. O que é uma boa ação? Uma agressão física pode ser justificada? Fazer boas ações te redime ao cometer um ato mau? Se eu estava fazendo algo para o bem de uma pessoa e ela se feriu fisicamente, posso me sentir culpado ou fiz em sã consciência? Até onde o medo de represálias pode impedir manifestações contra uma administração que corta recursos a ponto de faltar o básico à população? Servir a Deus tem limites?

A narrado de Hibisco roxo é Kambili, uma jovem que tenta ao máximo agradar ao pai, Eugene, ele, por sua vez, é um religioso fanático, que fecha os olhos a tudo e a todos que não pertença a sua religião. Engraçado (ou não) que Eugene valoriza tanto o Cristianismo a ponto de agredir fisicamente os familiares e de renegar a tudo e a todos que venham de qualquer outra religião, até mesmo o seu próprio pai e as tradições do povo Nigeriano.

A questão da imposição cultural advinda da excessiva catequização é o dorso de Hibisco roxo, e como a valoração dessa cultura de fora afeta as relações entre familiares e muda a perspectiva de um ser humano. Religiosamente uma pessoa pode chegar a ser má na tentativa de fazer o que ela julga correto, seja julgando as atitudes do próximo ou sufocando sua cultura local.

“- Sabe, padre, é que nem fazer okpa – disse Obiora – A gente mistura a farinha de feijão-fradinho com o dendê e depois cozinha no vapor por horas. Você acha que dá para ficar só com a farinha de feijão fradinho? Ou só com o dendê?

– Do que você está falando? – perguntou padre Amadi.

– De religião e tirania – disse Obiora” P. 184

Ao chegar à casa de tia Ifeoma, Kambili tem uma surpresa ao se deparar com pessoas tão diferentes. Enquanto que em sua casa tudo gira em torno de Eugene e como seria a melhor forma de agradá-lo, na residência da tia a jovem encontra seus primos, com idade bem semelhantes a sua, discutindo sobre política, emitindo opiniões próprias, lendo jornal e livros e ouvindo música com temática social. Um verdadeiro choque e é ali que a protagonista se permite ser ela mesma, sorrir, se apaixonar e viver. Seu irmão, Jaja, da mesma maneira, passa a ver o mundo que há fora da capsula criada pelo pai.

A riqueza proporcionada pelas diferentes relações sociais e pelo conhecimento das condições divergentes das suas levam os dois irmãos a questionar o modo como sempre levaram a vida regrada demais sem emitir ideias ou realizar gostos.

“[…] A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave de liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.” P. 22

Além de toda essa questão religiosa, cultural e política, é evidente também a misoginia, como quando os vizinhos começam a falar que Eugene deveria procurar outra esposa porque a sua não gera mais filhos ou quando a Beatrice não consegue nem comprar cortinas novas se o marido não der o veredito final… São atitudes que podem parecer pequenas coisas, mas que ao final são o fertilizante da desigualdade de gênero.

“Eu quis dizer que sentia muito por Papa ter quebrado as estatuetas dela, mas as palavras que saíram foram:

-Sinto muito que suas estatuetas tenham quebrado, Mama” P. 16-17

A visão aberta de tia Ifeoma as vezes assusta aos que estão acostumados a viver em suas bolhas, principalmente Beatrice que não consegue enxergar a vida sem o marido pois ele é o provedor financeiro da casa, como se isso fosse o essencial para viver e superasse toda e qualquer humilhação, violência e emudecimento que o relacionamento trouxer.

“- Nwunye m, às vezes a vida começa quando o casamento acaba” P. 83

Em um dado momento de Hibisco roxo lembrou de Outros jeitos de usar a boca, mais especificamente da frase em que Rupi Kaur diz para não associar gritos a amor, pois seus filhos podem entender raiva como uma forma de carinho.

Eu poderia falar mais e mais sobre esse livro da Chimamanda, mas como não quero dar spoilers, fico por aqui e aproveito o ensejo para indicar Hibisco roxo para todos que gostam de um romance mais profundo, que tenham uma escrita deliciosa e tragam reflexões enriquecedoras para a vida.

Divulgação | Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro

14544_gg Nesse comecinho de mês a Editora Companhia das Letras lançou o livro Quem tem medo do feminismo negro, da filosofa e militante Djamila Ribeiro.

Essa obra reúne alguns artigos publicados entre 2014 e 2017 na revista Carta Capital com a temática do feminismo negro e como a autora caminhou em sua trajetória no empoderamento, desde suas influências literárias ao processo superar e repensar a sociedade.

Para quem não sabe, Djamila Ribeiro escreveu o capítulo introdutório do livro Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis.

Não preciso nem comentar que fiquei super curiosa pela leitura, né?! O preço de capa sugerido pelo site da editora é de R$ 29,90.

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

mulheres-raca-e-classeConcluí a leitura de Mulheres, raça e classe e minha sensação ao final desse livro é apenas uma: Obrigada, Angela Davis, pela exposição provocativa e educativa que me desvelou vários aspectos que agora me parecem propositalmente omissos ao longo da história.

Escrito inicialmente em 1981 e publicado apenas em 2016 no Brasil pela Editora Boitempo, Mulheres, raça e classe traz um panorama sobre as condições das mulheres, dos negros e dos trabalhadores nos Estados Unidos. Mesmo tendo se passado mais de 30 anos desde o seu lançamento, essa obra ainda conversa muito com a atualidade, principalmente pela maneira como a autora nos proporciona enxergar, entender e pensar a sociedade ao longo dos anos.

Composto por 13 textos e uma introdução escrita pela Djamila Ribeiro, essa obra permite ao leitor uma viagem rica de conteúdo, de cenas fortes, de provocação, de sinceridade e de motivação. Sim, motivação para lutar por tudo o que aqui é tratado.

As condições sociais descritas em épocas passadas são diferentes das de hoje? Sim, mas ainda não sei expressar isso em quantidade… Será que realmente evoluímos muito socialmente ou as militâncias ainda possuem um longo e árduo trabalho pela frente?

Enquanto eu lia esse livro, fiz várias marcações e comentários ao longo das duzentas e poucas páginas. Dentre as inúmeras exposições sobre as diversas camadas sociais, o que me pareceu mais assustadoramente terrível foi ver relatos de feministas e militantes pelos direitos das mulheres negar às irmãs negras a mesma luta, conseguir um novo direito à mulher branca que não seja conferido à todas as mulheres não é luta de gênero, é reafirmação do racismo, isso fica bem claro nos trechos em que a autora fala sobre a reclusão imposta pelos apoiadores do movimento das sufragistas. Isso parece muito óbvio para nós hoje, mas fico imaginando no árduo trabalho que foi necessário para disseminar essa ideia de igualdade.

Para conversar um pouco entre obras, o capítulo 11 (Estupro, racismo e o mito do estuprador negro) me lembrou bastante “O Sol é para todos, da Harper Lee, que traz a história do julgamento de uma acusação de estupro em uma sociedade marcada pelo racismo, já falei sobre ele AQUI. Esse mesmo capítulo também fez link com o vídeo da Nathaly Neri no TED TALK em que ela fala sobre A mulata que nunca chegou e a sexualização exacerbada do corpo da mulher negra.

Em alguns momentos, mais para o final do livro, uma outra autora que conversa com os conteúdos aqui exposto é Chimamanda Ngozi Adichie em “Para educar crianças feministas” (falei sobre AQUI), principalmente ao tratar sobre as atividades domésticas serem vistas durante muitos anos como algo para mulheres e como eram mais restritas ainda às mulheres negras, bem como a proposta de obsolescência desse tipo de “exclusividade”. Vamos combinar que tarefas domésticas nós fazemos com as mãos e não com a genitália, né?!

Angela Davis nasceu na década de 40 e teve sua imagem divulgada pelo FBI como uma das mulheres mais perigosas, foi integrante do movimento Panteras Negras e hoje é professora e ativista. Angela sempre se preocupou com a propagação das ideias, em não restringi-las aos ambientes acadêmicos ou rodas de interesse.

Se o que você procura é um livro que te faça pensar no social e que te permita entender melhor a construção social ao longo dos anos, esse livro é “Mulheres, raça e classe” (bom, eu queria que o mundo o lesse, mas como leitura obrigatória não rola, então fica só a indicação mesmo, rs).

 

(Aprendi muito com esse livro, mas mesmo assim sinto que preciso relê-lo e estudá-lo mais, pois sua grandiosidade parece infinita).

O fio das missangas, de Mia Couto

o_fio_das_missangas_1236682204b Mia Couto, assim como Hugo Mãe, escrevem prosa como se fossem poesia, utilizam frases tão bem elaboradas com aquele toque de sinestesia entre o real e o imaginário, entre o místico e o palpável.

Os 29 contos aqui desenvolvidos são curtinhos e cheios de sentimentos. A imagem de seus personagens assusta de tão verossímil, as estradas e histórias que as vezes são comuns demais aos olhos do cotidiano ganham um toque a mais por meio das palavras de Mia.

Podemos admirar a beleza das miçangas, mas raramente paramos para observar o fio que as seguram e as unem. Algo que chamou bastante minha atenção desse livro fininho foi a profundidade e a poesia com que o autor trata de assuntos corriqueiramente cruéis, como a mulher que começa a se enxergar em virtude da eminencia da morte do marido que tanto a colocou em segundo plano ou o menino que escrevia versos e era reprimido pelos pais.

Tantas e tantas vidas banais, sofridas e miseráveis que tomaram um corpo embelezado graças ao moçambicano.

Conversas entre amigos, de Sally Rooney

28000396_gg Se há um livro que me levou à nostalgia da época da faculdade, esse livro foi “Conversas entre amigos”. O tom despreocupado e artístico do Centro de Humanidades pairou sobre mim enquanto eu me deliciava nesse romance de estreia da irlandesa Sally Rooney.

Frances e Bobbi são ex namoradas e nunca deixaram de ser amigas, recitam juntas os poemas escritos por Francis em palcos de eventos. Melissa, uma famosa jornalista/fotógrafa, propõe-se a escrever o perfil das amigas por comporem os novos rostos das noites cults.

Em meio a esse processo de escrita do perfil, as amigas envolvem-se mais do que imaginariam com Melissa e seu marido, Nick. Relacionamentos que se constroem de maneira ímpar, diálogos ricos e emoções a flor da pele.

A história é narrada por Frances, então muito do que está acontecendo sofre comentários a partir da perspectiva dessa jovem artista criativa. A maneira como a narradora leva a sua vida é bem complicada, mora sozinha e depende financeiramente de uma mesada que o pai alcoólatra envia. Levando um estágio sem muita dedicação, levando um relacionamento fofo e esquisito e faltando uma penca de aulas, podemos ver a natureza artística de Francis que se preocupa apenas com o hoje.

Muito do que as personagens passaram em suas famílias é refletido no momento atual da história, a construção de cada um é muito bem tecida por Sally. A contemporaneidade dos relacionamentos são sutilmente bem tratados nessa obra, nada daquela imposição “veja como somos tecnológicos”, mas mais voltado ao “olha só, ele está falando sério, pois usou letra maiúscula”. Acho que deu para entender.

Gostei muito de “Conversas entre amigos”, ele me surpreendeu positivamente. Essa é a típica leitura para jovens adultos que procuram um romance mais leve que não perca a qualidade da narrativa.