O conto da aia, da Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bLer O conto da aia foi perturbador e envolvente. A história se passa na República de Gilead, numa sociedade teocrática construída após um golpe de Estado. Nesse ambiente futurista, mas não tão distante assim, as pessoas apresentam altas taxas de infertilidade por motivos diversos: poluição, uso exacerbado de anticoncepcionais ou qualquer outro fator ainda não comprovado.

Com o intuito de restabelecer os índices de natalidade, é imposta uma organização em que existem categorias de mulheres, as esposas, as Martas e as Aias. As Aias são escolhidas com base em: mulheres com ovários saudáveis para gerar filhos em famílias com mais recursos financeiros, porém inférteis. Essa prática é baseada na história bíblica de Raquel e sua célebre frase “dá-me filhos senão eu morro”. Seria de se esperar que esse negócio não fosse funcionar muito bem, tendo em vista o resultado catastrófico advindo da relaçõe de Abraão em conhecer biblicamente uma mulher porque a esposa não podia ter filhos e pá! a guerra no Oriente Médio está aí.

O assustador de entrar em contato com essa narrativa é ver o quão ela é possível de acontecer e como pode ser eminente. Não sei quanto ao fato das dificuldades biológicas de procriação, mas ao estado de submissão imposta às mulheres, o que já aconteceu, por exemplo, no Afeganistão onde mulheres andavam de mini saia e frequentavam a Universidade até a década de 70 e após um golpe de Estado elas foram obrigadas a usar burca, o que é tremendamente triste!

Para conhecer um pouquinho mais dessa transição no Afeganistão, recomento a leitura de Persépolis e de A cidade do Sol.

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A capacidade de adaptação

O arrepio na espinha das leitoras ao entrar em contato com essa história é o sentimento de incapacidade transmitida. Por mais que você seja totalmente contra essa imposição, os guardas estão lá para te lembrar de que ou você faz ou você morre e diariamente são apresentados exemplos de pessoas enforcadas e postas na muralhas para manter esse sentimento sempre vivo.

Mulheres que antes ganhavam o próprio dinheiro são submetidas a essas condições e percebem como elas conseguiram se adaptar àquela inércia, o que a princípio era uma luta para sobreviver tornou-se o habitual.

A protagonista se depara com esse sentimento principalmente quando ela encontra alguns turistas japoneses, mulheres de saia, ela se dá conta de como tudo parecia tão distante, há décadas talvez, mas não fazia muito tempo desde que adotara as vestes vermelhas.

A narrativa

A história é contata em primeira pessoa, sob a perspectiva de uma aia. A autora imerge o leitor nessa sociedade distópica aos poucos, talvez como uma analogia à adaptação das aias, utiliza recortes do passado (período em que vivemos) e já quase no final a protagonista começa a interagir com o leitor.

Algumas pessoas podem achar o fluxo da história um pouco arrastado, mas essa característica me parece intencional, para aproximar ainda mais o leitor à letargia cotidiana das aias.

Tudo o que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. P. 183.

Esse livro é indicado para todos, homens ou mulheres, mas fica os dois avisos: a escrita é um pouco lenta e isso pode tornar a leitura cansativa; e as mulheres podem ficar aflitas diante das condições apresentadas.

4 comentários em “O conto da aia, da Margaret Atwood

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