O médico e o monstro, de Robert Louis Steverson

o_medico_e_o_monstro__14522774441128sk1452277444bEu nunca tinha sentido interesse em ler O médico e o monstro até ver o episódio de Penny Dreadful que faz referência a esse clássico da Literatura. A história em si do dr. Jekyll não é desconhecida para a maioria das pessoas e saber o que acontece ao protagonista muda completamente a experiência em relação a essa leitura, como em qualquer outra.

O livro é narrado pelo advogado sr. Ultterson, que vai atrás de saber mais sobre um tal de Hyde citado no testamento do destacado dr. Jekyll. A curiosidade de Ultterson é alimentada a cada nova descoberta, seja por ter falado com Hyde ou por ter conversado com amigos em comum.

A narrativa é formada de maneira que o leitor toma conhecimento de Hyde e Jekyll aos poucos e só tem acesso à informação mais precisa sobre esses dois ao final do livro com a narrativa de Lanyon e com mais riqueza de detalhes na última carta escrita pelo dr. Jekyll.

A minha experiência de leitura não foi boa e acredito piamente de que esse desprazer tenha ocorrido por já saber o plot da história. Acabei por não me empolgar no suspense criado pelo autor e muito menos me surpreendi com as descobertas de Ultterson. Ao final, os textos de apoio dessa edição mostraram-se bem mais interessantes que a obra em si.

Não posso negar que Steverson criou um ótimo cenário de suspense e terror com personagens únicos e apesar de ser uma história curtinha nada ficou corrido demais ou sem explicação.  É notória a crença do autor na dualidade bem e mal, assim como na consciência coletiva de que é feio mostrar seu lado mal.

O médico e o monstro é um ótimo livro para quem gosta de mistério e ficção, podendo mostrar-se uma excelente aventura para quem não conhece muito bem a história.

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Desconstrução de uma leitora

Em 2018 não estipulei lista de livros a ler, muito menos números de volumes ou de páginas. Estou em processo de libertação do quantitativo e em busca do qualitativo.

Não quero mais a bendita meta de ler um por semana ou a de ler 50 páginas por dia, estou mais em busca do prazer da leitura, nem que ela utilize dois meses no mesmo livro, não me importo.

A grande questão não está centrada em elevados números de livros lidos, já que eu nunca concluí 60 lidos em um ano e considero 100 um número inalcançável ao levar em consideração minha rotina. O cerne dessa transformação que busco é simplesmente me desapegar dos “lidos” e aproveitar os “lendo”.

Ler um excelente livro de 300 páginas que me trouxe muita reflexão ao longo de um mês é muito mais saudável para mim do que ler 6 livros que resultaram em 600 páginas que engoli para bater metas que estipulei por motivo de: sei lá, talvez para mostrar uma pilha de livros no instagram ou atualizar o meu Skoob.

Nunca deixarei de invejar quem consegue ler 100 livros durante o ano, eu estaria no céu se conseguisse o mesmo feito com louvor, mas não rendo tanto assim. Aqui vem o clássico “cada um tem o seu próprio ritmo/ tempo / necessidades”.

E esse povo de humanas que não pode ver questão problematizável que já começa a auto-desconstrução. Desculpa aí, mas meu lado leitor ainda está em (re)formação como tantos outros aspectos por aqui.

Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

para_educar_criancas_feminista_1488909057648586sk1488909057bPara educar crianças feministas é um manifesto curtinho, como o Sejamos todos feministas, que traz algumas dicas que a Chimamanda deu à uma amiga que pediu conselhos de como educar a filha para ser feminista.

O resultado foi uma carta sincera que vai além de sugestões, pois apresenta recortes sociais imbuídos de machismo que as vezes nem percebemos. Ao final a autora foi além ensinar a educar crianças feministas, pois ajuda aos adultos na sua constante desconstrução para apoiar o feminismo.

Alguns elementos aqui apresentados já me incomodavam, como o uso da expressão “ajudar” quando as pessoas se referem aos homens realizando tarefas domésticas por exemplo, e tantos outros me foram revelados, como o quanto nossa linguagem é carregada de construções machistas.

A base para o bem-estar de uma mulher não pode se resumir à condescendência masculina. P.  29

Apesar de já ter ganho bastante espaço, a mulher ainda sofre preconceitos diários que são fortalecidos desde a infância, como uma criação em que meninas não podem fazer uma série de coisas, enquanto que os meninos podem se aventurar mais. Garotas que crescem achando que devem ser boazinhas, obedientes e procurar um marido, enquanto que os garotos crescem entendendo que precisam prover o sustento da casa e ser respeitados.

Essas sutilezas na educação das crianças repercutem em analogias sérias na vida adulta de que mulheres são incapazes de algumas tarefas, de que elas devem ser comportadinhas e bonitinhas e tantas outras coisas. Aqui é que entra a importância do que você ensina aos seus filhos e da maneira como você fala com eles e como apresenta o mundo.

Mesmo culturas que esperam que as mulheres sejam sexy – como muitas no Ocidente -, não esperam que elas sejam sexuais. P.67.

Para educar crianças feministas não é indicado apenas para quem quer ter filhos, mas para todos que se interessam pelo tema feminismo.

O conto da aia, da Margaret Atwood

o_conto_da_aia_14955647998256sk1495564800bLer O conto da aia foi perturbador e envolvente. A história se passa na República de Gilead, numa sociedade teocrática construída após um golpe de Estado. Nesse ambiente futurista, mas não tão distante assim, as pessoas apresentam altas taxas de infertilidade por motivos diversos: poluição, uso exacerbado de anticoncepcionais ou qualquer outro fator ainda não comprovado.

Com o intuito de restabelecer os índices de natalidade, é imposta uma organização em que existem categorias de mulheres, as esposas, as Martas e as Aias. As Aias são escolhidas com base em: mulheres com ovários saudáveis para gerar filhos em famílias com mais recursos financeiros, porém inférteis. Essa prática é baseada na história bíblica de Raquel e sua célebre frase “dá-me filhos senão eu morro”. Seria de se esperar que esse negócio não fosse funcionar muito bem, tendo em vista o resultado catastrófico advindo da relaçõe de Abraão em conhecer biblicamente uma mulher porque a esposa não podia ter filhos e pá! a guerra no Oriente Médio está aí.

O assustador de entrar em contato com essa narrativa é ver o quão ela é possível de acontecer e como pode ser eminente. Não sei quanto ao fato das dificuldades biológicas de procriação, mas ao estado de submissão imposta às mulheres, o que já aconteceu, por exemplo, no Afeganistão onde mulheres andavam de mini saia e frequentavam a Universidade até a década de 70 e após um golpe de Estado elas foram obrigadas a usar burca, o que é tremendamente triste!

Para conhecer um pouquinho mais dessa transição no Afeganistão, recomento a leitura de Persépolis e de A cidade do Sol.

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A capacidade de adaptação

O arrepio na espinha das leitoras ao entrar em contato com essa história é o sentimento de incapacidade transmitida. Por mais que você seja totalmente contra essa imposição, os guardas estão lá para te lembrar de que ou você faz ou você morre e diariamente são apresentados exemplos de pessoas enforcadas e postas na muralhas para manter esse sentimento sempre vivo.

Mulheres que antes ganhavam o próprio dinheiro são submetidas a essas condições e percebem como elas conseguiram se adaptar àquela inércia, o que a princípio era uma luta para sobreviver tornou-se o habitual.

A protagonista se depara com esse sentimento principalmente quando ela encontra alguns turistas japoneses, mulheres de saia, ela se dá conta de como tudo parecia tão distante, há décadas talvez, mas não fazia muito tempo desde que adotara as vestes vermelhas.

A narrativa

A história é contata em primeira pessoa, sob a perspectiva de uma aia. A autora imerge o leitor nessa sociedade distópica aos poucos, talvez como uma analogia à adaptação das aias, utiliza recortes do passado (período em que vivemos) e já quase no final a protagonista começa a interagir com o leitor.

Algumas pessoas podem achar o fluxo da história um pouco arrastado, mas essa característica me parece intencional, para aproximar ainda mais o leitor à letargia cotidiana das aias.

Tudo o que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. P. 183.

Esse livro é indicado para todos, homens ou mulheres, mas fica os dois avisos: a escrita é um pouco lenta e isso pode tornar a leitura cansativa; e as mulheres podem ficar aflitas diante das condições apresentadas.

Histórias de tia Nastácia, do Monteiro Lobato

Olá, leitores!

Minha última leitura do ano de 2017 foi o Histórias de tia Nastácia, do Monteiro Lobato, nada melhor do que concluir o ano com um nacionalzinho, em?!

Monteiro Lobato começou a escrever livros infantis por volta de 1920 quando percebeu que as histórias para crianças publicadas no Brasil eram traduções de leitura pesada e de difícil compreensão para os pequenos. Resolveu colher as narrativas do povo brasileiro que eram disseminadas apenas no boca a boca e também criar personagens e causos com elementos característicos do Brasil.

Esse livro reúne 43 histórias contadas por tia Nastácia, são relatos que envolvem sabedoria popular, como por exemplo a origem da expressão “pulo do gato” que é tão usada por nós.

As narrativas são construídas de maneira bem simples, ideal para crianças de todas as idades, e ao final de cada conto há os comentários dos moradores do Sítio do Pica Pau Amarelo, espaço em que há indicação de outras leituras, como a do conto O príncipe feliz, do Oscar Wilde.

Se você for apresentar essa obra para uma criança, é necessário certa cautela, pois nós sabemos que na época em que ele foi escrito, apesar de a escravidão ter sido abolida há cerca 40 anos mais ou menos, ainda encontrava-se com certa força o racismo e a inferiorização de traços culturais advindo dos negros e índios (estamos falando de pessoas que cresceram em famílias que possuíam escravos, uma criação totalmente diferente da nossa), há aqui expressões racistas como “negra beiçuda”, que deve ser trabalhada a certo nível de desconstrução com os pequenos, para evitar reproduções e problemas sociais por conta disso.

Então é isso, Histórias de tia Nastácia possui contos curtinhos e leves que trazem muito da sabedoria popular brasileira, mas que deve ser tratada com cautela quando apresentada a crianças que ainda não tenham maturidade para filtrar o racismo incutido aqui.