A mulher desiludida, da Simone de Beauvoir

O livro A mulher desiludida, da Simone de Beauvoir, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira é composto por três contos A idade da desilusão, Monólogo e A mulher desiludida. Simone é conhecida por seu discurso forte e cheio de personalidade, principalmente sobre a condição humana, como a velhice e o ser mulher, por exemplo.

O primeiro conto, A idade da desilusão, é narrado em primeira pessoa por uma professora de literatura aposentada que hoje escreve livros sobre Rousseau e Montesquieu. Uma intelectual que começa a questionar os fatores mais banais da vida ao chegar à terceira idade. Afinal de contas, o que é envelhecer? O corpo já não lhe é mais o que se tinha o costume de ver ao espelho, as pessoas ao seu redor mudam, se adaptam, mas e você?

“’ Olha lá, você está engordando!’ (Ele não parece haver notado que eu recuperei minha forma.) Comecei um regime, comprei uma balança. Nunca imaginei outrora que me incomodaria com o meu peso, mas me sinto obrigada a me ocupar com ele. Quanto menos eu me reconheço em meu corpo, mais me sinto obrigada a me ocupar com ele. Está a meus cuidados e eu o trato com uma dedicação aborrecida, como a um velho amigo meio desfavorecido, meio diminuído, que precisasse de mim.” (P.15)

Sua vida começa a parecer se esvaindo de seus dedos quando seu filho resolve ser carreirista, se dedicar a um trabalho e galgar ascensão visando o retorno financeiro, logo Philippe a quem tinha planejado todos os passos na academia, haveria de ser intelectual igual a mãe, mas a quebra dessa linha tão bem arquitetada levou a protagonista a se sentir incomodada por atuar naquilo, passou até a cismar com o marido, André:

“Todo mundo o aborrece. E eu? Ele me tinha dito há muito, muito tempo: ‘Desde que a tenho, não poderei jamais ser infeliz’ Mas não parece muito feliz. Não me amava mais como antes. O que é amar, para ele hoje? Tornei-me um velho hábito que não lhe dá mais nenhuma alegria.” (P. 23)

Engraçado que Simone escreveu uma frase nesse conto que ainda é muito atual, principalmente na atual conjuntura social em que nos encontramos “O telefone não reaproxima, confirma distâncias” (P.41). Quem nunca pensou na máxima de que as redes sociais costumam aproximar quem está longe e distanciar quem está perto? Pois bem, o telefone, o smartphone e as redes sociais compõem o tripé dessa estruturação e confirmação de distâncias interpessoais.

O segundo conto pode parecer um pouco estranho por se tratar de um fluxo de pensamento constante. Sabe quando nos deitamos para dormir ou divagamos durante uma viagem no coletivo? Pensamos mil coisas aleatórias e meio segundo depois não lembramos de nada, seguimos nossa vida como se aquele pequeno momento filosófico nem tivesse acontecido. É mais ou menos isso que acontece em Monólogo, o frenesi de pensamentos é marcado também pela escassez de pontuação e de paragrafação.

O terceiro conto é o que dá título ao livro, A mulher desiludida, e traz o diário de uma mulher que descobriu a traição do marido. Tentando não abrir mão do homem que foi o seu grande amor durante anos. É angustiante acompanhar as pequenas lutas da protagonista, que tenta encontrar onde foi que ela errou durante o relacionamento e como tudo mudou bem debaixo de seus olhos. O relacionamento entre casais e entre pais e filhos são repassados em diversos momentos do texto e nos fazem refletir sobre a condição delicada da unidade familiar “Os pais nunca têm as filhas de seus sonhos, pois fazem delas certa ideia, à qual elas deveriam se curvar. As mães aceitam-nas como são” (P.110).

Nos três contos fica nítido toda a angústia feminina diante de seus relacionamentos sociais, um furacão emocional que acaba por exercitar a força da mulher em suportar muito. A inquietação, a luta e a força de vontade são características marcantes nessas três mulheres, bem como o intelecto cultural apurado.

Esse foi o primeiro livro da Simone de Beauvoir que leio e me surpreendi com a carga de sentimentos que nutrem essas poucas páginas. Não é um livro para se ler numa sentada, A mulher desiludida exige um coração aberto e empatia para se caminhar ao lado dessas figuras propostas.

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