Eu li: Mulher perdigueira, do Carpinejar

Mulher perdigueira é o segundo livro do Carpinejar que tenho a oportunidade de ler, sua sensibilidade não mudou, embora aqui haja exageros.

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Carpinejar chamou minha atenção inicialmente por seu estilo diferente, logo fui procurar o que el fazia, vi que tinha programa de TV e que escrevia crônicas. Ótimo, adoro crônicas. Logo de início a sensibilidade do autor nos cativa, nos faz ver pequenos enormes amores em detalhes do nosso dia a dia, ele nos desperta para esse olhar romantizado das coisas, faz crescer em nós a vontade de fazer poesia com as coisas simples da vida.

A maneira como um casal se senta, as maneiras de trocar carícias, as manias e os afetos, tudo isso pode gerar um turbilhão de sentimentos, de comentários e de análises para o Carpinejar. Mesmo me agradando bastante dos pensamentos do autor, algumas crônicas me irritaram, principalmente quando ele demostra ciúmes doentios, como por exemplo quando ele descreve seu ciúme por um sabonete que a sua namorada não o deixava usar, como se o sabonete tivesse algum tipo de acesso exclusivo o lhe proporcionasse algo que ele não seria capaz, bobagem.

Carpinejar não fala só de relacionamentos amorosos em Mulher perdigueira, há também crônicas engraças, como quando sua filha disse que gostava de meias (diante do contexto apresentado) ou quando ele deu uma cédula errada ao flanelinha (quem nunca?).

Mulher perdigueira é uma leitura rápida e divertida, ideal como livro de cabeceira, aquele que você lê um pouquinho antes só para descontrair um pouco a mente antes de dormir.

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Para bom leitor, só a fábula basta

Então eu li um dos clássicos best seller motivacionais usados em coaching e só ficou uma sensação na minha cabeça: ” por que cargas d’água esse livro tem tanta auto explicação?”.

A fábula em si do Quem mexeu no meu queijo? é curtinha, mas ela é apenas um terço do livro, o restante é uma explicação prévia sobre os personagens e o que significa cada um dos elementos da história, recurso dispensável em minha concepção. Depois de contar a história do labirinto e do queijo há, ainda, uma parte com comentários e discussões sobre como a fábula se encaixa em diversos aspectos da vida das pessoas.

Sério mesmo, qual o motivo para tanta explicação? A fábula em si passa a mensagem sobre a importância de mudanças em nossas vidas e como as pessoas que não aceitam e não se adaptam tornam-se ranzinzas e sem perspectiva para alcançar seus objetivos, ponto.

Além de todas esses excessos, as frases motivacionais do livro ainda são repetidas ao final, como se o leitor não as tivesse apreendido ao longo da fábula. Essa maneira de contar do autor me incomodou horrores, parece que ele precisa ter a plena certeza de que todos (eu digo TODOS) os leitores entenderão o que ele quer dizer, não havendo margem para nenhum resquício de dúvidas, isso não deixa o leitor pensar!!!

Eu li: A amiga genial, da Elena Ferrante

Então, Elena Ferrante nos últimos anos tem sido uma das autoras mais comentadas na internet, tanto pela qualidade de seus textos quanto pelo mistério que ela criou a seu respeito.

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A amiga genial é o primeiro volume da tetralogia Napolitana e nos apresenta a infância e adolescência de duas amigas, Lenu (apelido de Elena) e Lila (Rafaella), que cresceram no bairro violento de Nápoles (daí o nome da tetralogia). Lenu resolve nos contar a sua história com Lila depois que a amiga resolve fugir sem deixar vestígios, isso quando ambas já estão com idade bem avançada.

Lenu e Lila são amigas desde os 4 ou 5 anos e aos olhos de Lenu, Lila sempre se destaca em tudo mesmo sem se esforçar muito, seja na escola ou nas brigas contra os meninos do bairro. Espirituosa, inteligente, durona e única, todas essas características de Lila sempre deixam Lenu com a sensação de que ela jamais conseguirá ser como a amiga, o que gera um sentimento de inveja sempre presente na relação das duas.

Em certo momento da história, Lenu continua seus estudos e vai para o Ensino Médio, mas a família de Lila não tem condições de bancar os seus estudos da menina além do Fundamental, então ela começa a estudar sozinha os conteúdos que Lenu vê na escola e chega até mesmo a superar a amiga que frequenta regularmente o colégio. Esse autodidatismo de Lila é realmente fascinante.

Em concomitância a essa narrativa simplória de Lenu criança e adolescente que só tem olhos para Lila, a autora também nos apresenta a violência e pobreza do bairro de Nápoles, as brigas sangrentas que acontecem por bobagens e a luta por uma ascensão financeira (quase impossível) nos negócios da família, pois o filho do sapateiro será sapateiro e o filho do charcuteiro será charcuteiro, exceto os filhos de algumas famílias em que os pais não têm um negócio próprio e acabam sendo contratados como pedreiro e balconista na papelaria, por exemplo.

Elena Ferrante nos apresenta também a uma enxurrada de personagens, são tantas famílias (com quatro ou cinco integrantes mais ou menos, diga-se de passagem) que entrelaçam os acontecimentos entre Lila e Lenu que muitas vezes a narrativa desfoca um pouco das protagonistas, o que tornou esse primeiro livro alongado demais e quase impossível de trazer grandes acontecimentos. Excetuando os estudos de Lenu, as peripécias de Lila em tentar estudar sozinha ou criar uma linha de sapatos para a sapataria do pai e as relações sociais e financeiras entre as famílias, nada de muito emocionante acontece em A amiga genial.

Como livro introdutório à série Napolitana, A amiga genial me envolveu bastante, principalmente por eu gostar de narrativas com um ar naturalista, que retrata um recorte social de maneira crua e realista, mas esse tipo de estrutura pode incomodar a muitos leitores e chegar a tornar-se enfadonha e cansativa.

O impossível de Cocteau e Gaiman

Engraçado quando começamos a ler um autor e nos deparamos com pensamentos parecidos aos nossos, mais atordoante quando o autor fala de maneira tão eloquente exatamente o que você vem pensando há um tempo  que conclui a frase pensando “era exatamente isso que eu queria dizer quando pensava nisso!!”.

Espantoso, singular (?), curioso. Quantas pessoas podem pensar a mesma ideia em níveis diferentes?

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Parei para pensar nisso quando estava lendo o discurso Faça boa arte, do Neil Gaiman, e me deparei com a frase:

“Se você não sabe que é impossível fica mais fácil fazer” (o livro não é paginado)

E, claro, lembrei da célebre frase de Jean Cocteau que tanto rodeia pelo Facebook:

“Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez”

Tá, influencias podem existir, isso é óbvio e nada mais do que normal, mas o que me chamou atenção foi como as palavras soaram mais reais para mim na voz de Neil Gaiman. Lia e relia a frase de Cocteau e a achava bonita, inspiradora, mas sem nenhum significado factual plausível para o meu dia a dia, talvez por hipossuficiência minha de conseguir chegar a essas entrelinhas ou apenas me identifiquei por causa do contexto em que li a frase de Gaiman, ainda não sei.

Frases soltas nos trazem esse efeito de beleza e incompletude. Palavras bonitas que tem um significado rico em seu contexto, mas que perdem parte de seu valor ao se desprenderem, típico das inúmeras frases retiradas do livro O pequeno príncipe. Para quem retirou os quotes dos livros aqueles pensamentos são completos, mas é delicado topar com essas frases por acaso, vocês não acham?

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Eu li: O cirurgião, de Tess Gerritsen

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O cirurgião é o primeiro livro da escritora Tess Gerritsen e como romance de estreia a autora pareceu já ser mestre em Thriller policial.

Não sou muito fã de romance policial, geralmente acho enfadonho e quase sempre desisto da leitura. Mesmo com essa rixa ao gênero, senti-me empolgada do começo ao fim do livro, não tive os momentos de “bler” que eu costumo ter aos livros policiais, fiquei encantada com o desenrolar da investigação, pois mesmo supondo e acertando diversas coisas vira e meche aparecia algo para me surpreender.

Em O cirurgião a autora apresenta os casos de um assassino que não se contenta em matar mulheres, ele remove o útero de suas vítimas antes de mata-las, o mais estranho é que esse psicopata havia morrido há dois anos numa tentativa mal sucedida de completar o seu ritual prazeroso. A vítima sobrevivente começa, então, a sentir-se ameaçada novamente e a polícia de Boston terá uma corrida dupla que consiste em capturar O cirurgião e proteger a médica Catherine.

Com comentários ácidos sobre o quão mais uma mulher tem que se esforçar para se destacar em sua profissão, ainda mais quando não se tem atrativos físicos e está dentro de uma repartição predominantemente masculina, como na delegacia. Rizzoli faz questão de dar acima do seu melhor para ser reconhecida pelo seu trabalho bem feito, mesmo que ela precise ralar trezentas vezes mais do que os colegas.

Interessante também é a forma como Tess nos apresenta o seu psicopata, a forma como ele conversa com o leitor, sempre introduzindo seus pensamentos com conhecimentos de mundo e analogias ao que ele considera como certo ou sagrado. Nada de palavras, conhecemos O cirurgião apenas pelas suas ideias e motivações.

O livro é isso, uma mistura de investigação criminal, doses cavalares de anatomia e procedimentos médicos ( a autora era médica e ela não se acanha em usar seus conhecimentos para descrever as cenas no hospital ou do corpo das vítimas que passaram pelas mãos d’O cirurgião), romance e a luta feminina na sociedade contemporânea.

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