Eu li: Turismo para cegos, de Tércia Montenegro

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Como falei lá no Snap (avecsamantha), a Tércia foi minha professora quando eu fazia Letras na UFC e sua personalidade sempre chamou minha atenção. Atualmente, que considero meu momento de redescoberta da Literatura Cearense, tenho valorizado mais as obras locais e em virtude desses dois pontos, resolvi dar uma chance à escrita da Tércia.

“Turismo para cegos” foi publicado, com o incentivo do programa Petrobrás Cultural, pela Companhia das Letras e foi um dos primeiros trabalhos da autora como romancista, pois até então ela trabalhava bastante com contos.

Falando brevemente da estória, “Turismo para cegos” nos apresenta um casal nada convencional, Pierre, um servidor público insosso em sua essência, e Laila, uma professora de artes que ficou cega por causa de uma doença. A narrativa é contada por uma vendedora da loja Pet Shop onde o Pierre e Laila foram comprar um cão guia e pelos relatos de Pierre durante um encontro com a vendedora numa cafeteria.

Os três personagens centrais dessa estórias são bem caricatos, distintos e tomados por reflexões sobre aquilo que os rodeiam. Eles são construídos para mostrar ao leitor as máscaras que cada um carrega e também a condição a que eles se submetem por causa de suas escolhas.

Escancarou seu ímpeto, trouxe visitas sem aviso, e ainda por cima visitas perturbadoras como só pai e mãe conseguem ser. P. 125

Pierre, que é feio e sem muita perspectiva de viver uma vida que possa valer a pena, encontra um sentido para a sua vida ao dar a Laila a oportunidade de viajar e conhecer, a sua maneira, novos lugares, viver novas experiências. Essa relação de troca custou caro, financeiramente e emocionalmente a ambos. Uma relação nada saudável que foi baseada na conveniência. Em alguns momentos eles apresentam certo misantropismo, como quando falam de pessoas mais velhas, ou recém nascidos .

Aos poucos a personalidade manipuladora de Laila vai consumindo a Pierre. Ao meu ponto de vista, Laila tinha seus acessos de excentricidade por se sentir liberta de algo que sempre lhe aprisionou, concomitante a aceitação de sua nova condição.

Para quem acompanha a Tércia em seu blog pode notar claramente que ela se colocou dentro desse livro, tanto nos personagens como nas cenas descritas, como no caso do cacto enfeitado para o natal e o desprezo pelas luzes natalinas, bem como sua paixão por arte, fotografias e viagens.

Uma coisa me incomodou na construção do enredo, quando certos relatos não seriam possíveis de serem conhecidos, pois Laila havia guardado alguns segredos que são contados por Pierre, mesmo que ela nunca os tenha revelado a ele, como a mania que ela tinha de criar novos rostos para as pessoas depois de ouvir sua voz, mas mesmo assim Pierre os descreve em sua narrativa.

“Turismo para cegos” trabalha bem aquela velha questão sobre as máscaras sociais numa narrativa um pouco estática, sem clímax marcante e com capítulos curtos. Pode até parecer que a estória não leva a lugar nenhum, mas as inúmeras reflexões podem ser feitas nas entrelinhas, um charme de escrita.

Publicado originalmente no blog WMB

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